Teste de Papanicolau: o que é a citologia?

O nome do popular exame ginecológico deve-se ao médico grego Geórgios Papanicolau, responsável pela criação da citologia cervico-vaginal, em 1940. Saiba o que é o Teste de Papanicolau e como se processa o exame ainda hoje fundamental no rastreio do cancro do colo do útero.

O que é e para que serve a citologia, também conhecida como Teste de Papanicolau?

O que é?

A citologia cervico-vaginal, vulgarmente conhecida por Teste de Papanicolau, é o exame de rastreio do cancro do colo do útero mais divulgado. O teste foi criado em 1940 e ainda hoje é utilizado como prevenção secundária deste tipo de cancro, permitindo também a pesquisa de bactérias de transmissão sexual como a clamídia.

Como se faz?

O Teste de Papanicolau consiste na recolha de células da superfície externa do colo do útero (a parte inferior e mais estreita do útero, que faz a união com a vagina), para análise laboratorial. É realizado por um ginecologista ou médico de clínica geral que, durante o exame pélvico, feito em posição ginecológica, procede à “raspagem” dos tecidos. O procedimento é rápido e indolor, embora possa causar algum incómodo, principalmente se existir tensão — o relaxamento muscular da zona pélvica facilita a recolha das células.

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Métodos de rastreio

  • Citologia convencional

As células são recolhidas com uma espátula ou escovilhão específicos para realização de um esfregaço em lâmina de vidro, fixado com um spray adequado;

  • Citologia em meio líquido (Thinprep)

A recolha é feita da mesma forma, sendo as células guardadas num frasco para que, após tratamento laboratorial, possam ser observadas em lâmina pelo citopatologista, ao microscópio. “Com este método, consegue-se uma preservação mais adequada das células, o que torna possível retardar a entrega do produto no laboratório por duas a três semanas”, explica Joaquim Gonçalves, coordenador da Unidade de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Lusíadas Porto.

Cuidados a ter

Embora não exija qualquer tipo de preparação específica, é conveniente agendar a consulta ginecológica ou de clínica geral tendo em conta que o Teste de Papanicolau não deverá ser realizado durante o período de menstruação ou nas 48 horas seguintes a uma relação sexual. “A presença destas células dificulta a preparação e a leitura das lâminas”, explica o especialista. Nos dois dias anteriores, estão também desaconselhadas irrigações vaginais, bem como o uso de espumas, cremes e geleias contracetivas ou qualquer medicamento de aplicação vaginal (salvo indicação médica em contrário).

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Para que serve

Ao identificar qualquer alteração nas células do colo do útero, o Teste de Papanicolau permite um rastreio oncológico eficaz, além do despiste corrente de qualquer inflamação ou infeção por micro-organismos.
Na origem do cancro do colo do útero está o Papiloma Vírus Humano (HPV), um vírus sexualmente transmissível (também por contacto direto da pele das zonas genitais, mesmo quando não existe penetração). As células do colo do útero infetadas pelo HPV podem sofrer alterações ligeiras que desaparecem espontaneamente sem tratamento. Mas podem também — nomeadamente quando em causa estão as estirpes de alto risco do HPV — originar lesões pré-malignas que, se não forem detetadas atempadamente e removidas, evoluem para lesões malignas e cancro.
Associados à infeção persistente por HPV, surgem alguns fatores de risco, tais como:
Tabagismo;
Início precoce da atividade sexual;
Multiplicidade de parceiros sexuais;
Multiparidade (muitos filhos);
Uso prolongado da pílula.

Além da vacinação contra o HPV — que tem limitações etárias e apenas protege as mulheres contra as duas estirpes mais agressivas do vírus —, o rastreio através do Teste de Papanicolau é a forma mais eficaz de prevenir o cancro do colo do útero.

Quando fazer o exame?

“O cancro do colo do útero antes dos 20 anos é uma raridade”, sublinha Joaquim Gonçalves. Assim, tendo igualmente em conta que o HPV se transmite por via sexual, existem dois tipos de rastreio:

  • Rastreio organizado:

Com base populacional, constitui uma medida de saúde pública. Tem o seu início, na maior parte dos países europeus, aos 25 anos, determinando a realização de uma colheita de células a cada três anos até aos 65 anos. Pode também estar organizado de forma a promover a realização da citologia a cada três anos até aos 30 anos, seguida de um teste de pesquisa de HPV de alto risco com intervalos de cinco anos, até aos 65.

  • Rastreio oportunista:

É um rastreio não organizado, que se apresenta em três opções:
Citologia a cada três anos, a partir dos 21 anos e/ou pelo menos três anos após o início da vida sexual;
Citologia a cada três anos, a partir dos 21 anos e/ou pelo menos três anos após o início da vida sexual e teste de HPV a partir dos 30 anos de cinco em cinco anos (com a realização de uma citologia reflexa, no caso de teste positivo);
Citologia a cada três anos, a partir dos 21 anos e/ou pelo menos três anos após o início da vida sexual e, partir dos 30 anos, co-teste (citologia e teste de HPV) de cinco em cinco anos.

Eficácia do Teste de Papanicolau

O rastreio com Teste de Papanicolau permite reduzir até 80% as mortes por cancro do colo do útero. O objetivo do rastreio é a identificação de lesões pré-cancerígenas ou alterações cervicais, antes da manifestação de sintomas, permitindo o seu tratamento e prevenindo o aparecimento do cancro do colo do útero. Mas, além disso, ao permitir também detetar cancros num estadio mais inicial, potencia também o diagnóstico precoce, essencial para a eficácia dos tratamentos. Em Portugal, todos os anos são detetados 900 novos casos de cancro do colo do útero.

Colaboração:
Joaquim Gonçalves, coordenador da Unidade de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Lusíadas Porto

Especialidades em foco neste artigo:
Ginecologia e Obstetrícia