VIH/SIDA: como lidar com o diagnóstico

Deixar de ter uma vida sexual ativa, não poder ter filhos, deixar de ter amigos. Eis alguns dos receios que um paciente enfrenta ao saber que é seropositivo. Inês Vaz Pinto, especialista em Medicina Interna e responsável pela consulta VIH do Hospital da Cascais, desfaz os estigmas que ainda permanecem.

Como lidar com o diagnóstico de VIH/SIDA?

Em Portugal, o grande problema da infeção VIH/Sida é o diagnóstico tardio da infeção porque o teste ao VIH não é suficientemente generalizado ou pedido as vezes que deveria ser. Por exemplo, na fase aguda da infeção (logo depois de ela ocorrer), pode haver sinais e sintomas deste processo mas muitas vezes só são detetados por alguém com experiência: os doentes chegam às urgências com queixas de uma simples gripe, uma dor de garganta ou manchas na pele.

No último ano, no Hospital de Cascais, foram diagnosticadas cinco infeções em estado agudo. Contudo, quando esta fase passa despercebida, o doente pode estar vários anos sem apresentar qualquer sintomatologia. E são esses doentes que estão infetados e ainda não o sabem que mais transmitem a infeção a outras pessoas.

Quando fazer o teste ao VIH?

A recomendação da Direção-Geral da Saúde (DGS) é que todas as pessoas entre os 18 e os 65 anos devam fazer o teste ao VIH pelo menos uma vez na vida nos seus exames de rotina. Mas são cada vez mais os diagnósticos positivos feitos acima dos 60 ou 70 anos — pelo que o limite de idade da DGS poderá ser agora alargado ou deixar de existir.

Quem pode ficar infetado?

É impossível generalizar. Depois da introdução dos programas de troca de seringas e de substituição opiácea com metadona são raríssimos os novos casos em toxicodependentes em Portugal. O VIH é hoje, sem qualquer dúvida, uma doença de transmissão sexual. Contudo, apesar de o maior número de casos ser em heterossexuais, é entre os homossexuais que a infeção cresce mais no país. Também há mulheres de 40 anos que são apanhadas de surpresa pelo diagnóstico positivo porque o marido tinha uma relação extraconjugal.

Atenuar o diagnóstico a curto prazo

Quando o médico partilha com um paciente que ele é seropositivo, deve transmitir-lhe que apesar de ser uma doença sem cura, tem tratamento e que, cumprindo a medicação, as perspetivas de sobrevida são grandes.

Além disso, a medicação já não transforma fisicamente as pessoas. O estigma físico de há algumas décadas não existe mais — apesar de o social ainda continuar. Um seropositivo pode fazer uma vida dita normal, e deve saber que pode continuar a ter relações sexuais, não precisa de se afastar da família, nem de ter cuidado com a comida, os pratos e a roupa em casa. Ou que as mulheres podem ter filhos.

Depois do diagnóstico, cabe ao doente decidir se quer ou não contar a outras pessoas. O médico insiste para que o faça sempre no caso dos atuais ou últimos parceiros ou parceiras sexuais, pois estes também podem estar infetados e têm direito de o saber para também serem tratados.

Lidar com o diagnóstico para a vida

  • Tomar sempre a medicação

A medicação para um doente diagnosticado é para a vida. E é sempre eficaz, desde que a cumpra. O grande problema com que os médicos lidam é se o paciente a toma ou não. Quem tem mais facilidade em aceitar a doença, assume o tratamento como uma rotina, como se fosse um comprimido para a hipertensão ou para a diabetes. Mas há muitas pessoas para quem tomar a medicação é relembrar que têm a doença. Estas, que estão ainda num processo de aceitação, são as que hoje são mais difíceis de acompanhar e controlar. Alguns conselhos sobre a medicação:

Se vai de férias ou de fim-de-semana, leve sempre medicação a mais, porque os imprevistos acontecem e pode regressar a casa mais tarde de o que antevira.

Quando viaja de avião nunca envie os medicamentos na mala do porão porque se podem extraviar.

  • Usar sempre o preservativo nas relações sexuais

Desde há uns anos que se sabe que os doentes que estão medicados e controlados há pelo menos seis meses a um ano têm probabilidade praticamente nula de transmitir a infeção por via sexual (ou seja, não tendo carga viral detetável no sangue, também não têm o vírus no esperma ou nas secreções vaginais). Ainda assim, sabemos que em Medicina não existe risco zero. Pelo que se deve insistir: deve-se usar sempre o preservativo. Esta é a forma mais eficaz de prevenir a transmissão desta infeção e de outras, como a sífilis, as hepatites, a gonorreia.

  • Um casal serodiscordante pode ter filhos

O método para que um casal serodiscordante (isto é, em que apenas um dos membros do casal é positivo) engravidar é simples, e diferente caso seja o homem ou a mulher o elemento infetado. As opções são discutidas na consulta médica, na presença do casal.

  • Fazer análises e ser vigiado pelo médico

No início, o seguimento feito através de análises e consultas é mais frequente. No entanto, é cada vez mais frequente na Europa, que um doente que esteja controlado faça análises uma a duas vezes por ano. As mulheres infetadas são também acompanhadas pela especialidade de Ginecologia.

Que papel têm a família e os amigos?

O que a família e amigos podem fazer por um seropositivo é muito variável. Primeiro, porque o paciente só conta a quem quer e a maioria escolhe não revelar o diagnóstico a ninguém ou elege apenas uma pessoa a quem fazê-lo. Os familiares ou amigos que sabem da infeção são, geralmente, pontos de apoio do doente. Por outro lado, também há doentes que por diversas razões não são totalmente autónomos ou responsáveis e dependem de um familiar para ir às consultas ou recordar-lhes quando tomar a medicação.

Especialidades em foco neste artigo:
Protocolo VIH SIDA
Medicina Interna