Factos e mitos sobre tatuagens

As complicações são raras, mas qualquer tatuagem é uma ferida que exige cuidados durante a cicatrização. Pedro Ponte, dermatologista do Hospital Lusíadas Lisboa, aconselha uma consulta pré-procedimento e esclarece todas as dúvidas.

Tatuagem: factos e mitos

1. Fazer uma tatuagem pode ser doloroso

Facto. Não há volta a dar: fazer uma tatuagem dói. O grau de sofrimento, no entanto, pode ser bastante variável. De acordo com Pedro Ponte, dermatologista do Hospital Lusíadas Lisboaalém da rapidez e estilo do tatuador, bem como do desenho em si (quanto mais cheio o desenho, com mais sombreados, mais doloroso), estão também em causa alguns fatores internos e externos. O autocontrolo da pessoa, o seu estado de ansiedade e também a medicação habitual e os hábitos de consumo de álcool e/ou drogas influem na perceção da dor, mas também não é indiferente a espessura da pele e gordura existente sob a área a tatuar.

  • Áreas menos dolorosas

(com pele mais espessa e mais gordura subcutânea): coxas, pernas, ombros, antebraço, dorso e face externa do braço.

  • Áreas mais dolorosas

(pele fina e pouca ou nenhuma gordura subcutânea): genitais, lábios, mamilos, cabeça/rosto, joelhos, axilas, dedos, coluna, grelha costal, mãos, pés, canelas, tornozelos, cotovelos, face interna do braço, abdómen, anca, áreas sobre as articulações em geral.

2. As tatuagens devem ser feitas no inverno

Facto. Não é uma condição imprescindível, mas escolher a estação fria para fazer uma tatuagem diminui a possibilidade de complicações durante o período de cicatrização. Apanhar sol, frequentar piscinas e tomar banhos de mar, os prazeres da época balnear, são de evitar. Porquê? “Qualquer zona de pele inflamada, quando exposta ao sol, pode hiperpigmentar, existe um risco estético. E, por outro lado, tratando-se de uma zona de pele ferida, o contacto com a água aumenta o risco de infeção, ou seja, há também um risco médico”, explica Pedro Ponte.

3. Uma tatuagem é para o resto da vida

Mito. Qualquer tatuagem é passível de ser removida através de cirurgia, dermabrasão ou laser. As duas primeiras opções permitem atingir o objetivo de uma vez só, mas como deixam uma cicatriz definitiva, olaseré atualmente o tratamento preferencial. Este método implica várias sessões de tratamento para a remoção completa ou quase completa da tatuagem, com um baixo risco de cicatriz. “O tratamento comlaserenvolve a destruição seletiva de moléculas de tinta que são então absorvidas pelas células do sistema imunitário e depois eliminadas pelo sistema linfático”, começa por explicar Pedro Ponte. “A duração do disparo (alguns nanossegundos) permite que a energia do laserseja confinada à partícula de tatuagem (pequenos grânulos de aproximadamente 0,1 micrómetro), minimizando assim a energia dissipada para a pele envolvente e os consequentes riscos de cicatriz (que, apesar disso, podem existir)”, acrescenta o dermatologista. Diferentes tipos de cores implicam diferentes tipos de laser, sendo que o preto é o pigmento mais fácil de remover. O processo não é isento de dor e implica várias sessões.

4. As cores vermelha, laranja e amarela colocam mais riscos

Facto. Os agentes colorantes das tatuagens incluem sais metálicos inorgânicos, pigmentos orgânicos e diferentes moléculas orgânicas. Embora a sua composição tenha vindo a mudar ao longo dos anos — “os produtos atualmente utilizados têm menos mercúrio, cádmio e cobalto e mais alumínio, titânio, oxigénio e carbono” — não se pode falar de risco zero. Alguns metais mais alergénicos, como crómio, níquel e cobalto, continuam a ser utilizados, bem como alguns pigmentos orgânicos potencialmente perigosos. “As cores vermelha, laranja e amarela têm provavelmente mais compostos como o cádmio e o mercúrio, que são potencialmente carcinogénicos, e também implicam maior risco de reações inflamatórias crónicas, como reações eczematiformes, liquenoides e granulomatosas”, explica Pedro Ponte. Em causa estão o surgimento de eczemas, descamação, pequenas feridas com crosta ou nódulos.

Nota: “Ainda que haja componentes cancerígenos nas tintas, não há evidência científica de que aumentem o risco de cancro. As nanopartículas de pigmento que são introduzidas na pele podem ser encontradas nos gânglios linfáticos, mas ainda que em teoria isso possa interferir com o sistema linfático e aumentar o risco teórico de linfoma, não existem dados que consubstanciem essa hipótese”, esclarece o especialista.

