Factos e mitos sobre incontinência urinária

Sabia que um em cada 5 portugueses acima dos 40 anos sofre de incontinência urinária? Neste artigo poderá aprender a distinguir os factos dos mitos sobre esta situação que é muito comum, mas pouco falada.

Factos e mitos sobre incontinência urinária

Perde urina quando tosse, espirra, faz uma corrida ou quando levanta os sacos das compras? Costuma sentir uma vontade repentina de ir à casa de banho e não consegue conter a urina? Se a resposta for positiva então pode sofrer de incontinência urinária, uma situação patológica que afeta 20% da população portuguesa com mais de 40 anos.
Os dados são da Associação Portuguesa de Urologia e da Associação Portuguesa de Neuroulogia e Uroginecologia que alertam ainda para o facto de apenas 10% das pessoas que sofrem de incontinência urinária procurarem ajuda médica, o que as impede de alcançar a cura.

O que é a incontinência urinária?

A incontinência urinária define-se como sendo uma situação em que ocorre perda involuntária de urina, constituindo um problema social e higiénico, segundo a definição da Sociedade Internacional de Continência.

Quais os tipos de incontinência urinária?

Os mais frequentes são a incontinência urinária de esforço e a incontinência urinária por urgência ou imperiosidade, havendo quem tenha sintomas comuns aos dois tipos, a que se chama incontinência mista.

Tipos de incontinência urinária:

  • Incontinência urinária de esforço

A incontinência urinária de esforço acontece quando os músculos do pavimento pélvico (que sustentam a uretra e a bexiga) estão enfraquecidos e existe uma pressão exercida sobre a bexiga. Esse aumento de pressão dentro do abdómen pode acontecer, por exemplo, ao tossir, espirrar, rir, fazer exercício ou pegar em pesos. A pessoa não perde urina se estiver imóvel ou não realizar esforços. É mais frequente nas mulheres e nos homens acontece raramente, mas quase exclusivamente depois de cirurgias pélvicas;

  • Incontinência urinária por urgência ou imperiosidade

Caracteriza-se por ser uma perda de urina involuntária, mas que é sempre precedida por uma vontade súbita e intensa de ir à casa de banho. Por exemplo, pode acontecer quando se ouve água a cair ou ao colocar a chave na fechadura da porta quando se chega a casa. Este tipo de incontinência pode estar associado ao envelhecimento, mas também pode estar ligado a doenças neurológicas, como a doença de Parkinson ou esclerose múltipla ou, muitas vezes, não ter causas identificáveis. Este tipo de incontinência urinária pode ter um impacto significativo na vida da pessoa, uma vez que as pessoas podem viver em função da proximidade de uma casa de banho;

  • Incontinência urinária mista

Tem sintomas comuns à incontinência urinária de esforço e por urgência. Ou seja, existem perdas com o aumento da pressão abdominal e também se verifica urgência e incontinência de urgência;

  • Incontinência por extravasão

As perdas de urina acontecem quando a bexiga contém grandes volumes de urina e a pressão do líquido é tão elevada que ultrapassa a resistência da uretra; 

  • Incontinência funcional

Causada por incapacidade da própria pessoa. Acontece em casos de demência ou de imobilidade, como no caso da doença de Alzheimer;

  • Enurese noturna

São as perdas involuntárias de urina durante o sono. Ocorrem de forma mais frequente em crianças mas também pode acontecer na idade adulta.

Agora, esclareça as dúvidas frequentes relacionadas com a incontinência urinária, recorrendo à ajuda de Miguel Ramos, urologista do Hospital Lusíadas Porto.

A incontinência afeta mais as mulheres.

Facto. A incontinência urinária é mais frequente nas mulheres (33%) do que nos homens (16%), segundo os dados da Associação Portuguesa de Urologia e da Associação Portuguesa de Neuroulogia e Uroginecologia. Por exemplo, entre os 45 e os 65 anos a proporção de casos de incontinência urinária é de 3 mulheres para cada homem. A gravidez, os partos vaginais ou as alterações hormonais ligadas à menopausa que favorecem um relaxamento da tonicidade muscular do períneo são alguns dos fatores de risco de incontinência urinária.

A incontinência urinária só afeta as pessoas idosas.

