Depressão infantil: como identificar

O “mal do século XXI”, nas palavras da Organização Mundial de Saúde, afeta também os mais novos. A depressão infantil é uma realidade e sintomas como a apatia, isolamento, tristeza, alterações do sono e do apetite, diminuição do rendimento escolar, entre outros, não devem ser descurados — mesmo na fase pré-escolar, aos três ou quatro anos. “Não há uma idade mínima para chegar ao diagnóstico”, confirma Isabel Carvalho, pedopsiquiatra no Hospital Lusíadas Lisboa.

Depressão infantil: como a pode identificar?

O que é?

A depressão infantil é uma perturbação psiquiátrica e não apenas um normal estado de tristeza. “Tal como acontece com os adultos, a depressão da criança envolve essencialmente alterações ao nível do humor e o desenvolvimento de sentimentos de autodesvalorização com consequências para si própria e adaptação ao meio envolvente, que podem ser mais ou menos graves”, explica a pedopsiquiatra Isabel Carvalho, do Hospital Lusíadas Lisboa. O quadro depressivo nos mais novos nem sempre se expressa com humor deprimido, mas também através de sinais exteriores de desconforto como humor irritável, instabilidade ou agitação psicomotora, comportamentos de oposição ou queixas somáticas, por exemplo dor de cabeça ou dor abdominal.

Sinais de alerta

Os sintomas da doença são comuns a uma série de outros problemas e podem confundir-se frequentemente com a Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), etc. Em qualquer dos casos, é importante que os pais não descurem os sintomas de depressão infantil, nomeadamente quando estes surgem após um acontecimento traumático (separações, abandono, doença ou morte de uma figura de referência, etc.):

Humor depressivo, tristeza e/ou choro frequente;
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Humor instável, com aumento da irritabilidade;
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Perturbações do sono, seja de insónia ou hipersónia;
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Alterações do apetite, seja diminuição ou aumento marcados;
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Diminuição do rendimento escolar;
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Falta de concentração;
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Isolamento social, nomeadamente na escola;
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Baixa autoestima e constantes sentimentos de culpa;
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Extrema sensibilidade à rejeição e ao fracasso;
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Fadiga, falta de energia;
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Apatia, perda de interesse nas brincadeiras ou atividades que anteriormente a entusiasmavam;
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Queixas somáticas;
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Agitação psicomotora;
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Outras.

 

Dimensão do problema

Os estudos sobre a depressão infantil revelam que “a prevalência da doença aumenta com a idade e, até à puberdade, afeta na mesma proporção ambos os sexos — um equilíbrio que não se verifica na adolescência, quando a depressão é cerca de duas vezes mais comum entre as raparigas”, explica a pedopsiquiatra Isabel Carvalho. Estatisticamente, de acordo com a última versão do Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, a depressão tem uma prevalência de 2 a 5% entre crianças e adolescentes.

Causas de depressão infantil

A depressão infantil pode surgir na sequência de uma situação traumática, “ou um acontecimento sentido pela criança como traumático”, como sublinha Isabel Carvalho, alertando para a subjetividade da classificação. Uma separação, abandono, doença ou morte de alguém próximo, uma mudança de escola, são apenas alguns exemplos. “Habitualmente há uma situação, ou várias, que se relacionam. Nem sempre existe um acontecimento único identificável, a causa da depressão infantil pode ser multifatorial”, alerta a especialista.

Alguns estudos sugerem que a genética possa ter alguma influência na propensão para o seu desenvolvimento, mas Isabel Carvalho atribui um peso relativo a essa variável. “A criança nasce com um património genético, mas depois estabelece relações numa família, na realidade de uma escola, pode ou não experienciar acontecimentos de vida traumáticos. Para o desenvolvimento de um quadro depressivo, o meio ambiente é, por esse motivo, determinante”, esclarece a especialista. Um historial familiar depressivo pode, de facto, ser um sinal de alarme, pela importância dos aspetos relacionais e “por poder significar uma situação vivida como negativa pela criança”.

Diagnóstico

As crianças têm maior dificuldade em exprimir verbalmente o que sentem e não existem sintomas exclusivos da depressão infantil. “Muitas vezes, não é fácil chegar ao diagnóstico”, diz Isabel Carvalho. Além da observação e avaliação dos sintomas verificados, atendendo à sua duração, frequência e intensidade, é importante ouvir os pais e outros cuidadores, perceber se a criança teve alguma experiência vivida como traumática, se em causa estão problemas relacionais, entre outros. “Pode também ser necessário pedir exames complementares de diagnóstico”, nomeadamente testes psicológicos para despiste de outras patologias, acrescenta a especialista (problemas de desenvolvimento, perturbações de comportamento, entre muitas outras).

Tratamento da depressão infantil

O recurso a antidepressivos, estabilizadores de humor ou outros psicofármacos no tratamento da depressão infantil continua a dividir os especialistas. “É uma questão controversa. Na minha opinião, a psicoterapia individual deve ser o tratamento de eleição, não excluindo também a intervenção com a família e, se necessário, com a escola ou outras pessoas e/ou entidades que rodeiam a criança”, começa por explicar a pedopsiquiatra. “O que não quer dizer que, em situações mais graves, não se recorra a medicação para alívio dos sintomas”, acrescenta. A abordagem psicoterapêutica individual tem uma duração variável, consoante a severidade da situação, mas implica um acompanhamento regular que pode variar entre meses a anos.

Colaboração:
Isabel Carvalho, pedopsiquiatra no Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Pedopsiquiatria