Anosmia: quais as causas para a perda total de olfato

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A ausência total de olfato (anosmia) pode surgir depois de uma infeção viral como uma constipação. Leonel Luís, coordenador da Unidade de Otorrinolaringologia da Clínica de Stº António, explica o que é a anosmia, um sintoma também associado à COVID-19.

O olfato desempenha, de forma quase inconsciente, um papel muito importante na vida das pessoas. “Há uma série de informações que nos são transmitidas pelo olfato. Estas vão desde a deteção de maus odores e de odores perigosos (que permitem identificar uma fuga de gás, fumo ou quando a comida está estragada) até aos cheiros que conferem sensações de prazer, como os aromas característicos de um passeio no campo, de uma refeição ou até mesmo os relacionados com a nossa intimidade”, explica Leonel Luís, coordenador da Unidade de Otorrinolaringologia da Clínica de Stº António.
Por essa razão, a perda total de olfato — cuja designação médica é anosmia e que pode ocorrer depois de uma infeção viral como uma constipação — afeta o dia a dia das pessoas. Para o ilustrar, Leonel Luís recorre a uma observação de uma antiga jornalista de moda, sua doente durante vários anos, que lhe relatou “como foi significativo para alguém com o seu percurso profissional perder a capacidade, o prazer, de cheirar perfumes”.

Em Portugal não há números específicos para a incidência de anosmia, mas esta “deverá afetar cerca de 3% dos adultos até aos 40 anos, número que aumenta significativamente com a idade: mais de 20% dos adultos com mais de 60 anos apresentam distúrbios graves do olfato, mas só o revelarão se os questionarmos diretamente”, diz Leonel Luís.

A anosmia tem surgido também associada à infeção COVID-19, havendo evidências de que doentes na Coreia do Sul, China e Itália desenvolveram perda parcial ou total de olfato, em alguns casos na ausência de outros sintomas. Por isso, Leonel Luís aconselha: caso note ausência de olfato (ou do paladar), deve adotar cuidados específicos como isolar-se e contactar um médico especialista.

O que é a anosmia

“A anosmia é a perda total de olfato e a hiposmia é a perda parcial. Habitualmente a perda de olfato está associada à perda do paladar”, explica Leonel Luís, coordenador da Unidade da Unidade de Otorrinolaringologia da Clínica de Stº António.

Causas

As causas mais comuns da anosmia são:

  • A doença nasosinusal. “Por exemplo, a sinusite, o desvio do septo ou mesmo os tumores”, diz Leonel Luís.
  • A patologia pós-infecciosa. “Após uma constipação ou, mais recentemente, após a infeção COVID-19”.
  • As patologias pós-traumáticas.

Há ainda outras causas de anosmia, por doenças neurodegenerativas (Parkinson, esclerose múltipla e doença de Alzheimer, por exemplo), bem como causas tóxicas e genéticas.

Fatores de risco

São muitos os fatores de risco associados à anosmia, alguns dos quais são:

  • O consumo de tabaco e de cocaína;
  • A toma de alguns antibióticos, antidepressivos e anti-histamínicos;
  • Tratamentos de radioterapia;
  • Doenças como a diabetes e a hipertensão.

Anosmia e a COVID-19

“A perda de olfato é um sintoma muito frequente nos doentes COVID-19, podendo não ser só o primeiro sintoma a surgir, como o único sintoma que estes doentes apresentam”, explica Leonel Luís.

Assim, caso note perda de olfato ou de paladar, o médico indica os cuidados que se devem adotar: “Ficar em isolamento e contactar a linha SNS24 (808 24 24 24) ou realizar uma videoconsulta com o seu médico assistente de Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna, Otorrinolaringologia, Pneumologia ou Infecciologia”.

Diagnóstico

Ao contrário do que muitas vezes acontece com a visão ou a audição, o olfato pode ser readquirido: “Se nós, atempadamente, intervirmos, conseguimos muitas vezes reverter o processo”, diz Leonel Luís, acrescentando que é possível “regenerar as células do olfato em cerca de 30 a 60 dias, algo que não existe nos outros sentidos”.

No entanto, há casos em que a perda de olfato é definitiva: “O motivo pelo qual a recuperação não é possível acontece, essencialmente, se houver destruição celular completa”, descreve Leonel Luís, assinalando a importância de uma deteção precoce que nem sempre é fácil. “A maior dificuldade continua a ser o diagnóstico de anosmia, havendo poucos profissionais habilitados com os instrumentos necessários a um correto diagnóstico”, explica Leonel Luís, acrescentando que, por essa razão, “a visita a um médico otorrino é essencial” quando a pessoa se apercebe das alterações no olfato.

Tratamento

O tratamento dependerá do diagnóstico e “poderá incluir corticoides, gluconato de zinco, cirurgia e treino de olfato, isolados ou em combinação”, explica Leonel Luís. O papel do treino olfativo, que permite aumentar a sensibilidade do olfato e ajudar o cérebro a processar corretamente esses sinais, é relevante: “Nomeio, por exemplo, o quão importante e substancial foi a melhoria obtida através do treino olfativo para uma jovem invisual que tratámos recentemente”, assinala Leonel Luís.

Consequências da anosmia para a qualidade de vida

Por reduzir as informações que as pessoas obtêm do meio circundante, a anosmia pode conduzir a outros problemas de saúde. “Os doentes com anosmia apresentam diminuição do apetite, perda de peso, dificuldades em cozinhar, dificuldades na higiene pessoal (podem acabar por tomar vários banhos por dia), depressão e isolamento”, enumera Leonel Luís.

Por essa razão e porque o resultado do tratamento “depende muito do quão cedo o iniciarmos”, é importante não perder tempo: “Quanto mais rápido for o diagnóstico mais rapidamente poderemos iniciar o tratamento.”

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