Também há alergias no outono/inverno

A primavera e o verão são alturas críticas devido aos pólenes, mas é no outono e no inverno que as alergias causadas pelos ácaros de pó de casa se mostram mais incomodativas. Josefina Cernadas, coordenadora da especialidade de Imunoalergologia do Hospital Lusíadas Porto, explica o que está em causa nas alergias respiratórias e o que pode ser feito para minimizar os efeitos da patologia em qualquer altura do ano.

Alergias do outono e do inverno

O que são as alergias?

Na origem de qualquer alergia respiratória, tal como acontece com as alergias alimentares ou medicamentosas, está sempre uma hipersensibilidade do sistema imunitário do indivíduo a uma substância que é inócua para a maioria dos seres humanos. Os alergénios mais comuns para o aparelho respiratório são os pólenes, ácaros e fungos e a intolerância a estes agentes revela-se sobretudo através de manifestações de rinite, conjuntivite e/ou asma, que podem ocorrer, em simultâneo ou isoladamente, em qualquer altura do ano.

Meses mais problemáticos

“Nas pessoas alérgicas a pólenes, as manifestações clínicas são muito mais exuberantes na primavera, podendo prolongar-se até ao verão, ou mesmo até um pouco depois. Mas há também uma grande percentagem de pessoas com alergia a ácaros de pó de casa que têm crises predominantemente no outono/inverno. E não podemos também esquecer as pessoas que têm alergias a estes vários alergénios, com sintomas o ano todo e muito mais incomodativos”, sublinha Josefina Cernadas, coordenadora da especialidade de Imunoalergologia do Hospital Lusíadas Porto.
As alergias respiratórias podem surgir e tornar-se um problema em qualquer estação do ano ou mês do calendário. “Existe também um grupo muito particular de pessoas que, tendo reação a fungos, também pode ter sintomas todo o ano”, acrescenta a especialista.

Sintomas

Os sintomas das alergias respiratórias são:

Prurido nasal (comichão no nariz) ou em locais como a orofaringe, o palato e até os ouvidos;

—  Espirros, nomeadamente ao acordar e muitas vezes em salva (vários seguidos) ou em cenários específicos — apenas fora de casa ou especificamente em dias de primavera com muito vento ou calor, no caso dos alérgicos a pólenes, por exemplo;

Rinorreia (“pingo” no nariz);

Congestão e obstrução nasal (nariz “entupido”)

 

Quase todos os sinais de alergia são também sintomas de constipação, sendo a confusão entre os dois estados clínicos bastante comum. No entanto, “as infeções víricas do trato respiratório superior são muito limitadas no tempo e não se repetem com a mesma frequência das crises de alergia, que surgem sempre que o doente ainda não tratado e controlado é exposto ao alergénio”, lembra Josefina Cernadas.

“Aos doentes que se queixam de estar ‘sempre constipados’, quando os seus casos são corretamente estudados e avaliados, é raro que não lhes seja diagnosticada uma alergia”, alerta ainda.

Fatores de risco

  • Predisposição genética

 “Os diversos fatores de risco para desenvolvimento de alergias respiratórias e outros tipos de alergias continuam ainda hoje a ser aprofundados em largas séries de estudos, mas sabe-se já que, nesta matéria, a predisposição genética é extremamente importante”, explica Josefina Cernadas.
A probabilidade de desenvolver uma alergia respiratória é significativamente maior quando existem antecedentes familiares.

História familiar — Risco de patologia alérgica

Nenhum dos pais é alérgico — 5% a 15%;

Um dos pais é alérgico —20% a 40%;

Ambos os pais são alérgicos — 40 a 60%;

Ambos os pais sofrem da mesma doença alérgica — 80%.

  • Fatores ambientais  

A coordenadora da especialidade de Imunoalergologia do Hospital Lusíadas Porto salienta que “as alterações do meio ambiente e dos estilos de vida, a urbanização crescente, a poluição, o tabagismo ativo ou passivo e as alterações dos hábitos alimentares são fatores que promovem o desenvolvimento de alergias”.

A ciência sabe hoje que “a poluição atmosférica agrava as doenças respiratórias (embora não esteja diretamente na origem das mesmas)” e as estatísticas mostram que “o risco de mortalidade devido a uma doença respiratória é três vezes superior em cidades grandes, com concentrações elevadas de ozono, comparativamente a regiões com níveis inferiores desta substância”.