5. As reações alérgicas podem surgir até vários anos depois

Facto. Uma alergia provocada por um componente dos agentes colorantes da tatuagem pode assumir diferentes formatos, alerta o dermatologista Pedro Ponte. A saber:

  • Reações eczematiformes:

Caracterizam-se pelo aparecimento de sintomas como vermelhidão, descamação e prurido, sendo mais comuns quando a tatuagem inclui o pigmento vermelho, que contém mercúrio. Com menor frequência, podem também surgir reações eczematiformes devido a alguns dos aditivos por vezes presentes no preto, azul, roxo e verde. Ocorrem habitualmente nas semanas ou nos primeiros meses que se seguem ao tratamento.

  • Reações fotografadas:

Provocam igualmente vermelhidão, descamação e prurido, mas distinguem-se das anteriores por se tratarem de reações que apenas surgem quando a zona da tatuagem é exposta ao sol. É comum surgirem com o cádmio presente no amarelo, mas também podem ocorrer com o vermelho.

  • Reações granulomatosas, liquenoides e pseudo-linfomatosas:

São tipos específicos de reações, identificadas pelo emergir de zonas mais vermelhas ou violáceas, ou pequenos nódulos inflamatórios. São igualmente mais comuns com o vermelho, mas podem acontecer com o verde, o azul ou o roxo. Podem surgir após alguns meses ou mesmo vários anos depois da realização da tatuagem.

  • Cicatrizes hipertróficas ou queloides:

A pele não se repara da forma expectável, podendo originar cicatrizes elevadas, que excedem as linhas do desenho da tatuagem.

6. O risco de infeção é sempre igual

Mito. As tatuagens devem ser encaradas como feridas abertas que podem demorar até duas semanas a cicatrizar. A zona tem de ser limpa com soluções desinfetantes, após o que deve ser aplicado um creme reparador. “As infeções mais comuns desenvolvem-se nesse período – impetigo, celulite, herpes simples. As infeções mais graves (nomeadamente as que podem ser contraídas por falta de esterilização do equipamento e assepsia da técnica, como sífilis, HIV, hepatite, etc.), essas, dão sintomas menos evidentes e mais tardios”, informa o especialista. Depois desses 15 dias, as tatuagens não devem ser expostas ao sol durante cerca de um mês e, mesmo pós esse período, é sempre aconselhável a aplicação de um fotoprotetor com um mínimo de FPS30.

7. Durante uma ressonância magnética, é possível sentir ardor ou inchaço nas zonas de pele tatuadas

Facto. “Pode acontecer”, confirma Pedro Ponte. A interação da radiação com os pigmentos metálicos existentes em tatuagens que contenham ferro (preto, castanho), pode resultar numa leve queimadura no local de tatuagem, com vermelhidão e inchaço.

Considerações gerais…

 As infeções e as complicações relacionadas com tatuagens são, ainda assim, raras. “Terei observado uma dezena de complicações relacionadas com tatuagens, quando já acompanhei milhares de pessoas tatuadas, que vieram à consulta por motivos que nada tinham a ver com tatuagens”, conta Pedro Ponte. Ainda assim, o especialista recomenda uma consulta prévia com um dermatologista e alerta sobre quais devem ser os procedimentos do tatuador para garantir a segurança no procedimento.

…para quem pretende fazer uma tatuagem:

Nenhum menor deve ser tatuado sem o consentimento por escrito e a presença de um dos pais ou responsável;
Ninguém que esteja sob a influência de álcool ou de outras drogas que alterem o julgamento deve receber uma tatuagem;
Qualquer pessoa que tenha uma infeção ativa ou doença de pele deve ser alertada do risco potencial de propagação de infeção ou doença que se agrave por tatuagem;
Deverá marcar uma consulta pré-procedimento para discutir a tatuagem, os seus riscos e potenciais complicações.

… para tatuadores:

Os tatuadores, tanto tradicionais quanto cosméticos, deveriam ter treino adequado sobre saneamento, esterilização, anatomia cutânea, dermatoses e infeções comuns, precauções de fluidos corporais universais, materiais cortantes, tratamento de resíduos biológicos e tratamento de feridas;
Deveriam registar a cor, o fabricante e o número de lotes de pigmentos usados ​​em cada tatuagem;
É fundamental usar luvas de proteção (como as que são usadas pelos profissionais de saúde), empregar técnicas apropriadas de esterilização de instrumentos e praticar precauções universais contra infeções transmitidas pelo sangue;
Há que fornecer instruções de cuidados com a pele, incluindo os sinais e sintomas de complicações e onde se dirigir para cuidados médicos;
Os estúdios de tatuagem deveriam estar sujeitos a inspeções sanitárias.

Colaboração:
Pedro Ponte, dermatologista do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Dermatologia