Vamos falar sobre gaguez?

A gaguez não pode ser causada por um susto, mas pode ser transitória. Lina Marques de Almeida, terapeuta da fala do Hospital Lusíadas Lisboa, explica o que é e aponta conselhos para lidar com a gaguez.

Vamos falar sobre gaguez?

O que é a gaguez?

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a gaguez é uma alteração no ritmo da fala, na qual o indivíduo sabe precisamente o que deseja dizer, mas, por outro lado, é incapaz de o fazer devido a movimentos involuntários da face e do corpo. Esta alteração da comunicação verbal é ainda caracterizada por um discurso com prolongamentos, bloqueios, palavras partidas e repetições que tanto podem ser de sons ou de sílabas de uma palavra e/ou monossílabos. Por vezes, a pessoa também recorre a várias palavras para substituir uma palavra “problemática” (circunlóquios).

Causas

É comum os pais chegarem à consulta e perguntarem por que a gaguez “está a acontecer” e explicamos que se sabe que a sua etiologia pode ser hereditária (i.e. genética), neurológica e psicossocial, sendo esta última relacionada com a pressão exercida pela família após o surgimento da “gaguez”. Por exemplo, os familiares podem insistir para que a pessoa fale corretamente, desencadeando emoções negativas como ansiedade, medo e stresse no momento de falar. É, ainda, importante desmistificar que a gaguez não aparece após um susto ou trauma.

Prevalência

Os estudos indicam que a prevalência da gaguez é igual nos rapazes e nas raparigas e entre os dois e os cinco anos é comum existir uma gaguez transitória. Ou seja, a criança apresenta alguns sinais já supracitados e estes não devem durar mais de seis meses. Nesse período “máximo” a gaguez deverá ter desaparecido. Sendo assim, deverá considerar como sinal de alerta os sinais de gaguez por um período superior a seis meses, bem como o surgimento, em simultâneo, de comportamentos associados, tais como piscar os olhos ou outros movimentos da face e/ou do corpo.

Há cura?

Somos muitas vezes questionados se há cura para a gaguez e a verdade é que não há. Contudo, quer em crianças, quer em adultos, esta alteração não deverá ser um problema durante a comunicação no dia a dia. Um terapeuta da fala ajuda-o a adquirir estratégias para diminuir os fatores que estão a interferir com a fluência do discurso e a eliminar o medo de comunicar perante determinados interlocutores e/ou situações sociais. A intervenção precoce em todos os casos é essencial.

Como lidar: 6 conselhos

Quer estejamos perante uma gaguez transitória ou crónica é muito importante que todas as pessoas que convivam com as crianças e/ou adultos com gaguez entendam que uma atitude positiva origina mudanças durante o processo comunicacional. Tenha assim em consideração as seguintes estratégias:

1. Não diga à pessoa para “falar mais devagar” ou para “ter calma”.
Dizer à pessoa que gagueja para “respirar fundo” ou para “pensar antes de falar” não a ajuda. Trata-se de um mito. Estes “conselhos” fazem com que a pessoa se sinta mais consciente das disfluências e quando tenta colocar em prática os “conselhos” que ouve, fica frustrada porque não resultam.

2. Não termine as palavras nem fale pela pessoa.

3. Espere a sua vez para falar e ouça o outro.
Para a pessoa que gagueja é mais fácil falar quando tem poucas interrupções e a atenção dos outros. Devemos sempre esperar que a pessoa acabe de falar e manter o contacto visual. Não devemos interromper a pessoa que gagueja porque muitas vezes tal pode levá-la a voltar atrás no assunto, demorando mais tempo e causando frustração.

4. Fale com a pessoa com calma, fazendo pausas frequentes.

5. Mostre que está atento ao conteúdo da mensagem e não à forma como é dita.
Devemos ter cuidado com a expressão facial quando estamos a falar com um gago, pois a pessoa que gagueja pode subentender que estamos desinteressados no assunto levando à inibição de comunicar.

6. Não faça da gaguez algo de que se deva ter vergonha. Fale da gaguez tal como fala sobre qualquer outro assunto.

Mitos e factos associados à gaguez

Há várias ideias feitas sobre a gaguez, mas nem todas são verdade. Esclarecer as dúvidas é importante para poder ajudar as pessoas.

Pessoas que gaguejam são menos inteligentes?
Mito. As pessoas que são disfluentes são tão inteligentes como pessoas fluentes e não há qualquer tipo de relação entre ambas.

A criança, o jovem ou o adulto se quiser pode falar sem disfluências se se esforçar?
Errado. Não se trata(m) de comportamento(s) voluntário(s) que a pessoa consiga controlar, portanto, mesmo que a pessoa queira não vai conseguir evitar a gaguez.

A gaguez, tal como apareceu sozinha, desaparece sozinha?
Mito. A gaguez não desaparece sozinha e a eficácia da intervenção, por parte de um terapeuta da fala, é menor se a gaguez persistir por mais de um ano, na adolescência ou no adulto.

Pessoas que gaguejam são nervosas, tímidas, inseguras, stressadas, entre outros?
Mito. Algumas pessoas que gaguejam podem ser tão nervosas, tímidas, inseguras, stressadas, entre outros, tal como as pessoas que não gaguejam. Do mesmo modo, pessoas que gaguejam podem ser extrovertidas e tagarelas como qualquer outra pessoa.

Um susto pode ser a causa da gaguez?
Mito. Não há qualquer evidência científica sobre a causa de gaguez ser um susto. Sabe-se que a etiologia pode ser hereditária, neurológica ou psicossocial.

A pessoa tem gaguez porque tem uma língua muito curta?
Mito. Não há qualquer relação entre a função das estruturas do aparelho fonador e a causa da gaguez.

Se a criança não tem noção de que gagueja não devemos falar sobre “gaguez”?
Verdade. Não devemos falar sobre “gaguez” se a criança não tiver a perceção que gagueja porque poderá agravar o problema e piorar o prognóstico numa criança.

 

Fontes:
Associação Portuguesa de Gagos
The Stuttering Foundation of America

Autoria:
Lina Marques de Almeida, terapeuta da fala da Unidade de Otorrinolaringologia do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Otorrinolaringologia (e Terapia da Fala)