O que o amor (e a sua falta) faz ao corpo

Os antropólogos ainda não encontraram uma sociedade que não tenha amor. Apesar de ser um mistério o motivo porque nos apaixonamos por alguém, os cientistas já conhecem o cocktail de químicos que coloca os apaixonados num lugar de exceção e explica porque é que o amor pode ser um vício e até partir corações.

O que o amor faz exatamente à nossa saúde?

Pode ser apenas um olhar que faz disparar a primeira faísca entre desconhecidos. Outras vezes, uma conversa com alguém que já conhecemos desperta um novo fascínio. Há tantos pontos de partida para uma grande paixão como o número de pessoas que existem no mundo, mas qualquer um deles será aproveitado pelo cérebro e integrado numa sofisticada receita neuronal, hormonal e fisiológica, conhecida pelos cientistas, que desencadeia uma das experiências mais enriquecedoras que se pode viver.
A paixão, o amor e as roturas entre casais podem ser intensas, misteriosas, poéticas, dolorosas, podem servir de material para a arte e para a ficção, podem desvelar o melhor e o pior do ser humano e ser alvo de inúmeras releituras sem que por isso se chegue à real compreensão da sua essência. No entanto, há um roteiro bem definido pelo nosso cérebro a que ninguém parece escapar e que, ainda assim, vale a pena conhecer.

“Tenho vindo a perceber que o estado da paixão é um dos mais fortes sistemas cerebrais que existe na Terra, tanto para a melhor das alegrias como para o pior dos sofrimentos”, resume Helen Fisher, uma antropóloga norte-americana que estuda os relacionamentos humanos há mais de 40 anos e que falava numa conversa promovida pela TED.

Segundo a investigadora, os antropólogos descreveram a existência do amor em 170 sociedades no mundo e nunca encontraram uma onde não houvesse amor. Este é tão antigo quanto a nossa espécie e permite construir relações íntimas que possibilitam a procriação e a educação dos filhos.

Para Helen Fisher, há três operações que ocorrem no cérebro e que nos ligam aos outros de um modo mais íntimo: o desejo sexual, a paixão e a ligação profunda que caracteriza o amor. Enquanto o desejo sexual possibilita que cada um se interesse por várias pessoas sem haver uma ligação mais duradoura, a paixão “permite focar a energia procriadora numa pessoa de cada vez, conservar essa energia procriadora e iniciar um processo de procriação com um indivíduo”, refere.

Um encontro sexual pode dar início a uma paixão mas, independentemente de como começa, a paixão rapidamente ganha uma forma comum caracterizada por uma vontade intensa de estar com o objeto da paixão, tanto a nível sexual como emocional, uma motivação absoluta para estar com essa pessoa e uma obsessão completa por ela. Estas características devem-se ao neurotransmissor dopamina, e é aqui que entra o trabalho do hipotálamo e da hipófise, duas estruturas existentes no cérebro.

“Há uma série de neurotransmissores que são lançados pela hipófise perante um estímulo muito variado, pode ser um estímulo visual, olfativo”, explica Rita Almeida, neurologista da Clínica de Stº António. Este estímulo é captado primeiro pelo hipotálamo que, depois, vai estimular a hipófise. Uma das mais importantes substâncias produzidas é a dopamina, que tem uma série de efeitos.

“A dopamina está ligada ao prazer e à felicidade. É a fase inicial. Tem a ver com o desejar, o querer, a parte do prazer que leva as pessoas a sentirem-se motivadas em relação ao objeto do amor”, diz a médica.

Das endorfinas à serotonina

Há outras substâncias que também são libertadas: as endorfinas, ligadas à felicidade e à sensação mais continuada de bem-estar, que nos impedem de sentir dor; a adrenalina e a noradrenalina, associadas ao aumento da frequência cardíaca, à inquietude e às picadas no estômago quando se encontra a pessoa desejada.

Há também uma diminuição do nível de serotonina, o que “pode estar ligado ao estado de depressão quando o amor não é correspondido”, refere Rita Almeida. Esta é uma poderosa mistura.

“São estas alterações dos neuromediadores que fazem com que possamos focar
a nossa atenção e os nossos objetivos naquela pessoa”, diz por sua vez Franclim Ribeiro, psicólogo das Unidades Lusíadas no Algarve, descrevendo o quadro mental e fisiológico de quem se encontra nesta situação: “A forma como se pensa muito obsessivamente no objeto de paixão, o emagrecimento, a perda de apetite, passar de um completo estado de excitação para
o estado depressivo.” No cérebro, a libertação destes neurotransmissores está ligada à atividade do lobo frontal e do lobo temporal.

