Principais causas de vertigem

“A vertigem é um sintoma, não é uma doença”, explica Conceição Monteiro, otorrinolaringologista responsável pela Consulta de Vertigem e Reabilitação Vestibular do Hospital Lusíadas Lisboa e presidente da Associação Portuguesa de Otoneurologia. Há várias doenças que podem causar vertigem: fique a conhecer as mais comuns.

As doenças que podem causar sensação de vertigem e tontura

A vertigem é a sensação ilusória de movimento do ambiente que nos rodeia. A tontura transmite uma sensação de instabilidade do próprio corpo, que se pode traduzir, por exemplo, numa dificuldade de fixação ocular. O desequilíbrio traduz-se numa sensação de queda. A vertigem, a tontura ou o desequilíbrio podem estar relacionados com diversas doenças. A maioria dos casos tem origem em perturbações do sistema vestibular periférico (ouvido interno) mas outros estão ligados a disfunções no sistema vestibular central (cérebro).

O ouvido interno tem recetores, chamados canais semicirculares, que permitem sentir a posição e o movimento do corpo. Estas informações chegam ao cérebro através do nervo vestíbulo-coclear e são processadas no tronco cerebral e no cerebelo, assegurando o equilíbrio. Um distúrbio em alguma das fases deste processo pode originar vertigem, tontura, zumbido ou diminuição da audição.

Do mesmo modo, qualquer distúrbio que possa afetar o cérebro também pode provocar vertigem, sendo por isso muito importante fazer um diagnóstico que diferencie as causas periféricas das causas centrais da vertigem. As causas periféricas são as mais frequentes, no entanto, é preciso uma atenção particular no caso de a vertigem ser provocada por causas centrais, pois podem pôr em risco a vida da pessoa.

Doenças mais frequentes que provocam vertigem

Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB)

Acontece quando há uma deslocação de partículas denominadas otocónias, também conhecidas como cristais para os canais.
Como existem três canais semicirculares em cada ouvido, qualquer um deles pode ser atingido, sendo a VPPB do canal semicircular posterior a mais frequente.
A característica mais comum é uma vertigem intensa, de curta duração (de segundos), desencadeada pelos movimentos da cabeça, sobretudo quando a pessoa está deitada. Normalmente é acompanhada de náuseas e vómitos, sem perda de audição e sem sintomas ou sinais neurológicos.
O diagnóstico é definido pelas queixas da pessoa, ou seja, pela sua história clínica e confirmado por uma prova diagnóstica que é a prova de Dix-Hallpike.
O tratamento consiste numa manobra terapêutica específica para o canal semicircular posterior (trata-se de um movimento preciso da cabeça, feito por profissionais de saúde), que leva ao reposicionamento das partículas.

Doença de Ménière

A doença de Ménière é uma doença crónica do ouvido interno, caracterizada por um conjunto de sintomas cocleares (do ouvido interno) e vestibulares.
Foi descrita a primeira vez pelo médico francês Prosper Ménière, no século XIX, mas ainda hoje não existe uma explicação definitiva para a sua causa. O diagnóstico é feito quando se deteta a acumulação de um líquido (endolinfa) no ouvido interno.
Há vários fatores que têm sido apontados como hipótese para justificar a acumulação de endolinfa no ouvido interno: fatores genéticos, vasculares, endócrinos, infeções, alergias, doenças autoimunes, além do tipo de dieta adotado.

O diagnóstico é essencialmente clínico e baseia-se em quatro sintomas principais:
1. Vertigem espontânea e recorrente (acompanhada de náuseas e vómitos);
2. Perda de audição unilateral;
3. Zumbidos no mesmo ouvido da perda auditiva;
4. Sensação de ouvido tapado, no mesmo ouvido da perda auditiva e dos zumbidos.

Devem sempre ser feitos exames complementares de diagnóstico para confirmar a doença, avaliar a sua evolução e excluir outras patologias que possam assemelhar-se aos sintomas da doença de Ménière nomeadamente tumores do ângulo ponto-cerebeloso.

Objetivos da terapêutica na doença de Ménière:
1. Tratar as crises agudas;
2. Prevenir crises futuras;
3. Preservar o máximo de tempo possível a função auditiva e a função vestibular;
4. Prevenir a doença bilateral.

