O que são doenças autoimunes?

O termo doença autoimune é vago e inespecífico. Existem muitas doenças de vários órgãos e sistemas que cursam com fenómenos de autoimunidade. Nestas situações, é importante que os médicos tentem controlar o sistema imunitário que agride o corpo da própria pessoa.

Além da artrite reumatoide, as doenças autoimunes mais frequentes são a esclerose múltipla, o lúpus, a psoríase e o vitiligo, entre outras

O sistema imunitário permite-nos viver num mundo preenchido por bactérias, vírus, fungos e outros seres vivos. Muitos destes organismos não interagem negativamente connosco, mas outros são patogénicos, alimentam-se das nossas células ou parasitam-nos de alguma forma, podendo causar doenças e até a morte. Ao longo da evolução, os animais e os mamíferos foram desenvolvendo um sistema imunitário que lida com estas ameaças em batalhas microscópicas. No entanto, por razões que não são inteiramente conhecidas, em algumas pessoas este mecanismo de proteção ataca os próprios órgãos e tecidos, desenvolvendo-se assim as doenças autoimunes. “As doenças imunomediadas (doenças autoimunes) podem acontecer em pessoas com predisposição genética ou porque a agressão vinda do exterior é para lá do normal”, explica Helena Canhão, reumatologista do Hospital Lusíadas Lisboa.

O mundo dos glóbulos brancos

Basta fazer uma pequena ferida na pele para o mundo exterior ter acesso ao nosso interior. Mas as bactérias, os vírus e outros agressores podem também entrar no nosso organismo pela boca e por outros orifícios como os dos órgãos sexuais. O corpo está preparado para receber estes intrusos. “O sistema imunitário é útil porque ajuda-nos a viver todos os dias lutando contra estes agressores”, refere a médica.

Esta defesa é formada por células chamadas glóbulos brancos ou leucócitos que viajam na corrente sanguínea e estão alojados em certos locais como os gânglios linfáticos. Quando um agente patogénico é encontrado num determinado tecido, os glóbulos brancos são chamados para o local e atravessam as paredes dos vasos sanguíneos para combater o organismo estranho. Tecidos em contacto com o exterior como os intestinos e os pulmões, onde há mais micro-organismos, são lugares com uma forte presença destes polícias do organismo, que têm várias formas de atuar.

Imunidade inata e imunidade adquirida

Há várias classes de leucócitos que têm funções e morfologias diferentes. Existem os neutrófilos, os monócitos, os macrófagos, os eosinófilos, os linfócitos, entre outros. Células como os neutrófilos e os monócitos fazem parte da imunidade inata, que é uma resposta mais geral e inespecífica a qualquer tipo de agente patogénico. Os neutrófilos “comem” agressores como as bactérias num processo chamado fagocitose. Os monócitos também fagocitam e são responsáveis por produzirem outras moléculas importantes para ativar o processo imunitário.

Um desses processos é a inflamação. “Pode haver uma agressão tão intensa que causa uma resposta por parte do sistema imunitário e que produz sintomas como a inflamação e a febre. É uma resposta aumentada mas que faz parte da resposta boa”, explica Helena Canhão. “Quando há uma agressão, o sistema imunitário é ativado e chama células ao local, este aumento de células provoca o inchaço”, diz a médica, descrevendo o processo de inflamação. “Estas células vão produzir substâncias que ajudam a defender contra o agressor, mas que aumentam a vascularização do local.” É por isso que há uma sensação de calor à volta das zonas inflamadas, como quando nos ferimos. A inflamação está associada às doenças imunomediadas como a artrite reumatoide onde intervêm também outros glóbulos brancos, em que o sistema imunitário ataca as articulações das mãos e pulsos provocando a inflamação, a deformação e a rigidez das articulações.

Além da imunidade inata, existe a imunidade adquirida, um processo complexo protagonizado pelos linfócitos. Há linfócitos que produzem anticorpos, pequenas moléculas que reconhecem proteínas específicas, tal como cada chave reconhece a sua fechadura. Cada um destes linfócitos produz muitos anticorpos diferentes, sendo que cada anticorpo reconhece uma proteína diferente.

