Tumor cerebral: sintomas, diagnóstico, tratamento e prognóstico

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O tumor cerebral pode ser um tumor primitivo do sistema nervoso central ou ter origem em metástases de tumores malignos originados noutros órgãos, como acontece com mais de 25% dos tumores cerebrais.

Afetam, anualmente, cerca de 10 a 20 pessoas por cada 100 mil habitantes e, no caso das crianças, 5 por 100 mil habitantes. Falamos dos tumores primitivos do sistema nervoso central, que podem ser benignos ou malignos e afetar os diferentes componentes do encéfalo. “Quando falamos de tumores cerebrais temos de ter em consideração que o cérebro é um dos constituintes – o mais volumoso – do encéfalo”, explica Victor Gonçalves, coordenador da Unidade de Neurocirurgia do Hospital Lusíadas Lisboa. “O encéfalo é formado pelo cérebro, o cerebelo e o tronco cerebral. Estas estruturas têm, além de neurónios e células de suporte (nevróglia ou, simplificando, glia), artérias, capilares e veias por onde circula o sangue que os nutre. Há ainda as cavidades ventriculares preenchidas com líquido cefalorraquidiano a cujo aumento de dimensões se denomina hidrocefalia. O encéfalo está envolvido por umas membranas, as meninges, e todas estas estruturas estão contidas no crânio, que no adulto é rígido e inextensível.”

Em todos estes diferentes componentes podem originar-se tumores (primitivos do sistema nervoso). A estes somam-se, ainda, os tumores cerebrais secundários, que são metástases de tumores malignos originados noutras partes do corpo.

Tipos de tumor cerebral e sua incidência

  • A incidência de tumores primitivos do sistema nervoso central é de cerca de 10 a 20 por cada 100 mil habitantes por ano. No adulto, a incidência aumenta com a idade e tem um ponto mais alto entre os 65 e os 75 anos. Na idade pediátrica os tumores cerebrais têm uma incidência de cerca de 5 casos por 100 mil crianças por ano.
  • Mais de 25% dos tumores cerebrais são secundários, ou seja, metástases de tumores malignos originados, por exemplo, no pulmão, na mama e na pele (melanomas). 

Causas mais comuns

Das causas conhecidas, as que têm evidência suficiente para se poder avaliar a probabilidade de associação com a origem dos tumores cerebrais são:

  • O aumento de idade;
  • Indivíduos caucasianos do sexo masculino;
  • Mutações genéticas;
  • Alterações cromossómicas hereditárias;
  • Altas doses de radiação ionizante (Rx), por exemplo.

“Não está demonstrado que o uso frequente de telemóveis induza a formação de tumores cerebrais”, salienta Victor Gonçalves.

Os tumores cerebrais mais frequentes

Gliomas | São os tumores primitivos mais frequentes no adulto. Têm vários subtipos histológicos a que correspondem graus de malignidade diferentes. São tumores que se originam nas células que envolvem e suportam os neurónios (a nevróglia ou glia) e são chamados intra-axiais. Destes, os mais frequentes são os astrocitomas (5 por 100 mil habitantes por ano).Os mais malignos são os glioblastomas.

Gliomas do cerebelo, do tronco cerebral e do nervo ótico, tumores da série germinativa e meduloblastomas | São os os tumores do sistema nervoso central mais frequentes nas crianças.

Meningiomas | São tumores muito frequentes que se originam nas meninges que envolvem o encéfalo e que, ao crescerem, o comprimem. São tumores extra-axiais e correspondem a cerca de 18% dos tumores primitivos intracranianos no adulto. São mais frequentes no sexo feminino e depois dos 45 anos. Alguns têm recetores hormonais e podem ocorrer em mulheres com cancro da mama. Cerca de 1% dos meningiomas ocorrem na idade pediátrica e correspondem a 4% dos tumores intracranianos nesta idade. Geralmente estão associados a doenças genéticas como a neurofibromatose.

Sinais e sintomas associados aos tumores cerebrais

“Os tumores intracranianos, intra e extra-axiais dão sinais e sintomas que estão relacionados com o fator expansivo e compressivo sobre as estruturas adjacentes e envolventes, dentro de um continente rígido e inextensível no adulto (crânio)”, explica Victor Gonçalves, segundo o qual  as queixas mais frequentes no adulto são:

  • Dores de cabeça, sobretudo noturnas;
  • Alterações visuais com visão dupla;
  • Paralisia de membros e da face;
  • Desequilíbrio da marcha;
  • Convulsões de início recente;
  • Alterações do comportamento, da expressão verbal ou da compreensão das palavras, da memória, por exemplo.

