Tire férias da tecnologia

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Desligue o telemóvel, o computador, o “tablet” e todos os outros gadgets e ferramentas que o ligam à net. Respire fundo, liberte-se da tecnologia, e recarregue as suas baterias.

Se para si um dia sem acesso ao telemóvel é caótico, se não ter internet é como trabalhar com todas as janelas fechadas, se andar a pé sem ipod não combina ou se não concebe estar em casa com a televisão ou o ipad desligados, este texto é para si, dependente da tecnologia.

Hoje, quer queiramos quer não, as tecnologias de informação dominam a nossa vida, embora nem sempre o reconheçamos. “A maior parte das pessoas, mesmo que faça uso da tecnologia durante horas excessivas ainda não o entende como uma adição”, explica Alexandra Rosa, psicóloga no Hospital Lusíadas Lisboa. “Até porque é um “vício” muito aceite e integrado na nossa sociedade”, continua.

As perturbações causadas pela internet

Com base em pesquisas recentes, a associação americana de Psiquiatria que edita o Manual de Perturbações Mentais (DSM), equaciona introduzir na próxima revisão do manual a Perturbação de Uso da Internet (IUD). Um dos argumentos utilizados diz respeito ao facto das alterações verificadas nas ligações neuronais que ocorrem nos centros de atenção, controlo e processamento de emoções são semelhantes às presentes em dependentes de droga. Na China já há clínicas de tratamento para pessoas que se vejam nesta situação de dependência e, na Coreia do Sul, o fenómeno está classificado como uma crise de saúde pública.

“O facto de ainda não termos chegado aos níveis da China ou da Coreia do Sul tem a ver com aspetos culturais e com o nosso clima, entre outros fatores. Cultivamos o gosto pelo convívio pessoal. Em países em que se vive de forma mais isolada, pode atingir essa proporção na ordem da patologia”, explica Alexandra Rosa.

Mas há aspetos positivos?

Mas a mobilidade que as novas tecnologias permite tem, sem dúvida, aspetos positivos. O mundo é hoje mais pequeno, mais acessível. As relações alteraram-se totalmente, podemos falar e ver à distância um ente querido. Mas, por ter aspetos positivos, é importante sabermos gerir. “Por exemplo, conhecer pessoas online pode ser interessante para quem tenha dificuldades em estabelecer relações, mas isso não substitui o contacto pessoal ou a linguagem corporal”, alerta a especialista.

Porém, se coloca na categoria de vantagens, o uso da tecnologia como auxiliar de memória, saiba que esse não é um aspeto consensual. “Ao contrário do que se poderia pensar, os iphone ou as agendas electrónicas são prejudiciais à nossa memória. Os alertas são apenas uma lembrança do momento. Digo sempre aos meus pacientes para não deitarem fora a velha agenda de papel e para comprarem uma todos os anos. A visualização e o treino de outros aspetos da memória são muito importantes, até porque a tecnologia também falha. E não é sinónimo de organização, conheço muitas pessoas muito desorganizadas por confiarem no formato digital”.

Uma questão de estatuto

Não podemos ignorar, porém, que os gadgets e o acesso à internet são um símbolo de estatuto. Quem não tiver nenhum, é, ou sente-se, excluído.Há um certo estatuto social associado às tecnologias, sendo que os jovens são muito permeáveis. Há crianças que, aos oito anos pedem um iphone, mas a utilização que farão corresponde a 5% do que o equipamento permite”, lembra a psicóloga.

Portanto, de acordo com a especialista, o acesso a esses aparelhos deverá ser feito de acordo com a necessidade e da utilidade que vai ter. “Entrou para o quinto ano do segundo ciclo e vai sozinho para casa. Deve ter telemóvel? Depende da necessidade que se tem de ter esse controlo. O bom senso deve entrar na equação: a tecnologia deve ser introduzida na nossa vida à medida que fizer sentido e que for necessária”, continua.

(Re) Conquistar capacidades

Alexandra Rosa acrescenta ainda que “alguns jovens com quem falo não conseguem imaginar a vida sem telemóvel. Conto-lhes que, quando era jovem e combinava com o meu namorado, às vezes esperava uma hora por ele no sítio combinado. E sem saber o que se passava. Hoje perdemos a capacidade de saber esperar. É a angústia de não saber do outro. Quase uma necessidade de nos controlarmos uns aos outros. Ficamos logo angustiados se telefonamos e o outro não atende”, apesar de sabermos por experiência própria que há inúmeras razões para não atendermos o telefone. Assim como reconhecemos facilmente que falar é fácil, desligar é que é difícil.

Artigo publicado a 7 de julho de 2014

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