Quando uma bactéria patogénica entra no corpo, multiplica-se e causa uma infeção, os linfócitos acabam por entrar em contacto com o intruso. Se um dos linfócitos “descobrir” que tem um anticorpo que se liga a uma proteína da bactéria, então o processo imunitário é facilitado. Este linfócito multiplica-se, a nova legião de linfócitos produz os anticorpos que se ligam aos intrusos, e este fenómeno facilita a exterminação do organismo patogénico. Além disso, como este linfócito se multiplicou, o sistema imunitário ganhou a memória deste organismo patogénico. Se, por acaso, este intruso voltar a entrar no organismo, aqueles linfócitos rapidamente identificam o intruso e destroem-no antes de se desenvolver uma infeção. Diz-se que o corpo ganhou imunidade àquele intruso. Este é um fenómeno sofisticado onde assenta o princípio das vacinas.

Doenças autoimunes: quando os linfócitos atacam o organismo

Infelizmente, este mecanismo da imunidade adquirida pode virar-se contra nós. “O próprio corpo reconhece proteínas nossas como sendo estranhas”, diz Helena Canhão, descrevendo o princípio da autoimunidade. Por algum motivo, os linfócitos produzem anticorpos que se ligam a proteínas das células de um tecido do corpo, promovendo uma resposta imunitária contra esse tecido. “É uma resposta que se autoalimenta e entra num ciclo vicioso”, explica a médica. Não se sabe qual o motivo primário que inicia este processo de inflamação. “Achamos que é uma combinação do agressor, do funcionamento do sistema imunitário da pessoa e da sua disposição genética”, explica a especialista.

Consoante os tecidos que são envolvidos e os sintomas produzidos, a medicina foi definindo as várias doenças autoimunes. “Cada doença tem características específicas”, refere Helena Canhão. Além da artrite reumatoide, as doenças autoimunes mais frequentes são a esclerose múltipla, onde o sistema imunitário ataca o sistema nervoso, o lúpus, uma doença que afeta vários tecidos, a psoríase e o vitiligo, que resultam em problemas na pele, a tiroidite autoimune e a hepatite autoimune.

Doenças autoimunes: uma doença crónica que se tenta controlar

Os fenómenos autoimunes são crónicos. “Como não sabemos a causa, não sabemos porque é que um órgão é atacado e outro não”, diz a especialista. “O tratamento passa pelo controlo da inflamação. Só estamos a controlar o ciclo vicioso, não a origem da doença. Se pararmos o tratamento, a doença volta.” Os doentes são tratados com uma combinação de anti-inflamatórios não esteroides e corticosteroides para travar a inflamação, e imunossupressores que diminuem a atividade do sistema imunitário. Mas tudo depende da resposta de cada doente. “Há pessoas que respondem bem ao tratamento. Há outras que não respondem. Há ainda terceiros em que a resposta poderia ser boa, mas há efeitos secundários.”

Consoante a doença, o prognóstico pode ser mais ou menos negativo. No vitiligo, as células da pele que produzem a melanina, chamadas melanócitos, são atacadas pelo sistema imunitário. Isto provoca manchas brancas na pele assinalando a ausência da melanina e pode causar um impacto na imagem que uma pessoa tem de si própria, baixando a sua autoestima, embora não seja uma doença que ameace a vida dos doentes. No entanto, o lúpus e a esclerose múltipla podem diminuir a esperança média de vida das pessoas afetadas.

Para Helena Canhão, o diagnóstico precoce é fundamental, porque possibilita o tratamento antes da doença já ter progredido e já ter provocado efeitos irreversíveis. Por isso, as pessoas devem estar atentas a sintomas gerais como o cansaço prolongado, o mal-estar e situações recorrentes de febre e a queixas mais específicas de órgão. Nesses casos, o melhor é consultar o médico. A história clínica, exame físico e exames complementares de diagnóstico como análises laboratoriais, ajudarão a diagnosticar o problema.

Revisão científica:
Helena Canhão, reumatologista do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidade em foco neste artigo:
Reumatologia