Será que o meu filho vê mal?

Uma em cada cinco crianças tem problemas de visão. Cabe aos pais estarem atentos, até porque elas raramente se queixam e o diagnóstico precoce é fundamental. Semicerrar os olhos é um dos sintomas mais conhecidos, mas “tiques” como esfregar os olhos são também sinais de alerta.

Olhos: como saber que a criança vê mal?

Os olhos crescem rapidamente durante os três primeiros anos de vida, continuando depois a desenvolver-se, embora mais lentamente, até à puberdade. É, por isso, fundamental estar atento a qualquer alteração oftalmológica desde a primeira infância, de forma a evitar o agravar da situação ou mesmo lesões irreversíveis. “A deteção precoce dos problemas de visão permite agir com maior eficácia no seu diagnóstico e tratamento”, lembra Margarida Marques, oftalmologista pediátrica do Hospital Lusíadas Lisboa e da Clínica Lusíadas Sacavém.

Sinais de alerta

Segundo a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, 20% das crianças têm problemas de visão que afetam o seu rendimento escolar. Os pais devem estar atentos a alguns comportamentos, nomeadamente:
  Semicerrar as pálpebras para facilitar a focagem;
  Esfregar constantemente os olhos;
—  Aproximar-se muito da televisão ou ecrãs em geral;
—  Desinteresse por tarefas que exigem esforço visual;
  Sensibilidade à luz (fotofobia);
  Olhos vermelhos, inflamados ou lacrimejantes;
  Queixas de cefaleias (dores de cabeça);
— Copiar, com frequência, palavras erradas do quadro para o caderno.

Margarida Marques sublinha, no entanto, que “muitas vezes estas queixas ou sinais não estão presentes”, sendo por isso tão relevante respeitar a frequência dos rastreios e manter a atenção, sob risco “de se deixar passar um quadro clínico que quando diagnosticado a tempo tem tratamento”.

Saiba mais
Muitas vezes se ouviu dizer que as crianças deviam sentar-se longe do ecrã porque a sua proximidade fazia mal aos olhos. Será mesmo assim?

 

Quando fazer o rastreio

À nascença, para excluir problemas congénitos;
Aos dois/três anos;
Aos cinco/seis anos (antes da entrada no primeiro ciclo).

Consulta de oftalmologia pediátrica

Até ao primeiro ano;
Aos três/quatro anos.

Os rastreios visuais, realizados por técnicos de saúde, permitem despistar a grande maioria das alterações oftalmológicas. No entanto, embora “sejam importantes e devam continuar a ser implementados”, não dispensam as consultas mais completas, feitas por um oftalmologista, a primeira até ao ano de idade e a segunda aos três ou quatro anos”, alerta Margarida Marques. Nessa segunda consulta já se torna possível contar com a colaboração da criança para a realização de outros testes e fazer um tipo de avaliação mais minuciosa.

O que está em causa

Nas crianças, “logo a seguir às situações de olho vermelho, entre as quais as frequentes conjuntivites, os problemas de visão mais frequentes são os erros refrativos”, explica a especialista.
Na visão normal, a imagem focada de um objeto é feita na retina num ponto de focagem. A retina é quem recebe as imagens  e  transmite a informação  ao cérebro através do nervo ótico.
Quando algum problema de visão interfere com este processo, a imagem surge desfocada. Existem diferentes erros refrativos, que podem ocorrer em simultâneo, contribuindo para a deterioração da qualidade de visão:

  • Hipermetropia

As imagens formam-se à frente da retina. A pessoa vê mal ao longe e ao perto. Os sintomas surgem após um esforço visual: trabalho de leitura ao fim do dia, por exemplo. As duas principais causas de hipermetropia são: o comprimento axial do globo ocular ser menor que o normal ou a curvatura da córnea estar alterada e ser mais plana que o normal.
A hipermetropia infantil pode reduzir com o crescimento e, quando não corrigida, pode originar estrabismo acomodativo.

  • Miopia

É um erro refrativo no qual a imagem do objeto é focada à frente da retina, fazendo com que a visão ao longe seja desfocada.
O míope vê mal ao longe e vê bem ao perto.
Na miopia infantil, o fator genético é importante, mas não é a única causa de miopia infantil. Outros fatores, de natureza ambiental, por exemplo, também têm que ser tidos em conta.

As principais causas da miopia são:
A curvatura da córnea ser mais curva que o normal;
O comprimento do globo ocular ser maior que o normal;
Por último, uma miopia de índice, mas que não diz respeito às crianças.