  • Higiene em excesso

Um grande número de especialistas defende a hipótese higienista como forma de explicar o progressivo aumento da prevalência de patologia alérgica.

“A proteção excessiva do organismo durante a infância, através de uma exposição mínima a agentes patogénicos externos, será assim a grande responsável pelo desenvolvimento de um sistema imunitário pronto a atacar todas as proteínas comuns na vida quotidiana”.

Esta teoria é corroborada por investigação científica feita com base no contexto de exposição dos bebés nos primeiros tempos de vida. “Efetivamente, de acordo com alguns estudos realizados, os recém-nascidos sujeitos a ambientes infeciosos encontram-se mais bem protegidos das doenças alérgicas”, comenta Josefina Cernadas.

Diagnóstico

Quer estejam em causa as manifestações mais comuns de alergias respiratórias, como a rinite e conjuntivite, ou se verifique asma ou outro tipo de alergia com compromisso de vias aéreas inferiores mais raro (como as pneumonites de hipersensibilidade), a recolha da história clínica e o exame físico são, sempre e em qualquer caso, os primeiros passos a dar, quase sempre cruciais para o diagnóstico.

Depois, para perceber exatamente qual o alergénio em causa, os testes cutâneos são uma ferramenta igualmente importante. Neste tipo de testes são usados “uma série de alergénios que incluem ácaros do pó de casa, vários pólenes e faneras de animais que fazem parte de uma bateria standard de alergénios que são os que são mais prevalentes na população portuguesa”, explica a imunoalergologista do Hospital Lusíadas Porto. Em casos particulares, como tratadores de cavalos ou trabalhadores de laboratório, por exemplo, podem ser incluídos alergénios específicos, como extratos de pelo de cavalo ou hamsters, etc.

“Como em todas as áreas da medicina, o processo do diagnóstico evolui em crescendo e muitas vezes temos que nos socorrer de outros métodos de diagnóstico”, sublinha Josefina Cernadas. A médica lembra também que para o diagnóstico de doenças das vias respiratórias inferiores como a asma é obrigatória a realização de provas de função respiratória (com e sem broncodilatação).

Tratamento

As medidas de prevenção e tratamento das alergias respiratórias devem ser decididas pelo médico, em função das características individuais do caso clínico particular. Existe todo um arsenal de medicação à disposição dos médicos a permitir diferentes combinações de prescrição à medida das necessidades de cada pessoa.

  • Alívio dos sintomas

Perante uma crise alérgica, o tratamento passa pelo uso de fármacos cuja atuação se resume a obter uma melhoria dos sintomas. Os anti-histamínicos servem para controlar as crises de rinite e de conjuntivite, bloqueando a ação da histamina, químico produzido pelo organismo sempre que contacta com um alergénio, aliviando dessa forma as sensações de prurido e ardor, etc. Nos casos de asma são recomendados os broncodilatadores, medicamentos que, como o próprio nome indica, promovem o relaxamento dos brônquios, facilitando a respiração.

  • Prevenção

A utilização de corticosteroides tópicos, inalados, permite agir por antecipação, prevenindo novas crises de alergia. “Os medicamentos atuam sobre o processo inflamatório de base, processo esse que é sustentado no tempo, on going, e que é o causador dos sintomas tanto da rinite como da asma. Muitas vezes, os corticosteroides e os broncodilatadores são usados em associação, tendo ambos um papel fundamental no controle da doença alérgica”, diz Josefina Cernadas.

  • Imunidade

Os tratamentos feitos com recurso a vacinas antialérgicas ou imunoterapia têm como objetivo “fazer com que um indivíduo, que reage de forma exagerada a um alergénio do ambiente, inalado, se possa tornar tolerante à sua presença e não reagir de forma a causar sintomatologia”, explica a especialista.
As vacinas interferem nos circuitos complexos do sistema imunitário e estão indicadas para pessoas que tenham rinite ou asma alérgica, com exceção de doentes alérgicos com asmas graves não controladas.

 

Revisão científica:
Josefina Cernadas, coordenadora da especialidade de Imunoalergologia do Hospital Lusíadas Porto

Especialidades em foco neste artigo:
Imunoalergologia