Tendinite: o que é e como identificar

Saiba como identificar a tendinite e o que fazer para prevenir o seu aparecimento. As explicações de Carla Afonso, coordenadora da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Lisboa

Tendinite: o que é e quais os sintomas

Há pessoas que chegam à consulta já com dificuldade em pegar na mala, outras que acordam à noite com dores. Há ainda quem já nem consiga estar duas horas a usar o teclado do computador “porque a dor está sempre lá a pulsar”, explica Carla Afonso, coordenadora da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Lisboa. Neste artigo, Carla Afonso fala-nos sobre esta dor, que é a manifestação da tendinite, e o que fazer para evitar começar a viver-se “em função da dor”.

O que é a tendinite?

O tendão, que é a estrutura pela qual o músculo se insere no osso, é responsável por transmitir as forças dos músculos aos ossos. E em certas situações em que músculo e tendão são muito solicitados, por exemplo, pode desenvolver-se um processo inflamatório. “A tendinite será sempre uma inflamação do tendão”, explica a especialista Carla Afonso.

Causas 

Apesar de a tendinite poder ser causada por uma lesão súbita, é mais frequentemente a consequência da repetição de um certo movimento ao longo do tempo que solicita muito os tendões. Além dos gestos repetitivos, a idade é um fator de risco. “A própria idade leva à tendinose, à patologia degenerativa do próprio tendão”, explica Carla Afonso, acrescentando que “tal como as articulações, o tendão também vai envelhecendo e fica mais fraco e mais fino e as fibras não são tão fortes, tão brilhantes, ficam mais baças e mais laças”.

Em que zonas do corpo se desenvolve mais a tendinite

Os locais do corpo onde se fazem mais movimentos repetitivos, nomeadamente movimentos repetitivos do ombro, no rato, no teclado, são mais propensos a desenvolver tendinite, explica Carla Afonso, acrescentando, por isso, que em termos laborais, “é mais frequente [a tendinite] ser do membro superior”. Aliás, o tipo de gestos associados ao trabalho de escritório tem vindo a ser responsável pela ocorrência de uma inflamação em particular: “Neste momento existe muita incidência de epicondilite, que é uma inflamação do tendão de inserção dos músculos que vão para o cotovelo, por causa destes movimentos repetitivos que se fazem durante as horas do trabalho”, acrescenta a especialista.
no caso dos atletas, acrescenta Carla Afonso, o que se verifica é a “inflamação do trocanter na inserção do músculo da corrida ou dos atletas que praticam muitos saltos e correm, a inflamação do tendão rotuliano”.

Sintomas da tendinite e diagnóstico

A tendinite manifesta-se por “uma dor fina, aguda, que não passa, piora à noite, e em que ao tentar movimentar-se a articulação em causa – ou seja, usar o músculo – a dor aumenta”, explica Carla Afonso. “É uma dor aguda. Não é uma dor tipo ‘moinha’. É uma dor forte que paralisa o movimento”, acrescenta.

No caso de o músculo e o tendão estarem a ser muito solicitados em consequência de tarefas repetitivas, as dores numa primeira fase são associadas à execução desse movimento. No entanto, se a atividade se mantiver, o quadro pode acentuar-se e a dor passará a manifestar-se também em repouso e poderá perturbar inclusivamente o sono, assinala a Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia.

E atenção, que a tendinite se “manifesta por uma dor do tendão, no sítio onde se vai inserir”, o que significa que às vezes “a dor que se sente é no punho, mas a origem [da tendinite] é do cotovelo” por ser aí que o tendão se insere, alerta Carla Afonso.

Além da dor, ao fazer-se o diagnóstico de tendinite é possível registar as características de uma inflamação, explica Carla Afonso. Ou seja, tumor, rubor, calor.

Tipos de tendinite

As tendinites agudas passam mais rapidamente se forem diagnosticadas precocemente, mas quando a dor é mantida por mais de três meses “é lida no nosso cérebro como uma dor crónica”, diz Carla Afonso. Nesse caso a pessoa “já não leva a sua vida normal e já faz coisas dependentes desta dor – ou seja, a pessoa começa a viver em função da dor.”

