A obesidade pode ser herdada?

A criança pode herdar, tanto do pai como da mãe, genes que a tornam mais propensa a sofrer de obesidade. Mas não se pode restringir a explicação da obesidade à herança genética. A obesidade resulta da interação de múltiplos genes, fatores ambientais e fatores comportamentais. Muitas vezes, as formas graves de obesidade verificam-se quando pessoas que têm uma suscetibilidade genética vivem num ambiente favorável ao aumento de peso, têm uma alimentação desequilibrada e uma vida sedentária, entre outros fatores.

Qual é peso da genética na obesidade?

Obesidade e genética

Diversos estudos que envolveram gémeos verdadeiros (que partilham o mesmo património genético) e crianças adotadas demonstram que a obesidade tem uma grande propensão hereditária. Quando se tem familiares obesos, nomeadamente um dos pais, é maior o risco de a criança ser obesa.
Ou seja, existe uma base genética que predispõe para a obesidade, mas ainda assim é um grande desafio definir o que é exclusivamente genético. Sabe-se, por exemplo, que certos genes, como algumas variantes do chamado gene da obesidade, identificado pela sigla inglesa FTO, só se manifestam em determinadas condições ambientais.

Hormonas e obesidade: existe uma relação?

Existem duas hormonas, as chamadas “hormonas da fome”, que têm sido alvo de atenção por parte da ciência no que diz respeito à sua ligação ao excesso de peso e à obesidade. A primeira é a leptina, uma hormona produzida nos adipócitos (células de gordura) e que suprime o apetite. Embora os níveis de leptina sejam mais reduzidos em pessoas magras e mais elevados em pessoas com excesso de peso ou obesidade, julga-se que muitas das pessoas com obesidade tenham desenvolvido uma resistência aos efeitos supressores do apetite da leptina.

A segunda hormona é a grelina, libertada no estômago, e que atua aumentando o apetite. Pensa-se que também desempenhe um papel regulador do peso corporal. A produção de grelina aumenta quando o estômago está vazio e esta hormona é responsável por enviar sinais para o cérebro com a mensagem de que estamos com fome. Quando comemos, a secreção de grelina diminui e sentimo-nos saciados.

Assim, é expectável que a produção de grelina aumente se uma pessoa não estiver a comer o suficiente e que diminua se se estiver a comer demasiado. Alguns estudos científicos já demonstraram, inclusive, que os níveis de grelina aumentavam em crianças com anorexia nervosa e diminuíam em crianças obesas.

Mapa genético da obesidade

Um grande estudo publicado na revista científica Nature, que analisou dados de 300 mil pessoas, identificou mais de 90 regiões do ADN humano que ajudam a explicar por que razão há quem ganhe peso mais facilmente. Identificaram também uma ligação com genes envolvidos em processos cerebrais, o que sugere que a obesidade em parte possa ter uma base neurológica.

Esta é uma área de estudo muito vasta e complexa, mas atualmente já é conhecido que os genes relacionados com a obesidade atuam alterando o gasto de energia, o controlo do apetite ou a maneira como o corpo processa e absorve os nutrientes.

Ambiente e comportamento

O património genético nunca determina completamente a obesidade. O ambiente e o comportamento são fatores muito abrangentes que podem afetar a resposta dos genes. Quando se fala de ambiente, podemos referir-nos a fases tão precoces como o ambiente na barriga da mãe e de como a alimentação durante a gravidez pode afetar o bebé.

Ambiente e comportamento são termos que também podem estar associados ao tipo de alimentação, desde a variedade dos alimentos ao tamanho dos pratos, ou de um estilo de vida mais ativo ou mais sedentário.

Fonte:
Adaptado de AMIL Saúde: Obesidade Infantil Não

Revisão científica:
Daniela Amaral, Endocrinologista Pediátrica do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Endocrinologia