Micróbios e higiene: 7 factos e mitos

Os britânicos inventaram a “regra dos cinco segundos” e por cá continuamos a ouvir dizer às crianças para soprarem na bolacha que caiu ao chão antes de a voltar a pôr na boca. Luís Tavares, coordenador da Unidade de Doenças Infeciosas do Hospital Lusíadas Lisboa, explica por que não fazem sentido estes conselhos e esclarece outros mitos relacionados com os microrganismos e a higiene.

Micróbios: se deixar cair um alimento e o apanhar em menos de cinco segundos é seguro comê-lo sem risco de contaminação? A regra de cinco segundos é mesmo assim?

1. Se apanhar o alimento do chão em cinco segundos e o soprar, não faz mal à saúde.

Mito. Cinco segundos são “o suficiente para contaminar o que quer que seja”, avisa o coordenador da Unidade de Doenças Infeciosas do Hospital Lusíadas Lisboa, Luís Tavares. O especialista desconhece a origem da “regra dos cinco segundos”, que se tornou popular nos países anglo-saxónicos, mas garante não fazer qualquer sentido quando se fala de vírus, bactérias, fungos e ácaros. “A passagem é instantânea. Claro que se um pedaço de comida ficar no chão apenas por um segundo, a quantidade de microrganismos que vai absorver é menor, mas isso não fará grande diferença”, garante. O “soprar”, um clássico português, “também não faz qualquer sentido” — apenas poderá servir para afastar um pelo ou alguma poeira visível e não vai, portanto, evitar a contaminação.

2. Se o chão estiver molhado, o perigo de contaminação é maior.

Verdade. O senso comum faz soar todos os alarmes quando o pavimento está escorregadio e a ciência confirma a razão de ser do cuidado. Quando em causa está a possibilidade de contaminação por microrganismos, “o nível de humidade é o mais crítico”, confirma Luís Tavares. Por favorecer o crescimento de todo o tipo de microrganismos, a humidade, ambiental ou visível ao contacto, torna mais propícia a contaminação.

3. A casa de banho é o sítio mais sujo da casa.

Mito. “A nossa perceção nem sempre corresponde à realidade”, alerta Luís Tavares.
“Tendemos a pensar que a casa de banho é o sítio mais sujo” ou com maior perigo de contaminação de uma casa, quando “isso não é necessariamente verdade”. Alguns dos maiores perigos estão na cozinha: nas esponjas da loiça, no ralo do lava-louças, nas tábuas de corte e em todos os panos ou utensílios de limpeza que possam acumular restos de alimentos.

Cientistas da Universidade do Arizona, nos EUA, analisaram mil esponjas usadas e constataram que um só centímetro quadrado de esponja contém 134 mil bactérias, 456 mais do que um tampo de sanita. E, mais curioso ainda, foi o resultado de um outro estudo, promovido por uma seguradora norte-americana e realizado a partir de amostras recolhidas em diferentes locais de um aeroporto. Os testes laboratoriais mostraram que as máquinas de check-in estavam 200% mais contaminadas do que as casas de banho.

4. Andar com o calçado da rua em casa é um péssimo hábito.

Verdade. Ao contrário do que acontece em países como o Japão ou a Holanda, por cá são raras as casas em que calçar os chinelos assim que se passa a porta da entrada é a regra. “Andamos calçados na rua, que está conspurcada com tudo, dejetos de animais, etc.”, aponta Luís Tavares. Criar o hábito de ter “chinelos para andar em casa” é positivo, defende o especialista. “Não impede que o chão não esteja contaminado, mas estará seguramente menos”, explica. Isto, claro, sem fundamentalismos.

5. Não se deve pousar uma carteira/mala no chão.

Verdadeiro. Longe da vista, longe de preocupação — a adaptação do ditado ajuda a explicar por que motivo tantas mulheres continuam a ter a tentação de pousar a carteira/mala no chão. Luís Tavares não tem qualquer dúvida em desaconselhar o hábito, por mais limpa que a superfície aparente estar. No entanto, reconhece, nem sempre o nível de perigo é igual. “Os pisos com textura, que têm a vantagem de não escorregar, são muito mais difíceis de higienizar”, alerta.

Mesmo que limpos com a mesma regularidade e produtos similares, “pavimentos muito lisos, idealmente sem juntas, como os que existem nos hospitais ou consultórios” representam sempre um perigo de contaminação menor do que “um chão mais rugoso ou soalhos de madeira, que são difíceis de limpar”, explica.

6. Só os produtos hospitalares permitem desinfetar uma superfície.

Mito. As melhores práticas internacionais permitem o uso de um conjunto diversificado de desinfetantes (não confundir com detergentes!) em contexto hospitalar. No entanto, um dos desinfetantes mais frequentemente utilizados tem por base os hipocloritos, ou seja, lixívia. “A lixívia que usamos em casa, vulgaríssima, é um hipoclorito de sódio a 3%, é um bom desinfetante”, garante o coordenador da Unidade de Doenças Infeciosas do Hospital Lusíadas Lisboa.

7. É importante desinfetar as frutas e vegetais.

Mito. “As nossas casas são servidas pela rede pública, a água já contém cloro”, lembra Luís Tavares, para sublinhar a ideia de que não é preciso assumir cuidados extra para a lavagem de frutas e vegetais. Recorrer a uma solução de água e lixívia ou a pastilhas desinfetantes só faz sentido “quando nos movemos para ambientes onde a água não seja tratada”, explica o especialista, que é igualmente responsável pela Consulta do Viajante do Hospital Lusíadas Lisboa.

Sabia que…

Interromper o ciclo de frio dos alimentos é um dos erros mais frequentes. “As pessoas vão ao supermercado e depois vão fazer outras coisas a seguir e deixam os sacos meia hora dentro da mala do carro”, exemplifica. As altas temperaturas, tal como a humidade, estimulam a multiplicação dos microrganismos naturalmente presentes nos alimentos. “Os próprios alimentos não estão esterilizados”, lembra.

Colaboração:
Luís Tavares, coordenador da Unidade de Doenças Infeciosas ​do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidade em foco neste artigo:
Doenças Infeciosas