Análises clínicas: o glossário

Análise clínica ou exame laboratorial é um conjunto de exames e testes realizados em laboratórios de análises clínicas, visando um diagnóstico ou confirmação de uma patologia.

As análises clínicas são um meio complementar de diagnóstico, ou seja, são exames solicitados pelo médico após avaliação do doente

As análises clínicas são um meio complementar de diagnóstico, ou seja, são exames solicitados pelo médico após avaliação do doente, no sentido de ajudar a esclarecer as suas hipóteses diagnósticas, monitorizar o tratamento ou estabelecer prognósticos.

Poderão ser analisadas amostras de sangue, urina e fezes, dependendo dos tipos de análises clínicas a realizar e da informação que se pretende. No entanto, em ambiente hospitalar poderá ser pesquisado ainda líquido sinovial, pleural, cefalorraquidiano, entre outros.

Entre as análises clínicas solicitadas com maior frequência temos: hemograma completo, bioquímica do sangue, coagulação, imunologia, exame sumário de urina.

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Apesar de hoje em dia todos termos acesso aos resultados das nossas análises clínicas, cabe ao médico interpretar os resultados. “O médico é que deve avaliar os resultados das análises que pediu e decidir a sua relevância”, explica Eduarda Comenda, especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Lisboa. “A interpretação dos resultados dos testes laboratoriais é muito mais complexa do que a sua simples comparação com os valores de referência”, refere, acrescentando que devem levar-se em consideração vários fatores, tais como o género, a idade e a situação clínica. Deverá ser o médico a orientar o pedido das análises clínicas e a interpretar os resultados.

Glossário das análises clínicas mais frequentes:

Ácido úrico
Este composto é o produto da metabolização de proteínas. O aumento da concentração de ácido úrico no sangue (hiperuricemia) pode surgir em consequência de doenças metabólicas ou renais, da ingestão de alimentos ricos em proteínas, como efeito secundário da administração de alguns fármacos ou excesso de ingestão de álcool, entre outras. A hiperuricemia está associada à gota e ao aparecimento de cálculos renais.

Albumina
É a proteína mais abundante no sangue. Regula a pressão osmótica e serve de transportadora para várias hormonas. Um défice desta proteína pode indicar uma nutrição desadequada e, como é sintetizada no fígado, o seu valor pode estar alterado nos casos de doença hepática.

Colesterol
É uma molécula esteroide encontrada em todas as células do organismo. O colesterol é essencial para a formação das membranas celulares, síntese de hormonas, digestão das gorduras, produção de bílis, metabolização de vitaminas A, D, E e K, entre outras funções. O colesterol que se encontra no organismo tem duas origens possíveis: produção endógena pelo fígado ou obtido através da alimentação.
O colesterol doseado mais frequentemente nas análises clínicas é o LDL (Low Density Lipoprotein), o HDL (High Density Lipoprotein) e o colesterol total. Ao HDL é atribuído um papel protetor. Contrariamente, níveis elevados de LDL podem contribuir para a formação e desenvolvimento de placas ateromatosas nas paredes das artérias – aterosclerose. Estas conduzem progressivamente à diminuição do diâmetro do vaso, podendo chegar à obstrução total e consequente isquemia dos respetivos órgãos afetados.

Creatinina
É um indicador importante da função renal pelo facto de a creatinina ser produzida de forma constante pelos músculos e eliminada através dos rins. A insuficiência renal causa aumento de creatinina sérica, pois esta não é eliminada nas quantidades normais e acumula-se no sangue.

Eletrólitos
São minerais com carga elétrica que se encontram nos tecidos e sangue do organismo sob a forma de sais dissolvidos. Mantêm um equilíbrio hídrico saudável e ajudam a estabilizar o nível de pH no organismo. O ionograma sérico determina a concentração dos iões: Sódio (Na+), Potássio (K+) e Cloro (Cl-), que provêm da alimentação sendo excretados através dos rins. O médico pode ainda solicitar o doseamento do cálcio, do fósforo e do magnésio. Os eletrólitos são utilizados na avaliação dos doentes com pressão arterial elevada, insuficiência cardíaca, doença hepática e renal.

Glicose
A determinação da glicemia constitui o exame laboratorial mais frequente no diagnóstico e tratamento da diabetes mellitus. Um valor de glicemia em jejum ≥ 126 mg/dl (ou ≥ 7,0 mmol/l) é muito sugestivo de diabetes. No entanto, o diagnóstico numa pessoa assintomática não deve ser realizado tendo como base um único valor anormal de glicemia de jejum, devendo ser confirmado numa segunda análise, após uma a duas semanas. A monitorização da glicemia é fundamental no doente diabético, pois valores persistentemente elevados podem conduzir a complicações, tais como a retinopatia diabética e a nefropatia diabética, entre outras.
A hipoglicemia (valor baixo de glicose no sangue) é uma situação aguda, que se manifesta através de sintomas que podem incluir desorientação, dificuldade em falar, confusão, tremores e fadiga, perda de consciência e que em casos extremos pode mesmo levar à morte.
O risco de hipoglicemia é maior em diabéticos que comeram menos do que é habitual ou que ingeriram bebidas alcoólicas e tomaram a medicação antidiabética prescrita. Entre outras possíveis causas estão a insuficiência renal, doenças hepáticas, hipotiroidismo e infeções graves.

