Toma de anticoagulantes orais e alimentação

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Quais os cuidados alimentares a seguir por quem toma anticoagulantes orais? Os conselhos de Tânia Furtado, nutricionista do Hospital Lusíadas Lisboa.

O uso de anticoagulantes em Portugal tem vindo a aumentar nos últimos anos,  tendência que poderá ter como explicação o aumento da esperança média de vida e a crescente prevalência das doenças cerebrocardiovasculares.
A terapêutica com anticoagulantes orais (ACO) é utilizada em situações graves de trombofilia e/ou de risco trombótico, limitando a coagulação sanguínea e reduzindo a formação de coágulos nas veias e artérias, ou seja, são medicamentos usados para prevenir a formação de coágulos no sangue.
Existem dois tipos de anticoagulantes orais, os anticoagulantes diretos (ou novos anticoagulantes) e os anticoagulantes indiretos.

Anticoagulantes diretos

Os anticoagulantes diretos são mais recentes e foram criados com o intuito de ultrapassar as limitações associadas aos ACO indiretos. Atuam diretamente em fatores de coagulação e apresentam uma baixa interação fármaco-alimento.

Anticoagulantes indiretos

Os ACO indiretos, como a Varfarina, também conhecidos como antagonistas da vitamina K, existem há mais tempo e continuam a ser os mais prescritos em Portugal. Têm um efeito anticoagulante por inibição da vitamina K, que tem um papel preponderante na coagulação sanguínea. Assim, estes ACO apresentam uma elevada taxa de interação fármaco-alimento, especialmente com alimentos ricos em vitamina K.

O uso de ACO indiretos implica uma monitorização regular do INR (International Normalized Ratio) para um ajuste da dose, garantindo a eficácia do fármaco e a segurança do doente. A monitorização regular do INR  é fundamental, especialmente aquando da introdução de novos fármacos, suplementos alimentares ou alterações substanciais nos hábitos alimentares.

Toma de anticoagulantes indiretos e vitamina K

A vitamina K é uma vitamina lipossolúvel essencial para a produção de proteínas envolvidas na coagulação e no metabolismo ósseo. Esta vitamina é sintetizada pela microbiota intestinal e encontra-se também naturalmente presente em alimentos como hortícolas de folha verde (sobretudo acelga, agrião e espinafres), óleos vegetais, ovos, manteiga, banha e produtos fermentados, como o keffir. A ingestão diária recomendada de vitamina K é de 120 μg/dia para homens e de 90 μg/dia para mulheres.

Uma vez que os ACO Indiretos bloqueiam a ação da vitamina K para limitar o processo de coagulação, o aporte de vitamina K (proveniente da alimentação e/ou suplementação) interfere diretamente na eficácia destes fármacos. Assim, quer uma redução, quer um aumento no consumo deste nutriente poderá causar flutuações no estado de coagulação, pondo em causa a eficácia terapêutica. Um aumento da ingestão de vitamina K leva à diminuição do INR e uma diminuição da ingestão ao aumento do INR.

Então, doentes a tomar anticoagulantes, como a Varfatina, devem reduzir a ingestão de alimentos ricos em vitamina K?

Não. Devido aos vários benefícios desta vitamina, nomeadamente na saúde óssea, não está preconizada a restrição da sua ingestão. Até porque reduzir o consumo de alimentos como os legumes de folha verde, implica a redução do consumo de muitos outros nutrientes importantes, como o ácido fólico ou o cálcio.
Mais importante do que uma restrição na ingestão de vitamina K, é assegurar o seu aporte constante ao longo do tempo, evitando grandes flutuações que possam comprometer a terapêutica. Assim, deve ser estabelecida uma ingestão habitual deste micronutriente e definida a dose de ACO em função dessa ingestão que, a posteriori, deverá ser mantida, prevenindo oscilações no INR e evitando a necessidade de ajustes frequentes na dose da medicação.

Contudo, recomenda-se:

  • Utilizar a menor quantidade possível de gordura na confeção dos alimentos;
  • Evitar o consumo de produtos industrializados à base de óleos (molhos, sopas pré-confecionadas, caldos concentrados, entre outros).

E ainda:

  • É importante saber que a toma de suplementação com vitamina E poderá aumentar o risco de hemorragias em doentes hipocoagulados com ACO Indiretos, pelo que deve sempre informar o seu médico, caso tome ou pretenda vir a tomar algum suplemento com Vitamina E.
  • O consumo excessivo de bebidas alcoólicas deve ser evitado. Contudo, um consumo pontual e moderado (um copo de aproximadamente 150 mL por dia para as mulheres e dois copos de aproximadamente 150 mL por dia para os homens) não parece ser prejudicial;

Algumas plantas medicinais influenciam a ação dos anticoagulantes indiretos:

Potenciação do efeito anticoagulante: Camomila; Danshen; Garra do diabo; Dong Quai; Tanaceto; Feno-grego; Gingko Biloba; Serenoa; Âmio-maior/vulgar

Redução do efeito anticoagulante: Gingeng; Chá verde; Erva de São João/Hipericão.

 

Fonte:
Associação Portuguesa de Nutrição. Alimentação e Hipocoagulação Oral. Porto: Associação Portuguesa de Nutrição;2019

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