Nefropatia diabética: o que é?

Mais de um terço de todas as pessoas que começam uma diálise regular têm em comum a nefropatia diabética. Esta complicação grave da diabetes é, hoje em dia, a principal causa de doença renal crónica. Saiba como controlar os riscos da doença.

Nefropatia diabética: o que é

Pouco a pouco, ao longo do tempo, a glicemia (açúcar no sangue) elevada afeta diversos órgãos no organismo das pessoas com diabetes mellitus. Entre as várias complicações possíveis, os danos nos rins são um dos problemas mais comuns, que exigem atenção redobrada.
A nefropatia diabética é a doença renal resultante, precisamente, das lesões microvasculares provocadas pela diabetes. Com o tempo, os nefrónios (unidades funcionais do rim que permitem que o sangue seja filtrado) deixam de cumprir a sua função.
Com a evolução da doença – agravada pela falta de controlo da glicemia – a nefropatia pode passar a um quadro de insuficiência renal crónica. Nesse patamar, o rim deixa de cumprir a sua função de purificação, sendo necessário recorrer a uma substituição: hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante renal.

Nefropatia e diabetes

“A nefropatia diabética é a causa mais frequente de doença renal crónica terminal”, sublinha o nefrologista Carlos Botelho, do Hospital Lusíadas Porto, acrescentando que 35% a 40% das pessoas em hemodiálise são diabéticas.

Apesar de a nefropatia ser uma consequência da diabetes, a verdade é que nem todos os diabéticos desenvolvem a doença. Segundo as estatísticas, explica Carlos Botelho, a nefropatia diabética atinge cerca 30% a 40% das pessoas com diabetes tipo I.

A grande maioria (80%) dos diabéticos com doença renal crónica está diagnosticada com diabetes tipo II, o tipo mais comum.

As complicações da diabetes não surgem no imediato e são resultado da presença de glicemia ao longo do tempo. Por isso, “o pico de incidência da nefropatia situa-se entre os 10 a 15 anos da doença”, adianta o nefrologista do Hospital Lusíadas Porto.

Fatores de risco

O desenvolvimento de nefropatia diabética está sobretudo associado a fatores de risco específicos em certas pessoas com diabetes:
Hipertensão arterial;
Tabagismo;
Raça (com maior propensão em hispânicos, afro-americanos e asiáticos, por exemplo);
Fatores genéticos;
Menor controlo glicémico.

Quais os sintomas da nefropatia diabética?

Não existem sintomas conhecidos nas primeiras fases da nefropatia diabética. Por isso mesmo, é importante que a pessoa diagnosticada com diabetes faça exames regulares de urina para deteção de danos nos rins. A deteção precoce da doença é essencial para o seu controlo e para que a sua evolução possa ser minimizada.

À medida que os rins deixam de ser funcionais (fases mais avançadas da doença), o corpo começa a ficar mais inchado, sobretudo nas pernas e nos pés.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico de nefropatia diabética em fases iniciais pode ser feito com recurso a exames de urina muito simples, que detetam a presença da proteína albumina na urina. Se os rins estiverem a funcionar em pleno, a urina não contém albumina. No entanto, à medida que o órgão perde a sua capacidade de retenção, a proteína começa a sair para a urina. Por essa razão, quanto maior é a albumina detetada, mais avançada está a nefropatia.

Uma pessoa com diabetes deve realizar testes anuais de urina para deteção de albumina e consequente diagnóstico de nefropatia diabética.

Fases da doença

Em pessoas com diabetes tipo I, a nefropatia renal pode ser classificada em cinco etapas ou estádios, de acordo com a sua progressão e gravidade.

  • Fase 1 – Hipertrofia Renal

Esta é a fase inicial da doença, caracterizada por um aumento da dimensão dos rins, hipertrofia renal e glomerular. Este estádio pode ser revertido através de controlo metabólico. 

  • Fase 2 – Lesão renal sem evidências clínicas

Surge dois a cinco anos após as alterações iniciais e é clinicamente “silenciosa”. Caracteriza-se pela redução da taxa de filtração glomerular para valores normais, a par de uma concentração normal de albumina. Esta fase dura entre cinco a 15 anos. 

  • Fase 3 – Nefropatia incipiente

É a primeira fase possível de ser detetada clinicamente com exames de urina, uma vez que corresponde à presença excessiva de albumina na urina (valores de 20-200 µg/min ou de 30–300 mg/24 horas). Se a albumina detetada se enquadrar nestes valores em três análises positivas durante três meses, é considerado um caso de microalbuminúria persistente – prevalente entre 20% a 30% das pessoas com diabetes tipo I.

  • Fase 4 – Nefropatia Clínica 

Neste estádio, assiste-se a um declínio progressivo da função renal, acompanhada, na maioria dos casos, de hipertensão arterial difícil de controlar (que acaba por agravar a lesão renal). A presença de albumina na urina excede 200 ug/min, o que corresponde à chamada proteinúria (perda excessiva de proteínas através da urina). Nesta fase, a proteinúria aumenta a um ritmo de 15% a 40% por ano.

  • Fase 5 – Insuficiência renal avançada

O rim deixa de cumprir a sua função de forma irreversível (taxa de filtração glomerular inferior a 15 ml/min), sendo necessário recorrer a diálise ou transplante renal. Esta fase surge cinco a dez anos após o início da proteinúria. Nesta fase “o prognóstico é reservado, com uma taxa de sobrevivência de 49%”, avisa Carlos Botelho.

E quanto à progressão da doença em pessoas com diabetes tipo II? Nesses casos, explica o nefrologista, “a evolução é mais irregular, quer na sucessão das fases, quer na duração”.

Tratamento e controlo

A melhor forma de prevenir e diminuir o agravamento da nefropatia diabética passa, essencialmente, por:

  • Controlo da glicemia

Uma vez que a presença elevada de açúcar no sangue danifica os vasos sanguíneos dos rins (e de outros órgãos), o seu controlo é sobretudo eficaz “na prevenção e diminuição da progressão nas fases iniciais da doença”, embora deva ser mantido ao longo das diferentes fases, lembra Carlos Botelho.

  • Controlo da pressão arterial

A hipertensão arterial agrava a evolução da nefropatia diabética, além de ser um fator de risco cardiovascular. Ao controlar estes valores poderá alcançar uma redução da albumina presente na urina e a diminuição do ritmo de deterioração da função renal. Esta terapêutica é particularmente importante em fases mais avançadas da nefropatia.

O controlo da glicemia e da pressão arterial pode ser feito através de fármacos, mas é também importante que mantenha uma alimentação adequada e hábitos de vida saudáveis, com exercício físico regular, controlo de peso e sem fumar. Recomenda-se que, a nível alimentar, siga uma dieta hipoproteica (consumo reduzido de alimentos ricos em proteínas) e que consulte regularmente um especialista para um controlo metabólico rigoroso.

Colaboração:
Carlos Botelho, nefrologista do Hospital Lusíadas Porto

Especialidades em foco neste artigo:
Nefrologia