O sono infantil e as novas tecnologias

Estudos recentes indicam que o uso das novas tecnologias à hora de deitar impede que as crianças tenham um sono descansado. Teresa Moreno, neuropediatra do Hospital Lusíadas Lisboa, esclarece as principais dúvidas.

As novas tecnologias afetam os hábitos de sono infantil

Usar um tablet ou qualquer outra ferramenta eletrónica com um pequeno ecrã, mostrou ser mais prejudicial do que ver televisão. Um estudo apresentado pela revista Pediatrics em 2015, analisou os hábitos de 2000 crianças em idade escolar e concluiu que quem tem acesso a tablets ou smartphones no quarto, dorme menos 21 minutos por noite em comparação com quem não usa essa tecnologia.

Sono infantil: hábitos saudáveis

“O sono é vital para o ser humano”, diz Teresa Moreno, neuropediatra do Hospital Lusíadas Lisboa. Afinal, é durante este período que, além de descansar, o nosso organismo realiza funções determinantes para a nossa saúde, como o fortalecimento do sistema imunológico, a segregação da hormona do crescimento (entre outras) e a consolidação da memória, por exemplo. A falta de sono é, assim, prejudicial em qualquer momento da vida, com particular incidência na infância.

As regras e a tecnologia

Na sociedade contemporânea a presença de equipamentos eletrónicos é uma evidência e atravessa todas as idades e classes sociais. No que diz respeito à educação das crianças, é importante conhecer as vantagens e desvantagens, assim como estabelecer regras de utilização. “É uma questão de bom senso”, explica a neuropediatra, que chama a atenção para a necessidade da intervenção e responsabilização dos pais.

Televisão vs “Tablet”

Embora haja relação entre demasiadas horas em frente a um ecrã e altos índices de obesidade, os equipamentos eletrónicos trazem problemas acrescidos. O estudo apresentado pela revista Pediatrics, indica que, comparados com a televisão, que implica uma observação passiva, os media interativos perturbam mais o sono.

Por um lado, são portas abertas para um sem número de conteúdos (jogos, chats, filmes, sites, correio eletrónico), nos quais é muito fácil perder a noção do tempo, interferindo com a hora de deitar e de acordar;

Por outro, “ao serem usados muito próximos da cara, emitem demasiada luz, atrasando a libertação da melatonina” – a hormona que regula o sono – explica Teresa Moreno.

Além disso, na maioria dos casos, permanecem ligados a noite inteira, emitindo diversos tipos de alertas (no caso de nova mensagem, por exemplo), comprometendo a qualidade do descanso ou mesmo interrompendo-o.

  • Pré-escolar

Na idade pré-escolar, a privação de sono manifesta-se através de irritação, instabilidade de humor, défice de atenção e agressividade. Existe uma relação entre quedas acidentais e défice de sono nas 24 horas precedentes, em crianças entre os 3 e 5 anos.

  • Adolescência

Na adolescência, há uma mudança profunda do ritmo biológico, endócrino e psíquico, condicionando os hábitos de sono. Os jovens passam entre 1,5 e 2 horas nas tecnologias, interferindo com o período do sono. Diversos estudos demonstram a relação entre a diminuição do período de sono e o insucesso escolar.

 

Privação do sono: consequências

As principais consequências da falta de sono, sobretudo se verificada durante a infância e adolescência, são:

  • Obesidade;
  • Problemas psicológicos;
  • Diminuição do rendimento escolar;
  • Comportamentos de risco;
  • Fragilidades ao nível do sistema imunitário;
  • Hipertensão e problemas cardiovasculares na fase adulta.

 

Factos curiosos

Em 2011, 18% dos adolescentes americanos acordavam várias vezes por noite com o telefone (Fonte: “Sleep in América Poll”, 2011);

Um estudo feito na Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, indicou que interromper o sono para usar o telemóvel mais de uma vez por semana, aumenta em 5,1 vezes a sensação de fadiga ao fim de um ano.

Os adolescentes portugueses dormem menos e mais tardiamente que o recomendado para a sua idade e estão sonolentos durante o dia:

60,4% dorme 8 ou menos horas de sono (aconselhado: 10 a 11 horas de sono ente os 6 e 16 anos);

23% deita-se depois das 23:00. (Fonte: Dissertação de Mestrado em Ciências do Sono, Universidade de Lisboa, pela neuropediatra Teresa Moreno)

Vale a pena pesar as vantagens e desvantagens do uso da tecnologia em determinados momentos do dia e da vida. Sobretudo, quando se trata de hipotecar a nossa saúde futura.