A adição da paixão 

Ao mesmo tempo, a paixão estimula o circuito de recompensa, o funcionamento é semelhante ao das drogas e por isso também existe a síndrome de privação quando se fica sem a atenção do objeto da paixão. “Estabeleceu-se uma analogia entre o estado de paixão e de adição porque, quando a paixão falha, a pessoa entra numa síndrome de abstinência”, explica Rita Almeida.

De qualquer modo, se a paixão se consolidar esta ativação inicial “exacerbada”, como refere Rita Almeida, vai terminando porque o organismo adapta-se a estes químicos. “Senão, a situação levava a um desgaste do corpo”, diz a médica. É então que outra substância passa a ter maior protagonismo.

“Enquanto a paixão tem mais a ver com a dopamina, o amor é algo mais estável que já tem a ver com a oxitocina”, explica Rita Almeida. A oxitocina é produzida na mulher em grandes quantidades na altura do parto e ajuda a criar uma ligação duradoura entre a mãe e o bebé.
Nas relações entre casais, a oxitocina tem também essa função. Ao mesmo tempo, as endorfinas continuam a fazer o trabalho de manterem uma sensação de bem-estar.

Este estado parece caracterizar aquilo a que as pessoas chamam amor. Mas Franclim Ribeiro afirma que o amor, ao contrário da paixão, não se pode enquadrar num cenário fisiológico. “O amor é uma construção social de um conceito romântico e por isso não tem grande repercussão a nível fisiológico”, começa por explicar. “O amor varia de sociedade para sociedade e de pessoa para pessoa, assim como ao longo do tempo. Há o amor que sentimos pelos nossos filhos, pelos nossos pais, até o amor que sentimos pelo nosso parceiro.”

Ligação e partilha

Para o psicólogo, a espécie humana tem uma necessidade de ligação e de partilha. E há os instrumentos fisiológicos para criar essa intimidade, mas o molde do amor romântico – enquanto ligação ideal de duas pessoas para o resto da vida – é uma construção recente da cultura ocidental e apenas uma das formas de criar esta ligação. Há muitas outras, como o “poliamor”, exemplifica.

Mesmo a ideia de que a paixão é substituída pelo amor não é uma regra. “Convencionou-se socialmente que há um momento em que a paixão acaba e começa o amor. Na prática, o que acontece é uma construção da relação [que se estende no futuro]. Espero que haja muitos casais enamorados e que sintam paixão um pelo outro”, diz o psicólogo. A investigação ao cérebro de casais feita pela equipa da antropóloga Helen Fisher confirma isto. Há pessoas que estão juntas há vinte ou mais anos, dizem estar apaixonadas, e exames feitos ao seu cérebro revelam a assinatura da paixão.

Mas, tal como diz Helen Fisher, o amor também pode levar ao pior dos sofrimentos. Quando uma relação termina “existe uma interrupção de todos os neuromediadores, o cérebro diz-nos que temos prazer ao imaginar a relação com uma pessoa e a realidade diz que tal não vai acontecer. É-nos difícil enquanto ser relacional lidar com isso, quando outra pessoa nos diz: ‘Não estou interessado em ti’”, refere Franclim Ribeiro.

Uma das características da rotura é a súbita diminuição de serotonina. “Surge uma espécie de frustração ligada à serotonina, que está envolvida nos quadros de depressão e tristeza. Quando isso acontece fica-se triste, deprimido, o coração bate menos”, diz, por sua vez, Rita Almeida.

O coração pode partir-se?

Existe mesmo a síndrome do coração partido. As pessoas “dão entrada no hospital com um quadro de enfarte do miocárdio: dor torácica, falta de ar”, relata Brenda Moura, cardiologista do Hospital Lusíadas Porto. “Os primeiros exames têm um resultado muito semelhante ao enfarte mas, contrariamente ao enfarte agudo do miocárdio, verifica-se que não há qualquer artéria entupida.”

O fenómeno foi chamado “broken heart”, ou síndrome do coração partido, porque foi relacionado com um grande stresse emocional, como um divórcio ou a morte de um ente querido. Nos homens é mais raro e surge com mais frequência no contexto de stresse físico.

“Há algumas substâncias libertadas num momento de stresse que se pensa causarem este fenómeno no coração mas não se sabe muito bem como acontece”, adianta a cardiologista, referindo que “é um evento pouco frequente”. Algumas vezes os casos são graves e pode até haver fatalidades, mas de um modo geral as pessoas recuperam totalmente numa questão de dias ou semanas.

Por Nicolau Ferreira

Este é um dos artigos que pode ler na Revista Lusíadas nº10