Por seu lado, na infância “a expansão intracraniana, para além dos sintomas e sinais vários, ainda pode evoluir com alargamento do diâmetro craniano devido ao não encerramento de suturas e fontanelas (ligações entre os ossos do crânio).” Na criança, além dos sinais e sintomas indicados para os adultos, também chama a atenção:

  • Aproveitamento escolar alterado;
  • Náuseas e vómitos sem causa conhecida do foro digestivo.

Como é feito o diagnóstico 

O diagnóstico de tumor cerebral resulta de um conjunto de avaliações que se complementam entre si, como explica Victor Gonçalves: “A avaliação clínica começa pela compreensão dos sintomas e da sua evolução ao longo do tempo. Depois o exame neurológico vai revelar sinais que dão uma orientação quanto à localização da lesão. Os exames que complementam a avaliação clínica são sobretudo os de imagem, que objetivam de forma muito rápida e precisa as lesões, a sua localização, as relações com as estruturas adjacentes, que são as vias nervosas que transmitem as informações do sistema nervoso periférico para o cérebro e deste para diferentes órgãos. A ressonância magnética e a tomografia axial computorizada encefálicas dão rápido acesso a um diagnóstico e permitem prever a terapêutica a realizar.”

Formas de tratamento dos tumores cerebrais

O tratamento dos tumores intracranianos depende da sua natureza, conforme sejam tumores primitivos do sistema nervoso ou secundários a tumores de outros órgãos (metástases), como explica Victor Gonçalves:

“No primeiro caso podem ser intra e extra-axiais. Os extra-axiais são os meningiomas e os neurinomas do acústico, por exemplo. O seu tratamento consiste na sua remoção. Para isto tem-se em consideração as alterações neurológicas resultantes do tumor e as condições médicas gerais do doente. A cirurgia pode ser feita de forma segura com riscos calculados e controlados. Para isso são utilizadas técnicas especializadas como a microcirurgia, a neuronavegação (GPS cerebral) e a monitorização funcional intraoperatória.”

“Os tumores intra-axiais podem ser removidos cirurgicamente na totalidade quando não são invasivos do tecido nervoso. A exérese (remoção cirúrgica) dos tumores invasivos será apenas subtotal, apesar de poder ser utilizada técnica de fluorescência intraoperatória associada ao microscópio cirúrgico, devido às suas características infiltrativas. Em alguns casos utilizam-se para segurança técnica neuromonitorização, estimulação cerebral superficial e profunda. Em outras situações, para proteção de áreas funcionais motoras e da linguagem, a cirurgia pode ser efetuada com o doente acordado. Alguns tumores, pela sua localização ou pelas más condições clínicas do doente são biopsados por método estereotáxico (método cirúrgico em que a área de intervenção é localizada por medições tridimensionais) e, feito o diagnóstico histológico laboratorial, poderão ser submetidos a terapêuticas ulteriores.”

“As terapêuticas complementares à cirurgia cito-redutora ou à diagnóstica são a radioterapia (nas suas diferentes modalidades), a quimioterapia, a imunoterapia.

Os antiepiléticos e os antiedematosos são fármacos utilizados muitas vezes a partir do diagnóstico da lesão e acompanham o doente. Por vezes, em situações críticas, estes fármacos são o único tratamento efetuado.”

Prognóstico

O prognóstico de um doente portador de um tumor cerebral está dependente de vários fatores, nomeadamente, como explica Victor Gonçalves, “da possibilidade de ser feita a sua remoção total, dos défices neurológicos prévios à cirurgia, da ausência de défices criados pela sua exérese, da natureza histológica da lesão (benigno, grau de malignidade e invasibilidade), da presença de uma lesão primitiva controlada fora do sistema nervoso (caso das metástases), acessibilidade e boa resposta da lesão residual às terapêuticas complementares.”

Se o tumor for benigno, a sua remoção total significa a cura do doente na maior parte dos casos, tendo de ser feitos exames periódicos em algumas situações (meningiomas, por exemplo). A sua remoção parcial e subtotal implica a realização de exames de imagem periódicos para estudo evolutivo.

Nos tumores cerebrais malignos, dependendo do grau de malignidade, a duração do período de ausência de crescimento ou de recidiva depende da resposta às terapêuticas complementares.

“Os défices neurológicos existentes é que vão determinar a qualidade de vida dos doentes”, salienta Victor Gonçalves. “Essas alterações existem como consequência de múltiplos fatores que dizem respeito às lesões provocadas no sistema nervoso antes do diagnóstico e que são o sinal de alerta quanto à presença do tumor, lesões que podem acompanhar a sua remoção, alterações que dependem das terapêuticas complementares à cirurgia como a radioterapia, os fármacos, a quimioterapia, a imunoterapia, os antiepiléticos, os antiedematosos, por exemplo.”

De acordo com o especialista, “estas alterações podem ser superadas pelos doentes com situações malignas quando acompanhados por familiares, amigos, fisioterapeutas, médicos, enfermeiros, reforçando a sua motivação e as suas defesas naturais.”

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