Mito. Apesar de o risco de incontinência urinária aumentar com a idade (o aparelho urinário muda ao envelhecermos), qualquer pessoa pode ter sintomas de incontinência urinária. “Em qualquer idade, a continência [capacidade de urinar em circunstâncias social e higienicamente aceitáveis] depende não só da integridade do aparelho urinário baixo, mas também de uma adequada função cognitiva, mobilidade, motivação e destreza manual”, explica Miguel Ramos, urologista do Hospital Lusíadas Porto.

É normal perder urina de vez em quando.

Mito.A incontinência urinária nunca é normal, interfere muito com a qualidade de vida da pessoa e tem solução na maior parte dos casos. Assim, qualquer perda involuntária de urina após os 5 anos de idade deve ser considerada um problema médico.

As infeções urinárias podem provocar incontinência urinária.

Facto.As infeções urinárias de repetição podem causar incontinência ao tornarem a bexiga hipersensível e agravar uma incontinência já existente.

A incontinência urinária nunca tem cura.

Mito. Nas últimas décadas registaram-se importantes progressos científicos nesta área. Neste momento há várias formas de tratamento da incontinência urinária – com medicamentos ou técnicas de reabilitação e, se for necessário recorrer à cirurgia, a maioria não implica internamento, assinalam a Associação Portuguesa de Urologia e a Associação Portuguesa de Neuroulogia e Urinoginecologia.
No caso da incontinência urinária de esforço, o tratamento cirúrgico tem um papel muito importante nos dois géneros e a cura é possível em cerca de 90% dos casos, afirmam as mesmas fontes.
Quanto à incontinência urinária por imperiosidade, o tratamento feito com recurso a fármacos orais consegue melhorias sintomáticas na maioria das pessoas.
A par dos tratamentos é importante adaptar comportamentos que previnam a ocorrência das perdas de urina, tais como controlar a ingestão de líquidos, excluir alguns alimentos e bebidas que estimulem a bexiga ou programar um intervalo de tempo fixo para urinar, segundo as recomendações do médico.

Não é possível tratar a incontinência urinária nas idades mais avançadas.

Mito. A idade, só por si, não é contraindicação para tratamento da incontinência, explica Miguel Ramos. “Nas pessoas idosas, a incontinência está frequentemente associada a problemas fora do aparelho urinário (alterações da mobilidade, doenças neurológicas, fármacos, infeções, etc.), sendo muito importante identificá-los pois estes podem ser defeitos temporários e curáveis”, acrescenta o urologista. É, por isso, preciso analisar cada caso com atenção. “Neste grupo etário a incontinência é multifatorial, necessitando, portanto, de uma abordagem multifatorial, persistente, otimista e criativa. Assim, a incontinência é habitualmente tratável e frequentemente curável, mesmo nos indivíduos mais enfraquecidos”, acrescenta o especialista.

Como tal é importante não desvalorizar os sintomas mesmo nas idades mais avançadas. “Embora as pessoas, os familiares e por vezes os profissionais de saúde tenham tendência a negligenciar a incontinência, ou a considerá-la como parte normal do envelhecimento, a incontinência nunca é normal”, explica Miguel Ramos.

Se tiver incontinência urinária devo reduzir o consumo de café e de álcool.

Facto. Há algumas bebidas e alimentos que podem afetar as bexigas mais sensíveis, reforçando a sensação de urgência em urinar. São elas:

  • Bebidas que contêm cafeína

Bebidas como o café, chá e alguns refrigerantes estimulam a bexiga ao intensificar a sensação de ter de ir à casa de banho;

  • Bebidas alcoólicas

O álcool afeta as mensagens enviadas para o cérebro, levando a que haja menor controlo do momento em que deve ir à casa de banho;

  • Bebidas gaseificadas

O dióxido de carbono pode irritar uma bexiga sensível;

  • Alimentos mais ácidos

Os alimentos muito ácidos, como os que estão concentrados nos sumos de ananás, de laranja ou limonadas podem afetar as bexigas mais sensíveis, reforçando a urgência em urinar;

  • Comida picante

Tal como a cafeína, a comida picante irrita o revestimento da bexiga.

Revisão científica:
Miguel Ramos, urologista do Hospital Lusíadas Porto

Especialidade em foco neste artigo:
Urologia