Rapar os pelos faz com que nasçam mais fortes?

A distribuição e as características físicas dos pelos dependem de fatores genéticos, raciais, sexuais e hormonais. Rapar os pelos pode ter consequências, como a alteração da orientação de crescimento do pelo.

Rapar os pelos faz com que fiquem mais fortes?

Os pelos são uma das características dos mamíferos, mas nos humanos têm vindo a desaparecer. Ainda assim, muitas pessoas tentam eliminar o resto dos pelos que ainda têm, cortando-os. Isso deu origem a mitos, como por exemplo o de que rapar os pelos os torna mais fortes. Mas será mesmo assim?

O que são os pelos e para que servem?

Os pelos são anexos cutâneos. Têm uma função que no ser humano é vestigial, mas que é muito importante nos outros mamíferos: a proteção. Ao longo da evolução, essa função foi perdendo importância nos humanos, exceto possivelmente na zona da cabeça. Pode especular-se que continuamos a ter grandes quantidades de pelo (cabelo) na cabeça para nos proteger da radiação solar, já que esta é a zona do corpo mais exposta ao sol. Ainda assim, os pelos e os cabelos assumem um importante papel social no homem.

Como é que os pelos nascem e crescem?

Os pelos são estruturas especializadas da pele que respondem a estímulos hormonais para crescer. Nascem a partir do folículo piloso, uma estrutura da derme que vulgarmente se designa como raiz do pelo. São constituídos maioritariamente por uma proteína chamada queratina. Os pelos têm três fases de vida: a fase de crescimento, que pode durar alguns meses, até anos (no caso do cabelo); uma fase de repouso, de três a quatro meses; finalmente há a fase de queda, quando surge um pelo novo que empurra o velho. O que diferencia o tamanho dos pelos e que permite que haja no corpo cabelos com um metro de comprimento e pelos no braço com apenas um centímetro é predominantemente o período de crescimento.

Porque é que algumas pessoas têm mais pelos e outras menos?

A distribuição e a densidade dos pelos é uma questão genética. As pessoas herdam essas características dos pais. Não existe nenhum estímulo externo, como lavar mais ou menos a pele, que influencie essa distribuição. O crescimento dos pelos é determinado por elementos internos. A testosterona é a principal responsável pelo crescimento de pilosidade do corpo em ambos os sexos.

Um desequilíbrio hormonal pode determinar um aumento ou uma redução muito importante de pelos. Se uma mulher passa a ter um crescimento ou engrossamento súbito de pelos em regiões que normalmente não tem ¬– como na face, no peito ou à volta dos mamilos – isso pode indicar um desequilíbrio hormonal, como uma maior produção de testosterona.

Os pelos têm um tempo de vida?

O tempo de vida corresponde ao período de crescimento de cada pelo. Enquanto os cabelos podem crescer anos, os pelos do corpo crescem apenas durante algumas semanas ou poucos meses. Além disso, as durações de cada fase da vida do pelo (crescimento/repouso/queda) dependem de pessoa para pessoa e de área corporal para área corporal.

Rapar os pelos faz com que eles cresçam mais fortes?

Não, rapar os pelos não faz com que eles cresçam mais fortes. Os pelos são apenas constituídos por proteínas. Não têm nenhuma estrutura vascular ou nervosa: por isso é possível cortá-los e não sentir dor! Isto quer dizer também que qualquer intervenção na haste do pelo não vai ter qualquer consequência na sua raiz porque não há uma ligação nervosa ou vascular que transmita a informação de que houve o tal corte.

Os pelos não são como as árvores: quando se corta – ou poda – um ramo de uma árvore, ela pode crescer mais forte porque passa a ter menos ramos para manter. Nos pelos, esta comparação não é possível: quando os cortamos eles não vão alterar o padrão de crescimento e não vão crescer com mais força.

O motivo pelo qual o pelo parece recomeçar a crescer com mais força é outra. A forma do pelo é grosseiramente cónica: a ponta é mais fina e a base é mais grossa. No fundo como uma cana que encontramos no campo – quanto mais comprida, mais maleável é. Contudo, ao cortarmos a cana pela base, o coto que deixamos ficar preso ao chão é muito rígido e pouco maleável. Parece, por isso, muito mais forte. Se cortarmos um pelo ou um cabelo rente, temos também a sensação que quando começa a crescer ele é muito mais forte do que quando é comprido. Essa sensação de dureza ou de força do pelo é apenas uma falsa sensação. Quando deixamos a barba crescer vemos que ela torna a ser outra vez maleável. Pode-se até pentear.

Outro fenómeno que alimenta este mito de que rapar os pelos os torna mais fortes é o período em que os adolescentes estão a começar a ter barba. Diz-se que se cortarem a barba vão ficar com os pelos mais duros. Mas durante o crescimento eles vão sempre ficar com os pelos mais rijos independentemente de se cortar ou não a barba. O pelo vai ficar duro porque tinha de ficar duro com o desenvolvimento do adolescente. Não é o corte que vai influenciar a força do pelo.

Cortar os pelos altera alguma coisa na sua dinâmica de crescimento?

O corte não altera a dinâmica de crescimento, mas pode ter outras consequências: a frequência ou o risco de haver um pelo encravado, a orientação do pelo e as condições da pele daquela região onde o pelo foi cortado.

Qual a melhor forma para se ficar definitivamente sem pelos?

O método mais eficaz e mais acessível é a depilação definitiva com uma plataforma laser. O laser emite quantidades grandes de energia que são absorvidas principalmente pelo pelo e não através da pele. Esta energia promove a destruição da raiz do pelo. Muitas vezes tem de se fazer múltiplas sessões. Nalgumas pessoas não se consegue fazer desaparecer completamente o folículo, mas consegue-se diminuir muito a sua atividade; noutras, a depilação é realmente definitiva porque as energias foram fortes o suficiente para destruir o folículo.

Em suma

Afinal, rapar os pelos torna-os mais fortes?
Rapar os pelos não os torna mais rijos/fortes, mas pode ter outros efeitos na pele. No entanto, se alguém quiser ficar definitivamente sem pelos, cortá-los não será a melhor opção. Para isso, o melhor método é a depilação a laser.

 

Revisão científica:
Pedro Ponte, médico da Unidade de dermatologia do Hospital Lusíadas Lisboa e da Clínica Lusíadas Almada

Especialidades em foco neste artigo:
Dermatologia