  • Astigmatismo

Deve-se ao formato não asférico ou oblongo da córnea, o que faz que os objetos sejam focados em mais do que um ponto, originando, deste modo, uma visão distorcida.
Há outras causas mais complexas para o astigmatismo.
De uma forma geral, o astigmatismo pode ser simples, ou seja, não associado a outro erro refrativo, ou pode estar associado a miopia ou a hipermetropia.

Outros tipos de problemas comuns nas crianças são:

  • Estrabismo

É a falta de paralelismo do globo ocular, ou seja, o desvio ocular.

O estrabismo pode classificar-se consoante a direção do desvio em:

Convergente ou esotropia, no qual um dos olhos ou os dois desviam para dentro;
Divergente ou exotropia, no qual o desvio ocular se faz para fora e ainda vertical (um olho está mais alto do que o outro).

Frequentemente, o estrabismo vertical associa-se a uma posição viciosa da cabeça, que é o chamado torcicolo ocular. Cada um destes estrabismos horizontais, convergente ou divergente, também pode estar associado ao vertical.
O estrabismo também se pode classificar, em relação à faixa etária, em congénito, infantil e do adulto.
O estrabismo tem sempre uma componente motora, que tem a ver com o equilíbrio dos   músculos extrínsecos do globo ocular e respetivas forças, e uma componente sensorial.

A correção do estrabismo tem de ter em atenção a componente sensorial e faz-se por fases:
A correção do erro refrativo quando presente;
 A correção da ambliopia, quando presente;
 A cirurgia, quando necessária.

A correção tem a ver com o tipo de estrabismo. Por exemplo, no estrabismo congénito, que raramente tem um erro refrativo associado, a cirurgia deve ser precoce para induzir ou preservar a visão binocular.

  • Ambliopia

Traduz-se pela assimetria na acuidade visual dos dois olhos.
A ambliopia pode ser ligeira moderada e grave.
É fundamental tratar-se a ambliopia pelo tratamento da causa da ambliopia.
São múltiplas as causas da ambliopia: pode ser uma ambliopia estrábica, uma ambliopia por anisometropia, uma ambliopia por privação do estímulo visual, por exemplo anopsia (por catarata congénita, opacidades da córnea …).
Do tratamento, para além da etiologia, faz parte a penalização do olho bom (oclusão do que vê bem) por forma a estimular o olho que vê pior.

O diagnóstico da ambliopia deve ser efetuado o mais precocemente possível para ser tratada adequadamente de forma a atingirmos uma boa acuidade visual igual nos dois olhos e uma boa visão binocular.

Sabe-se presentemente que o período de plasticidade neuronal já não vai só até aos sete anos e se alargou bastante, o que permite obtenção de visão binocular por insistência dos tratamentos até mais tarde na idade da criança.

Tratamento

Na maioria dos casos, a correção ou controlo do problema passa pelo recurso ao uso de óculos. “Os óculos são necessários para corrigirem os erros refrativos (miopia, astigmatismo e hipermetropia) e também para combater a ambliopia”, informa Margarida Marques.
Neste último caso, perante um diagnóstico precoce, o tratamento passa pela promoção da binocularidade e “pode incluir, além do uso de óculos, muitas vezes também orecurso à oclusão do olho bom, a fim de exercitar o olho que vê pior”, explica a especialista.
Durante esse período, acrescenta, “é necessária uma estreita colaboração com os pais de forma a compreenderem a importância deste tratamento e promoverem uma vigilância apertada da criança para que o mesmo tenha sucesso”.

Agir pela prevenção

A genética conta, mas também as questões ambientais são importantes e é sobretudo nesse campo que os pais podem agir.
“Sabe-se, por exemplo, que a menor exposição à luz solar (o brincar na rua), bem como o aumento do tempo passado em casa, a jogar jogos eletrónicos, têm contribuído para um aumento da miopia”, alerta a oftalmologista pediátrica Margarida Marques.

Assim, para promover uma melhor saúde e higiene visual dos mais novos é importante:

Garantir uma vigilância assídua dos comportamentos de visão, em colaboração com educadores e professores;
Propor intervalos de descanso regulares em tarefas que exigem visão ao perto (seja a olhar para um ecrã, a ler um livro, a estudar, etc.);
Garantir distâncias de leitura adequadas (30 a 40 cm);
Posicionar o computador de forma a que os olhos estejam 15 a 20º acima do centro do monitor, para evitar os reflexos;
Ver televisão a uma distância cinco vezes superior à largura do aparelho;
Reduzir o número de horas que a criança passa em ambientes fechados;
Incentivar hábitos de lazer ao ar livre.

Colaboração:
Margarida Marques, oftalmologista da Clínica Lusíadas Sacavém e do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Oftalmologia