Prevenção da tendinite

Muitas vezes os movimentos repetitivos que podem vir a provocar o desenvolvimento de uma tendinite estão associados à atividade laboral da pessoa, pelo que esta não pode deixar de os fazer. Então, o que fazer para prevenir a inflamação? Leia os conselhos de Carla Afonso, coordenadora da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Lisboa, para quem trabalha num escritório e usa de forma constante os computadores.

  • Melhorar a postura no trabalho

Uma postura incorreta durante o período do trabalho pode prejudicar o funcionamento dos tendões porque estes trabalham de forma irregular.

O que deve fazer então?
Procure estar com a coluna vertical e os ombros para trás e para baixo;
Mantenha o monitor do computador ao nível dos olhos;
Procure ajustar a altura da cadeira de forma a que os pulsos e os antebraços estejam ao mesmo nível do teclado;
Os seus antebraços devem ficar perpendiculares ao corpo e, preferencialmente, apoiados nos braços da cadeira;
Os pés devem ficar bem apoiados no chão ou, se precisar, sobre um apoio. Não deve sentar-se de pernas cruzadas.

  • Ter um rato adaptado à mão (ergonómico)

É importante que ao pousar no rato o punho fique em situação neutra: “Ou seja, tem de ficar como se fosse uma régua”, explica Carla Afonso.

  • Ter um teclado ergonómico

“No caso do teclado é importante que a posição neutra parta do ombro. O ombro tem de estar numa posição neutra alinhada com o cotovelo; o antebraço tem de estar alinhado com o cotovelo também e, entre punho, cotovelo e ombro, faz 90º”, explica Carla Afonso.
No caso de trabalhar com um computador portátil, em que o teclado está acoplado ao computador, a especialista aconselha o uso de um outro teclado “que esteja fora, que se possa adaptar ao portátil”. Depois, é importante que se eleve “o portátil nem que seja com revistas” para que o monitor fique colocado ao nível dos olhos. Caso contrário o que acontece é uma sobrecarga: uma “retificação da coluna cervical e, portanto, uma flexão da coluna cervical”, avisa Carla Afonso.

  • Fazer pausas regulares durante o dia

É preciso “saber que de hora em hora tem que se parar nem que seja um, dois minutos e alongar os músculos que se está a utilizar”, explica Carla Afonso, acrescentando que normalmente as pessoas não fazem estes períodos de pausa. E isso é importante para não sobrecarregar os músculos. “A pessoa senta-se na cadeira, está mal sentada e aí fica durante quatro horas. Levanta-se, vai almoçar e só se levanta quando vai à casa de banho em períodos curtos e, portanto, existe uma sobrecarga da parte muscular”, avisa a especialista.

  • Praticar desporto

Aliado a um sedentarismo no local de trabalho, muitas vezes “não existe depois, em termos físicos, um equilíbrio muscular em que a pessoa pratique atividade física com a libertação das endorfinas”, alerta Carla Afonso, explicando por que razão é importante contrariar a pouca prática de exercício físico. É que as endorfinas, neurotransmissores produzidos pelo organismo em resposta a determinados estímulos e que são libertadas com o exercício físico, são vantajosas porque “vão trabalhar nas vias da dor, diminuindo a dor”, acrescenta a especialista. Aliás, as endorfinas são utilizadas em tratamentos de reabilitação na fisioterapia.

  • Controlar o stresse

Se uma pessoa tiver dificuldade em controlar a ansiedade ou a tensão – não fazendo exercício físico, por exemplo – cria-se um ciclo vicioso. “Em alturas de stresse piora mais ainda, porque em termos sensitivos agravamos muito mais a dor, ficamos muito mais tensos. Os músculos estão mais retraídos”, remata Carla Afonso. Uma pessoa que esteja sob stresse fica por isso mais propensa a desenvolver contraturas musculares, sendo que a fadiga prejudica também os tendões.

Tratamento

O tratamento da tendinite depende da situação, explica Carla Afonso. Numa fase inicial passa por repouso articular – ou seja, parar de fazer os movimentos repetitivos a que a própria articulação está a ser submetida, ou o próprio músculo; medicar com analgésicos e anti-inflamatórios, sejam orais ou orais e tópicos (pomadas, gel, penso), que são tomados por um tempo limitado (cinco a sete dias).
Depois a situação tem de ser reavaliada para se ver se a inflamação passou ou, no caso de não ter passado, se se terá que evoluir para exames mais específicos.

Colaboração:
Carla Afonso, coordenadora da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Medicina Física e de Reabilitação