Exercícios para o cérebro

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Se fazemos desporto regularmente para manter a forma física e retardar o envelhecimento, por que não exercitar também a mente? O neuropsicólogo André Carvalho, especialista em neurociências do Hospital Lusíadas Lisboa, dá-lhe algumas dicas e aconselha a marcar na agenda meia hora diária para fazer um puzzle ou resolver um Sudoku.

Cérebro: como funciona?

É na camada superficial do cérebro, o córtex, que se localizam as funções cerebrais que dependem da nossa “vontade” ou “iniciativa”, as chamadas Funções Nervosas Superiores (FNS), normalmente designadas por funções cognitivas. Cada um dos diferentes domínios cognitivos (atenção, memória, raciocínio, etc.) ocupa determinados territórios, que comunicam entre si através de vias cerebrais onde circulam os neurotransmissores (elementos bioquímicos que ativam as funções cognitivas). Na prática, o que existe é um complexo sistema de comunicação, em que a função dos neurotransmissores pode ser comparada a veículos que, através de estrada, transportam mercadorias de um local que “remete” a encomenda até outro local mais ou menos específico que “solicita” a encomenda.

Domínios Cognitivos

Ao nível das Funções Nervosas Superiores existem diversos domínios cognitivos, mais simples ou mais complexos, que se relacionam entre si pela conectividade cerebral. Podemos considerar cinco domínios cognitivos com grande impacto na qualidade de vida funcional de todos nós, dos mais simples até aos mais complexos:

  • Atenção;
  • Memória episódica;
  • Raciocínio Lógico;
  • Pensamento Abstrato;
  • Funções Executivas.

Todos estes domínios são muito importantes, por serem necessariamente requisitados em atividades da vida diária, tais como:

  • Na execução de rotinas básicas e instrumentais;
  • Na gestão das interações familiar e social;
  • No desempenho regular e eficaz no trabalho;
  • Na capacidade para resolver de forma adequada problemas do dia a dia ou situações inesperadas que carecem de uma resposta adaptada.

É possível trabalhar o desempenho cerebral?

Sim, é possível “ginasticar” estes domínios e com isso melhorar a performance cerebral em vez de ficarmos à espera do efeito que a simples passagem do tempo produz. Chama-se a isso treino cognitivo. Trata-se de um conjunto de exercícios que podem ser feitos diariamente por pessoas saudáveis, com o objetivo de melhorar a ativação cerebral e consequentemente o rendimento intelectual. Para a eficácia do treino é fundamental que a pessoa não tenha alterações do sono significativas; não esteja sob o efeito de drogas ilícitas/álcool; ou numa fase de vida sujeita a stresse agudo ou doença física e mental grave.

Este conceito não deve ser confundido com o de reabilitação cognitiva, que implica objetivos específicos de estimulação e compensação de funções cognitivas perdidas, em situações de lesão cerebral ou de doenças degenerativas importantes do cérebro.

Regras para um treino cognitivo eficaz:

1. Fazer os exercícios com a máxima frequência possível (de preferência diariamente);

2. Realizar sessões no mínimo de 30 minutos;

3. Treinar um domínio por semana, sem intercalar, por ciclos;

4. Respeitar a ordem de cada ciclo, pois existe uma hierarquia de funções cognitivas, que devem ser trabalhadas das simples para as mais complexas, em termos de ativação cerebral;

5. Ir aumentando o nível dificuldade dos exercícios, de sessão para sessão.

Experimentar:

Existem plataformas online recomendadas, como a portuguesa Cogweb.pt, que comercializam planos de treino, assim como materiais de qualidade publicados em livro pela Infotest e outras empresas. Para começar, o neuropsicólogo André Carvalho, especialista em neurociências do Hospital Lusíadas Lisboa, propõe um plano simples, com sugestões baseadas em jogos e passatempos conhecidos:

  • Puzzles de 1000 peças ou jogo de paciência (cartas)

Qualquer uma destas atividades estimula os processos de atenção focada, dividida e seletiva (por ativação do circuitos do tronco cerebral, tálamo e lobo frontal).

  • Registo diário

No fim do dia, escrever uma lista de todas tarefas realizadas desde o acordar, com indicação da hora a que foram realizadas. O exercício trabalha a memória episódica, ao estimular a ativação cerebral dependente dos hipocampos/lobo temporal. Deve ser repetido todos os dias.

  • Sudoku

O passatempo desenvolve o raciocínio lógico, obrigando a trabalhar áreas importantes do hemisfério esquerdo/lobo parietal.

  • Provérbios populares

A leitura e interpretação de adágios populares ajuda a desenvolver o pensamento abstrato, por ativar não só o hemisfério direito, mas também, ao tratar-se de um exercício de leitura, por estimular contra-lateralmente o hemisfério esquerdo.

  • Tangram

Resolver o famoso quebra-cabeças chinês milenar é um exercício puro de flexibilidade mental, planeamento e orientação visuo-espacial, que os nossos antepassados orientais já gostavam de resolver.

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