Em conjugação com os medicamentos prescritos, estes objetivos são mais facilmente alcançados se houver uma modificação do estilo de vida, com menos stresse e fadiga, e uma boa higiene do sono.
Mudar alguns hábitos alimentares também é aconselhável: por exemplo, diminuir o consumo de sal, açúcares de absorção rápida, chá, café e chocolate, além de se dever evitar o jejum prolongado.

Nevrite vestibular

A nevrite vestibular é uma doença aguda caracterizada por vertigem, náuseas, vómitos e desequilíbrio após uma perda súbita unilateral da função vestibular. Não há perda de audição ou zumbidos.
Presume-se que a sua causa seja uma infeção viral do gânglio vestibular.

Principais sintomas:
Vertigem rotatória intensa de início agudo/subagudo com duração igual ou superior a 24 horas;
Náuseas e vómitos;
Alteração do equilíbrio e da marcha, com tendência de queda para o lado do ouvido afetado.

Perante uma vertigem com estas características, é importante que sejam excluídas causas centrais, nomeadamente os acidentes vasculares isquémicos vertebro-basilares e do cerebelo, também chamados pseudonevrites, uma vez que, numa fase inicial, estes acidentes vasculares podem mimetizar uma nevrite vestibular e pôr em risco a vida da pessoa.
Tipicamente, os sintomas duram dias ou semanas, mas algumas pessoas podem ter uma tontura crónica, instabilidade e desorientação espacial.
Os efeitos da terapêutica nos sintomas devem ser visíveis nos primeiros dias. Depois, passa-se aos fármacos que irão acelerar a compensação central, que irá restabelecer o equilíbrio entre os dois ouvidos. A mobilização precoce destas pessoas é fundamental para se atingir este objetivo. Assim que possível, deve iniciar-se a reabilitação vestibular, através de protocolos adaptados ao estado da pessoa.
A evolução da nevrite vestibular é favorável e, normalmente, uma a seis semanas depois, a maioria das pessoas está sem queixas durante os movimentos lentos do dia a dia.

Enxaqueca vestibular

A enxaqueca vestibular é uma das principais causas de vertigem episódica.
É uma doença que se manifesta por queixas de vertigem e enxaqueca em pessoas que apresentam antecedentes de enxaqueca. Há critérios de diagnóstico definidos recentemente que ajudam a diagnosticar e a tratar melhor as pessoas afetadas.
Deve ser feito o diagnóstico diferencial com outras doenças, nomeadamente, comparando com a doença de Menière, outro tipo de enxaquecas, e outras vertigens paroxísticas que possam estar associadas a enxaqueca.
Tal como na enxaqueca, a terapêutica divide-se no tratamento da crise aguda e no tratamento profilático (preventivo) das crises.

Vestibulopatia bilateral

A falência vestibular bilateral é uma doença do labirinto e/ou dos nervos vestibulares, que pode ter várias causas. Pode ocorrer simultaneamente em ambos os ouvidos ou sequencialmente. Pode iniciar-se de uma forma súbita ou, pelo contrário, ser lentamente progressiva. Não há vertigem.

Principais sintomas:
1. Visão alterada durante a locomoção, ou seja, dificuldade em fixar o meio ambiente enquanto se anda e dificuldade em ler quando se faz movimentos com a cabeça;
2. Alteração do equilíbrio, o que se agrava em ambientes escuros.

Causas mais frequentes:
1. Doenças autoimunes do ouvido interno;
2. Fármacos ototóxicos;
3. Meningite;
4. Doença de Ménière bilateral;
5. Neuropatias;
6. Nevrite vestibular sequencial;
7. Vestibulopatias e malformações congénitas.

Em cerca de 20% a 30% dos casos, a causa é desconhecida.
Os exames complementares de diagnóstico são fundamentais para despistar esta patologia.
A terapêutica consiste essencialmente na prevenção, quando a causa é a ototoxicidade.
A reabilitação vestibular através de protocolos adequados consegue dar uma melhor qualidade de vida à pessoa.

 

Colaboração:
Conceição Monteiro, otorrinolaringologista responsável pela Consulta de Vertigem e Reabilitação Vestibular do Hospital Lusíadas Lisboa e presidente da Associação Portuguesa de Otoneurologia

Especialidades em foco neste artigo:
Otorrinolaringologia