Alimentação para diabéticos

Não há alimentos proibidos para diabéticos. Mas doces? Só com muita moderação. Os conselhos de Catarina Saraiva, endocrinologista da Clínica Lusíadas Parque das Nações e da Clínica Lusíadas Almada.

Quais as regras a seguir na alimentação para diabéticos?

A diabetes é uma doença crónica e constitui um grave problema de saúde pública a nível mundial, não só pelo aumento da sua incidência como pela sua elevada morbilidade. O controlo metabólico é conseguido através de uma alimentação saudável e também pela prática de atividade física e medicação oral e/ou injetável. Seguir uma dieta saudável é importante não apenas para controlar os níveis de açúcar, mas também o perfil lipídico, a tensão arterial, minimizando assim o risco cardiovascular e de complicações microvasculares.

O mais importante é conseguir fazer escolhas alimentares saudáveis, que se adaptem ao estilo de vida de cada um, mas com lugar a exceções. As vontades devem ser saciadas. É preciso ter prazer a comer. É muito importante para a nossa saúde conectar a mente e o corpo, identificar adequadamente a fome e saciedade e comer sem culpa, sublinha Catarina Saraiva, endocrinologista da Clínica Lusíadas Parque das Nações e da Clínica Lusíadas Almada.

Que tipo de dieta deve fazer um diabético?

Ao contrário do que se defendia há umas décadas, a alimentação para diabéticos não necessita de ser diferente da uma pessoa sem a doença. Contudo, as recomendações nutricionais para a diabetes e suas complicações são baseadas em conhecimentos científicos e experiência clínica. Devido à complexidade nutricional, Catarina Saraiva recomenda a presença de um nutricionista nas equipas de saúde que tratam pessoas com diabetes.

Deve-se seguir a Dieta Mediterrânica, que representa um modelo alimentar completo e equilibrado devido ao uso de azeite como principal fonte de gordura, ao consumo abundante de produtos de origem vegetal, frescos e pescado e ao consumo moderado de carnes e laticínios.

Assim, devem-se privilegiar:
Os produtos frescos (não processados);
Os legumes e as hortaliças: são pobres em hidratos de carbono e calorias, mas muito ricos em fibras que promovem a saciedade, ajudam a controlar a glicemia após as refeições e favorecem o funcionamento intestinal. São ainda grande fonte de vitaminas, sais minerais e compostos antioxidantes;
As leguminosas: o feijão, o grão, as favas e as ervilhas são fonte de proteína vegetal e de hidratos de carbono de absorção muito lenta (que fazem subir muito lentamente o açúcar). Contêm vitaminas, sais minerais e fibras. São importantes para controlar a glicemia após a refeição, para aumentar a saciedade e controlar os níveis de colesterol;
Os temperos com cebola, alho e ervas aromáticas;
As sopas, os cozidos, as caldeiradas;
A fazer fritos (o que se deve evitar) só se deve usar azeite, óleo de amendoim ou banha;
Evitar os molhos gordos, preferir os estufados (tudo “em cru” em vez de refogados, retirar as peles e as gorduras visíveis das carnes e reduzir os alimentos ricos em gordura saturada e hidrogenada como enchidos, carnes gordas, queijo gordo, natas, salgadinhos, folhados, bolos).

E devem cumprir-se as seguintes regras:
Comer duas ou três peças de fruta por dia: no final do almoço e do jantar ou em pequenos lanches (uma peça de fruta e uma sandes de pão escuro, que permite a absorção mais lenta dos hidratos de carbono). Há frutas que têm maior quantidade de hidratos de carbono (açúcares) do que outros. Devem ser conhecidas as equivalências entre as frutas: por exemplo, uma maçã média equivale a duas ameixas ou 16 morangos;

Os hidratos de carbono mais complexos (chamados farináceos) não devem ser eliminados da alimentação. Mas devem ser comidos com moderação e ser obtidos de fontes como o pão escuro, a batata, o feijão, o grão, os couscous, centeio e aveia e não devem ser eliminados da alimentação;

Evitar outras fontes de farinhas e açúcares como bolos/doces e folhados (reservados para ocasiões especiais);

Preferir o peixe à carne, por ter menos gordura e ser rico em ácidos gordos insaturados ómega 3, com funções importantes na prevenção inflamatória (fortalecem o sistema imunitário e aumentam a resistência a fatores externos invasivos) e da doença cardiovascular;

Optar pelas carnes magras e de aves (sem peles) por conterem um teor mais baixo de gordura do que a carne vermelha. A ingestão excessiva de carne vermelha aumenta a ingestão de gordura saturada e de proteína que levam a níveis mais elevados de colesterol e sobrecarga renal, respetivamente;

Evitar refrigerantes e outras bebidas açucaradas;

Ingerir água: 1,5 a 2 L por dia é a dose recomendada para adolescentes e adultos;

Ingerir bebidas alcoólicas com moderação (3 dl vinho ou duas cervejas por dia para os homens e metade para as mulheres) e sempre a acompanhar hidratos de carbono;

O café e o chá devem ser bebidos com moderação (duas chávenas por dia). No entanto, quem tem hipertensão ou arritmia deve aconselhar-se com o médico ou nutricionista.

E existem alimentos proibidos na alimentação para diabéticos?

Não faz qualquer sentido proibir alimentos. A alimentação deve ser variada, equilibrada e sem restrições. Deve ser adotada a nova Roda dos Alimentos, que permite uma diversificação alimentar adequada.

Mas atenção aos açúcares e outros hidratos de carbono. O consumo de doces, que leva a um aumento de peso, de glicemia e dos níveis de colesterol deve ser reservado para uma ocasião especial (se as glicemias estiverem bem controladas), no final de uma refeição. E, quando tal ocorra, deve reduzir-se a quantidade de hidratos de carbono (arroz, batata, massa, pão…) consumidos. Estas recomendações, que são importantes para os diabéticos, devem também ser tidas em conta pela população em geral.

A dieta deve ser diferente no caso de se tratar da diabetes tipo 1 e da diabetes tipo 2?

Não. As pessoas com diabetes que façam insulina rápida às refeições poderão aumentar a dose de insulina em função da quantidade hidratos de carbono que consumiram. No entanto, se estes forem excessivos acabam por aumentar de peso e não terão qualquer benefício nisso.

Contudo, na diabetes tipo 2, para evitar oscilações de glicemia, devem fazer-se seis refeições por dia, com intervalos de 2 e meia a 3 horas e com um jejum noturno não superior a 8 horas.

Na diabetes tipo 1 deve ser feita uma orientação individualizada por forma a garantir um equilíbrio entre a quantidade de hidratos de carbono ingerida e a quantidade de insulina administrada.

 

Colaboração:
Catarina Saraiva, endocrinologista da Clínica Lusíadas Parque das Nações e da Clínica Lusíadas Almada

Especialidade em foco neste artigo:
Endocrinologia