8 factos e mitos sobre a esclerose múltipla

A Esclerose Múltipla é uma doença inflamatória do sistema nervoso central, com uma evolução não linear e efeitos degenerativos difíceis de antecipar, o que dificulta a perceção do diagnóstico e contribui para o estigma social.

Esclerose Múltipla: mitos e factos

Cátia Carmona, neurologista do Hospital de Cascais, explica o que já sabe a ciência e esclarece também alguns mitos relacionados com a esclerose múltipla, doença que afeta cerca de seis mil portugueses.

1. A esclerose múltipla evolui sempre de uma forma constante e progressiva. 

Mito. A esclerose múltipla (EM) pode assumir diferentes comportamentos e o curso da doença tanto pode ser linear (EM primária progressiva), como desenrolar-se “aos solavancos” (EM de surto-remissão) ao longo de vários anos.

Inicialmente, a EM manifesta-se com frequência através de surtos, que surgem espaçados no tempo e implicam défices neurológicos temporários, a permitir uma recuperação total ou parcial (mas com incapacidade mínima). Em certos casos, a doença não progride e atinge uma fase de remissão permanente. Mas, na maioria das vezes, a certa altura, a EM atinge uma segunda fase, com um acumular progressiva de sequelas após cada surto.
“Nos primeiro anos de evolução, é sobretudo uma doença inflamatória do sistema nervoso central, passando posteriormente a ser mais degenerativa (os circuitos inflamados nem sempre recuperam e acabam por degenerar)”, explica Cátia Carmona, neurologista do Hospital de Cascais, ressalvando que a ciência continua à procura de respostas. “Até à data não existe nenhum marcador biológico que nos permita diferenciar os vários cursos da doença, não podemos antecipar nenhum surto. No entanto, existem determinados estilos de vida saudáveis que são preconizados nestes doentes no sentido de diminuir a incapacidade”, acrescenta a especialista do Hospital de Cascais.

A EM pode assim apresentar-se sob três diferentes formas:

  • Esclerose múltipla de Surto-Remissão:

Caracterizada por défices neurológicos que surgem abruptamente (surto) e podem durar até três semanas, dos quais os doentes recuperam totalmente (ou de forma parcial, mas com uma incapacidade mínima). Trata-se de um processo sobretudo inflamatório, embora possa também existir degeneração (morte celular).

  • Esclerose múltipla Secundária Progressiva:

Define-se por uma progressiva incapacidade de recuperação após cada surto. Um doente com EM de surto-remissão pode, a determinado momento, evoluir para uma nova fase da doença, com surtos menos frequentes, mas de efeito cumulativo, tendo como resultado a perda de funções e uma incapacidade progressiva.
Apesar de existirem “determinados aspetos clínicos que nos permitem perceber se determinado doente tem maior probabilidade de se manter na forma surto-remissão ou progredir para uma forma secundariamente progressiva, a transição é gradual e o diagnóstico é feito à posteriori”, alerta a especialista. O que os estudos permitem perceber é que “a taxa de progressão de uma forma surto-remissão para uma forma secundariamente progressiva aumenta ao longo do tempo (aos 25 anos de doença cerca de 80% dos doentes têm uma forma secundariamente progressiva)”.

  • Esclerose múltipla primária progressiva:

De difícil diagnóstico, consiste numa incapacidade progressiva, que evolui linearmente desde a fase inicial da doença, sem que se verifiquem surtos clinicamente identificáveis. Nesta forma de EM, a inflamação é mínima e o que predomina é a degeneração do sistema nervoso.
“Os termos esclerose múltipla benigna e maligna dão-nos uma noção do comportamento da doença ao longo do tempo com base no grau de atividade e incapacidade da doença e aplicam-se a qualquer uma das fases”, acrescenta Cátia Carmona. “No entanto, podem ser traiçoeiros. Determinado doente, cuja doença se tem apresentado como benigna, a qualquer momento pode passar a ter um curso maligno”, alerta a neurologista.

2. A Esclerose múltipla tem tratamento.

Facto. A ciência não encontrou ainda uma cura para esclerose múltipla. No entanto, existe um tratamento de base com uma ação retardadora e está protocolado o uso de corticoides para combater os surtos, havendo igualmente tratamentos sintomáticos, recomendados para agir sobre as principais queixas dos doentes: dores, fadiga ou rigidez. O tratamento de base da esclerose múltipla (tratamento modificador da doença) tem como objetivo diminuir a degeneração do sistema nervoso central, diminuindo o número de surtos e a incapacidade a longo prazo.
“Há vários tratamentos disponíveis no mercado com bons resultados e diferentes fármacos que, pelo perfil de ação e contraindicações, são considerados de 1ª , 2ª ou 3ª linha. Mas, apesar de existirem normas de orientação clínica para o tratamento da doença, este é sempre individualizado tendo em conta o tipo de EM, o perfil de doenças associadas e as preferências do doente (nomeadamente a preferência por terapêutica oral, em detrimento da injetável, etc)”, explica a neurologista Cátia Carmona.

