Como ajudar a criança a desenvolver a autoconfiança

Promover a confiança é essencial desde o nascimento da criança. Mónica Figueira, psicóloga do Hospital Lusíadas Lisboa, explica porquê.

Os pais devem promover a autoconfiança da criança desde o nascimento

Em primeiro lugar, é necessário fazer um breve enquadramento sobre a autoconfiança na infância. A ligação primária estabelece-se com a mãe, na medida em que esta deve satisfazer as necessidades de contacto da criança. Esta ligação tem como premissas básicas que os primeiros anos de vida são fundamentais para a criança e para a natureza do laço afetivo entre a mãe e a criança, e que a criança desde que nasce dispõe de um padrão comportamental que lhe permite ligar-se a quem entre em contacto com ela. A criança nasce com esta necessidade de contacto.

A mãe tem uma função de proteção para com a criança, como se tratasse da sobrevivência da própria espécie. No entanto, a figura de vinculação não se restringe unicamente à figura da mãe. Qualquer pessoa pode desempenhar a função de cuidador (i.e. avós, tios, professores), desde que se envolva numa interação social e durável com a criança, para que esta reaja com facilidade aos seus sinais e aproximações. Tudo o que favorece a proximidade proporciona uma sensação de segurança.

A noção de segurança remete para a crença de que uma figura de apoio e protetora estará acessível e disponível, independentemente da idade da criança. O desenvolvimento adequado da criança pressupõe uma relação de confiança para poder crescer de forma equilibrada e saudável. Essa relação, para ser adequada, deve ter determinadas características que a classificam como sendo de boa qualidade. Deve incluir por parte do adulto cuidador qualidades como coerência, estabilidade e continuidade.

Se a criança construir uma base de segurança, então poderá confiar na disponibilidade da figura à qual se vinculou e explorar o mundo que a rodeia.

Quais são as principais causas para uma baixa autoconfiança nas crianças?

O desenvolvimento emocional saudável traduz-se num bem-estar com elas próprias no meio ambiente que as rodeia. Este bem-estar começa com a mãe, uma vez que no início de vida é ela que simbolicamente representa a síntese de todo o meio. Só mais tarde o bebé irá alargar o conhecimento e o interesse à figura paterna. À medida que progride o seu desenvolvimento psicológico e físico, a criança alarga o seu interesse a outros elementos que não os pais, por exemplo à restante Família, à Escola e a outras figuras significativas da sua vida afetiva.

A qualidade do vínculo emocional com a figura materna ou figura cuidadora é muito importante, uma vez que é a mãe a primeira figura com quem o bebé cria uma relação e interação. Na dependência da qualidade desta primeira relação (entre a mãe e o bebé) será arquitetado todo o seu desenvolvimento, quer do equilíbrio psíquico quer em termos da organização da sua personalidade.

Se a criança não tiver uma relação segura e de qualidade com a mãe ou com a figura cuidadora, pode vir a experienciar níveis elevados de angústia e de frustração.

Crianças que não conseguem dar significado às suas inquietações podem desenvolver sintomas psicopatológicos como, por exemplo, uma depressão. Na verdade, todas as pessoas têm angústias sendo que, na sua maioria, estão latentes. No entanto, ao longo do desenvolvimento vão surgindo outras como o medo de ser abandonado, o medo de perder as figuras de referência, o medo de castração (i.e., o medo de perder parte do seu corpo) e o sentimento de ameaça (i.e., o medo do escuro que atinge muitas crianças em certas fases de desenvolvimento).

Estes processos têm uma duração e uma manifestação sintomatológica que variam de criança para criança. Surgem inadvertidamente no decorrer de um acontecimento com valor de perda ou luto e desenvolvem-se progressivamente, levando à modificação do comportamento da criança.

Qual é o impacto na idade adulta de uma baixa autoconfiança na infância?

As manifestações são semelhantes nos adultos e nas crianças, no entanto, diferem no que diz respeito à forma como reagem.
Na idade adulta podem surgir comportamentos agressivos, baixo rendimento profissional, baixa autoestima, sentimentos de culpa, alterações ao nível da alimentação e do sono, alcoolismo, toxicodependência, depressão, e podem existir ideias de morte ou suicídio.

Quando estas condições se verificam, podemos prever alterações graves no plano da saúde mental e física. Na idade adulta, há uma transferência da relação com os pais para as relações amorosas.

Os pais têm um papel decisivo no desenvolvimento da autoconfiança dos filhos?

O desenvolvimento da autoconfiança tem uma vantagem seletiva, ao permitir a proximidade de figuras adultas protetoras, eventualmente úteis na luta contra os perigos do meio.

O bebé tem uma tendência inata para se vincular a um grupo estável de adultos, sendo que um desses adultos será a figura de vinculação privilegiada. No bebé, certos comportamentos estão destinados a favorecer a proximidade, como o sorriso e a vocalização. Por seu lado, o choro é um comportamento que leva o cuidador a ter atitudes de proteção.

No caso das crianças, muitos pais têm medo de exercerem a sua autoridade enquanto figuras cuidadoras. Para um bom desenvolvimento emocional é muito importante a Afetividade (i.e. colo, beijo, abraços e dizerem-lhes muitas vezes “gosto de ti”), a Autonomia (i.e. tudo o que as crianças podem fazer sem que os pais façam por elas) e a Assertividade (i.e. autoridade q.b.).

Quais são os erros que os pais podem cometer e que podem afetar a autoconfiança da criança?

A relação saudável entre pais e filhos faz-se através de atitudes de respeito e da criação de laços afetivos e não através do medo. Os pais cometem erros e um desses erros é a incapacidade de dizerem “não”. As crianças aprendem primeiro a dizer “não” e só mais tarde o “sim”. O “não” remete para os limites. É impossível crescer de forma saudável sem regras nem limites. Outro erro dos pais é a falta de compreensão para os resultados escolares. Nestes casos os pais devem compreender que às vezes os bons alunos também têm notas menos boas e não devem compará-los com os colegas e/ou irmãos. A “não valorização” da criança, por partes dos pais é outro erro. Os pais devem aceitar que a criança diga “não sou capaz” ou “não consigo” e ajudá-los a conseguir atingir os objetivos.

Quais são os sinais associados a uma baixa autoconfiança a que os pais devem estar atentos?

As crianças com baixa autoconfiança têm um grande sentimento de perda e de mal-estar. Este sentimento é vivido de forma intensa.

Os sinais de alerta deste mal-estar podem ser vários:

Dificuldades escolares (i.e. falta de concentração e dificuldades de aprendizagem);

Dificuldades nas relações interpessoais e na socialização (i.e. passa de um relacionamento para o outro sem a capacidade de fazer amigos, não tem um grupo de pertença), isolamento, exclusão e solidão. Geram sempre sintomas, tais como alterações do sono e pesadelos, ansiedades, em que a tristeza e a angústia se combinam e manifestam no mesmo sintoma como um alarme. Nesta fase pode dominar a tristeza, a inibição e o desinteresse.

Como devem os pais atuar perante estes sinais?

Quando se observa uma criança infeliz e retraída, deve-se acolhê-la e apoiar com afeto para a ajudar a recuperar da tristeza.

Muitas vezes não é suficiente e aí deve falar com o seu pediatra assistente ou médico de família para que eles encaminhem para uma ajuda especializada, nomeadamente para a Consulta de Psicologia e/ou Consulta de Pedopsiquiatria.

Autoria:
Mónica Figueira, psicóloga do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Psicologia