Mercúrio no peixe: um motivo de preocupação?

Todo o pescado contém alguma quantidade de metilmercúrio. Contudo, os níveis que ingerimos não são, de acordo com evidência científica, nocivos para a nossa saúde. Perceba porquê.

Mercúrio no peixe: um motivo de preocupação?

Portugal é um país caracterizado por uma dieta tipicamente mediterrânica, em que o peixe tem um importante papel na alimentação. O povo português é o terceiro maior consumidor de peixe per capita na Europa, (aproximadamente 53,8 kg/per capita em 2013) ficando apenas atrás da Islândia e das Ilhas Faroé.Os peixes mais consumidos pelos portugueses são pequenos peixes pelágicos, como a sardinha e o carapau.1

O peixe é um alimento com alto teor de proteína, fornecendo vitaminas (A, D e do complexo B) e minerais (como selénio, zinco, ferro e iodo).2 Adicionalmente, fornece ácidos gordos ómega 3, que desempenham um importante papel na saúde cardiovascular e no desenvolvimento neurológico pré e pós-natal.3  

A presença de contaminantes no peixe é muitas vezes um motivo de preocupação, sendo que quase todo o peixe e marisco contêm, pelo menos, vestígios de mercúrio (Hg), independentemente do seu local de proveniência.O mercúrio é um mineral não só presente naturalmente no meio ambiente como também resultante da atividade humana.Quando o mercúrio entra em contacto com a água dos rios, lagos e oceanos transforma-se num composto designado por metilmercúrio (MeHg), sendo sob esta forma que é ingerido pelos peixes, integrando a sua cadeia alimentar.2

Em 2010, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e a OMS (Organização Mundial de Saúde) discutiram os riscos e benefícios da ingestão de peixe. Foram realizados estudos em que foram comparados os níveis de ómega 3 e os níveis totais de metilmercúrio em 96 espécies de peixe. Concluíram que os riscos no neurodesenvolvimento da criança cuja mãe não ingeria peixe eram superiores aos riscos de ingerir peixe, mesmo consumindo 7 porções (700g) por semana (desde que os níveis de MeHg do peixe fossem inferiores a 1 μg/g). Ainda assim, concluiu-se que para peixes com mais de 1 μg/g de MeHg, o consumo não deve ser superior a 2 porções por semana.

Para a população em geral, não existe evidência reconhecida dos efeitos adversos de metilmercúrio nos níveis atuais de ingestão de peixe.5 No entanto, como prevenção, a EPA (U.S. Environmental Protection Agency) e a FDA (Food and Drug Administration) concluíram que os grupos de risco que devem evitar peixes com maior quantidade de metilmercúrio, são:
Mulheres em idade fértil;4
Mulheres grávidas;4
Mulheres a amamentar; 4
Crianças.4

Os contaminantes acumulam-se mais em alguns tipos de peixes do que em outros, particularmente em peixes posicionados no topo da cadeia alimentar, como o peixe-espada, o espadarte, o safio e o atum fresco (ver tabela 1).Logo, o grau de exposição ao metilmercúrio depende não só da quantidade como também, do tipo de peixe ingerido.Assim, é recomendado o consumo de peixes de porte médio, visto que peixes posicionados no topo da cadeia alimentar acumulam, tendencialmente, maior quantidade de contaminantes.Deve-se também selecionar, de forma preferencial, pescado de origem nacional pois os peixes de águas quentes reúnem maiores níveis de metilmercúrio quando comparados com peixes de águas frias.5

Níveis de mercúrio no peixe
* 5, 6, 7

Conclusões

O peixe é um alimento com um valor nutricional inquestionável e que deve ser parte integrante de um regime alimentar saudável;

Todo o pescado contém alguma quantidade de metilmercúrio. Contudo, os níveis que ingerimos não são, de acordo com evidência científica, nocivos para a nossa saúde, sendo que não constituem um motivo válido para a exclusão deste alimento da nossa dieta;

Alterne o consumo de carne e peixe e limite a ingestão de peixes com maiores teores de metilmercúrio a 180g por semana, de acordo com a FDA, caso se insira num dos grupos de risco referidos (mulheres em idade fértil, grávidas, mulheres a amamentar e crianças).

 

Referências bibliográficas

1. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Disponível em: http://www.fao.org/fishery/facp/PRT/en

2. U. S. Environmental Protection Agency e a Food and Drug Administration. Eating Fish: What Pregnant Women and Parents Should Know. EPA; FDA.2017

3. Environment Defense Fund. Disponível em: http://seafood.edf.org/benefits-eating-fish

4. United States Environmental Protection Agency. Disponível em: https://www.epa.gov/choose-fish-and-shellfish-wisely/fish-and-shellfish-advisories-and-safe-eating-guidelines

5. Associação Portuguesa dos Nutricionistas. Pescar Saúde. APN. 2016

6. Natural Resources Defense Council. Eating fi sh is good for you, right. NRDC.2006

7. Raimann, X. et al. – Mercurio en pescados y su importancia en la salud. (2014) 1174–1180.

Autoria:
Tânia Furtado, nutricionista do Hospital Lusíadas Lisboa, Clínica Lusíadas Almada e Clínica Lusíadas Parque das Nações 

Especialidades em foco neste artigo:
Nutrição Clínica