Alimentação na diabetes gestacional

Que alimentos se devem preferir e quais se devem evitar em caso de diabetes gestacional? E quais os cuidados a ter? Conheça as recomendações de Luísa Raimundo, coordenadora da Unidade de Endocrinologia do Hospital Lusíadas Lisboa, e de Joana Bernardo, nutricionista do Hospital Lusíadas Lisboa, da Clínica Lusíadas Almada e da Clínica Lusíadas Parque das Nações.

Qual o papel da alimentação na diabetes gestacional?

Qual o papel da alimentação no controlo da diabetes gestacional?

A diabetes gestacional define-se como um subtipo de intolerância aos hidratos de carbono diagnosticada ou detetada pela primeira vez no decorrer da gravidez. A diabetes gestacional ocorre em cerca de uma em cada 20 grávidas.

Resumidamente, o diagnóstico de diabetes gestacional poderá ser efetuado através de um valor de glicemia plasmática em jejum (de 8 a 12 horas) superior ou igual a 92mg/dL ou através da Prova de Tolerância à Glicose Oral (PTGO) realizada entre as 24 e 28 semanas de gestação, com qualquer valor de glicemia acima do valor de referência.

Após o diagnóstico de diabetes gestacional, os objetivos de glicemia capilar são:
Jejum/pré-prandial: Glicemia ≤ 95mg/dL;
1h após o início das refeições: Glicemia ≤ 140mg/dL.

Alimentação na diabetes gestacional: o papel do nutricionista

A educação alimentar deverá ser sempre a primeira linha de intervenção na diabetes gestacional, em qualquer período da gravidez. Segundo o Consenso “Diabetes Gestacional”: Atualização 2017, apenas se recorre à terapêutica farmacológica (insulina ou outra) quando os objetivos de glicemia não são atingidos após a instituição das medidas não farmacológicas – terapêutica nutricional e atividade física.

Após o diagnóstico de diabetes gestacional, a grávida deverá ser avaliada em consulta de nutrição com o objetivo de definir um plano alimentar personalizado, de acordo com:
Índice de Massa Corporal preconceção (Peso antes da gravidez / Altura2);
Ganho ponderal durante a gravidez;
Estado nutricional;
Antecedentes clínicos;
Hábitos alimentares e culturais.

O plano alimentar deverá ser adequado às necessidades energéticas da grávida, que variam consoante o trimestre de gravidez, sendo que no primeiro trimestre as necessidades energéticas mantêm-se as mesmas da mulher não grávida.

Os hidratos de carbono são os nutrientes que influenciam diretamente o valor da glicemia e deverão ser adequadamente calculados e distribuídos ao longo do dia em cerca de 6/7 refeições diárias: pequeno-almoço, meio da manhã, almoço, um a dois lanches, jantar e ceia. A ceia é habitualmente uma das refeições omitidas pelas grávidas com diabetes gestacional, contudo deverá ser sempre realizada de modo a evitar jejuns noturnos superiores a 8 horas e a evitar a hiperglicemia em jejum e cetose matinal.

Alimentação na diabetes gestacional: recomendações

Seguem-se, de forma resumida, algumas recomendações gerais para quem tem diabetes gestacional:

  • Registar a glicemia

Avaliar e registar a glicemia de acordo com as indicações do obstetra/endocrinologista;

  • Seguir o plano nutricional indicado

Cumprir o plano nutricional personalizado fornecido pelo seu nutricionista;

  • Fazer intervalos regulares entre as refeições

Realizar um adequado fracionamento alimentar com refeições com intervalos regulares de aproximadamente 2h30 a 3h e um jejum noturno máximo de 8 horas;

  • Distribuir os hidratos de carbono entre as várias refeições

Realizar uma distribuição adequada de hidratos de carbono ao longo das refeições;

  • Ingerir legumes diariamente para melhorar o controlo da glicemia

Incluir diariamente sopa de legumes às refeições principais e introduzir legumes no prato, uma vez que a fibra destes alimentos ajuda no controlo de glicemia;

  • Preferir laticínios sem açúcares adicionados

Optar por laticínios sem açúcares adicionados (exemplo: iogurtes naturais ou magros), apenas com os açúcares naturalmente presentes (a lactose);

  • Preferir pão de mistura ou integral

Evite os cereais refinados. Prefira pão de mistura ou integral por ser mais rico em fibra do que o pão branco;

  • Evitar o consumo de produtos açucarados e com adição de açúcar

Evitar a adição de açúcar aos alimentos;

  • Variar a fruta que consome

Alternar o consumo de frutos tendo em atenção as equivalências de hidratos de carbono. Isto é, deve substituir os frutos mas mantendo a quantidade de hidratos de carbono ingerida no total. Por exemplo: 1 maçã = 1 pera = ½ Banana = 8-10 Uvas = 2 Tangerinas = 2 Kiwis pequenos, etc.

  • Evitar os sumos, mesmo os naturais

Evitar a ingestão de sumos, mesmo que sejam naturais, uma vez que um sumo terá sempre mais do que uma porção de fruta;

  • Controlar o peso todas as semanas

Controlar semanalmente o peso para que o aumento seja o recomendado:

         Consenso “Diabetes Gestacional”: Atualização 2017

A atividade física deve ser incentivada, devendo – sempre que autorizado pelo obstetra – caminhar pelo menos 30 minutos por dia, se possível após a refeição.

Por que deve controlar a diabetes gestacional

Caso não exista um acompanhamento médico e nutricional eficaz para o controlo da glicemia durante a gravidez, poderá ter como consequência algumas complicações graves para a mãe e para o bebé. As complicações mais comuns são bebés com um peso superior a 4 kg à nascença e a necessidade de cesariana ou, ainda, a possibilidade de ocorrência de abortos espontâneos.

A diabetes gestacional habitualmente “desaparece” após o parto, sendo sempre necessária uma consulta de endocrinologia para reavaliação após o parto.

Autoria:
Joana Bernardo, nutricionista do Hospital Lusíadas Lisboa, da Clínica Lusíadas Almada e da Clínica Lusíadas Parque das Nações

Luísa Raimundo, coordenadora da Unidade de Endocrinologia do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Endocrinologia
Nutrição Clínica