Hemograma
É uma análise ao sangue que identifica o número de glóbulos vermelhos (hemácias ou eritrócitos), de glóbulos brancos (ou leucócitos) e de plaquetas, e que os caracteriza. Salientam-se alguns dados mais relevantes:

• Eritrócitos: Traduz o número de glóbulos vermelhos.

• Hemoglobina: É uma proteína que se encontra no interior dos eritrócitos, responsável pelo transporte de oxigénio e é a forma mais precisa de avaliar uma anemia.

• Volume Globular Médio (VGM): Mede o tamanho dos glóbulos vermelhos. Um VGM elevado indica hemácias grandes. Este dado ajuda a diferenciar os vários tipos de anemia. Por exemplo, anemias por carência de ácido fólico apresentam hemácias grandes, anemias por carência de ferro apresentam hemácias pequenas.

• Leucócitos: São as células de defesa responsáveis por combater as infeções e que fazem parte do nosso sistema imunitário. Incluem vários tipos de células, tais como os neutrófilos (em média cerca de 45% a 75% dos leucócitos em circulação. São especializados no combate a bactérias), os eosinófilos (responsáveis pelo combate de parasitas e pelo mecanismo de alergia), os basófilos (um aumento dos seus níveis indica processos alérgicos e estados de inflamação crónica), os monócitos e os linfócitos. Os linfócitos são responsáveis pela produção dos anticorpos. São o segundo grupo de leucócitos mais comum em circulação, mas nos casos de infeção viral podem ultrapassar o número de neutrófilos (inversão da fórmula leucocitária).

• Plaquetas: São as células que intervêm no processo de hemóstase, agrupando-se no local da lesão e formando um trombo com o objetivo de parar a hemorragia. Quando existe um valor baixo de plaquetas (trombocitopenia) podem surgir hematomas e hemorragias espontâneas. Ao aumento dos níveis de plaquetas dá-se o nome de trombocitose.

Serologias virais
As mais frequentemente solicitadas são as da hepatite B e C e do vírus da imunodeficiência humana (VIH). O teste ao VIH só deteta uma infeção pelo VIH com certeza decorridos três meses que se seguem ao comportamento de risco. Se fizer o teste antes do final dos três meses (que se recomenda que aguarde), pode acontecer que seja ainda muito cedo para ter resultados fiáveis: um resultado (ainda) negativo, pode na realidade tornar-se positivo se repetido depois do período de três meses.

Ureia
É o principal produto do catabolismo das proteínas; forma-se principalmente no fígado, sendo filtrada pelos rins e eliminada sobretudo na urina. Se o funcionamento do rim estiver comprometido, como acontece por exemplo na doença renal crónica, a ureia tem tendência a acumular-se no sangue e o seu valor surge aumentado. A ureia pode estar alterada em casos de desidratação, uso de diuréticos, ou hemorragia digestiva, entre outras causas.

Urina
A análise sumária à urina inclui a avaliação de características gerais, como a cor, o aspeto e o pH. A densidade urinária traduz a capacidade do rim para concentrar ou diluir e o nível de hidratação. É também documentada a presença de elementos anormais.

• Proteínas: A deteção de uma quantidade anormal de proteínas na urina (proteinúria) é um indicador de doença renal, mas também pode ser transitória; na gravidez ou associada a exercício intenso.

• Glicosúria: A glicosúria (glicose na urina) pode surgir na diabetes mellitus, na gravidez, ou em casos de disfunção tubular renal.

• Corpos cetónicos: A cetonúria (corpos cetónicos na urina) pode surgir na diabetes e ainda em situações de febre, após exercício físico intenso ou exposição ao frio e em dietas com restrição aos hidratos de carbono ou jejum prolongado. Os corpos cetónicos resultam do metabolismo dos ácidos gordos, quando estes são utilizados para compensar e satisfazer as necessidades energéticas do organismo.

• Bilirrubina A presença de bilirrubina na urina sugere que possa existir obstrução ao fluxo de bílis (colestase) ou uma alteração do metabolismo hepático.

• Urobilogénio Um aumento da excreção de urobilogénio na urina pode estar associado a algumas anemias, a patologia hepática ou nos quadros de febre e de desidratação.

• Leucócitos: A sua presença pode indicar infeção ou inflamação em algum ponto do trato urinário. A confirmação de uma infeção bacteriana deve ser efetuada com a análise bacteriológica de uma amostra de urina.

 

Revisão Científica:
Eduarda Comenda, especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidade em foco neste artigo:
Medicina Interna