3. A esclerose múltipla impede a gravidez. 

Mito. A mulher com esclerose múltipla pode engravidar. “Mas deve planear a gravidez e o médico tem um papel fundamental na orientação destas doentes”, alerta Cátia Carmona. É sabido que durante a gravidez a taxa de surtos diminui e no pós-parto existe uma maior probabilidade de haver novo surto. “Parece que a própria gravidez tem um papel imunomodulador no sistema imunitário, dirigindo-o para uma ação protetora da doença à semelhança do que acontece com alguns dos fármacos modificadores da doença já utilizados”, explica a neurologista. “A taxa de surtos no pós-parto está relacionada com a taxa de surtos existente no ano anterior à gravidez e provavelmente deve-se à perda do efeito protetor que as alterações hormonais conferem”.

4. A esclerose múltipla afeta mais os caucasianos.

Facto. “Os estudos demonstram que a incidência de esclerose múltipla aumenta com a latitude e nesses países o número de caucasianos é maior”, começa por explicar a neurologista Cátia Carmona. A ciência não encontrou até agora uma justificação para o facto, e desconhece-se também por que motivo a doença, apesar de menos frequente, assume maior gravidade no caso de doentes não-caucasianos. Em Portugal, a doença afeta cerca de seis mil pessoas.

5. A pessoa com esclerose múltipla não pode trabalhar.

Mito. A incapacidade provocada pela doença varia de pessoa para pessoa e evolui com o tempo, sendo essa avaliação quantitativa feita pelo médico. “A escala de incapacidade que utilizamos atribui uma pontuação a cada um dos defeitos que encontramos no exame neurológico e outras queixas e permite-nos quantificar essa incapacidade e segui-la ao longo do tempo”, explica Cátia Carmona. O doente pode trabalhar se não tiver incapacidade ou tentar encontrar uma alternativa, como trabalhar a tempo parcial ou em casa. “O que verificamos é que a maioria dos doentes tem medo de falar da doença pelo estigma social que representa a EM. Existem determinados defeitos neurológicos que não permitem que o doente faça oito horas de trabalho consecutivas em pé e a inflexibilidade em termos laborais muitas vezes acaba por levar à incapacidade para o trabalho”, alerta a médica.

6. A esclerose múltipla é causada por uma multiplicidade de fatores, genéticos e ambientais.

Facto. A esclerose múltipla é uma doença autoimune — “o organismo passa a reconhecer determinados componentes do sistema nervoso central como não sendo dele e desencadeia um ataque imunológico que resulta na doença”. A origem dessa resposta imunológica não está identificada e pensa-se que possa não existir uma causa única, tendo a investigação sempre considerado fatores genéticos e ambientais. Pensa-se que os fatores ambientais tenham um maior peso no desenvolvimento da doença.

7. A pessoa com EM vai deixar de conseguir andar.

Mito. As dificuldades em andar e/ou percorrer longas distâncias são uma das principais queixas das pessoas com esclerose múltipla, mas segundo as estatísticas, apenas um em cada quatro (25%) acaba de facto por perder totalmente a mobilidade, tornando-se dependente da cadeira de rodas. Além de existirem formas da doença mais benignas e cuja incapacidade não progride, “o arsenal terapêutico atualmente existente veio alterar a história natural da doença”, lembra Cátia Carmona. “No entanto, existem doentes que acabam por perder a capacidade para a marcha e não existem medidas para além das farmacológicas e da reabilitação que o impeçam”.

8. A Esclerose Múltipla afeta mais as mulheres.

Facto. A esclerose múltipla é uma doença autoimune — “o organismo passa a reconhecer determinados componentes do sistema nervoso central como não sendo dele e desencadeia um ataque imunológico que resulta na doença” — e, como todas as doenças deste tipo, afeta mais as mulheres. As mulheres têm uma probabilidade três vezes maior de desenvolver esclerose múltipla. “Não sabemos porque é que as mulheres são as mais afetadas mas sabemos que também é nas mulheres que a doença tem um curso mais benigno”, sublinha Cátia Carmona.

 

Colaboração:
Cátia Carmona, neurologista do Hospital de Cascais

Especialidades em foco neste artigo:
Neurologia