Factos e Mitos sobre alergia e anti-histamínicos

Nem todos os medicamentos para as alergias dão sonolência, mas é verdade que alguns anti-histamínicos de primeira geração podem aumentar o apetite. Maria Antónia São Braz, imunoalergologista da Clínica Lusíadas Forum Algarve e da Clínica Lusíadas Faro, explica o que são e como funcionam estes fármacos.

Anti-histamínicos: factos e mitos explicados

Alergia

Uma alergia é a reação do sistema imunitário à presença de uma substância normalmente inócua para a maioria da população, mas que em alguns indivíduos o organismo interpreta como um corpo estranho (alergénio) podendo ser bastante incomodativa e alterar a qualidade de vida ou até mesmo colocar a vida em perigo. Sempre que se deteta um destes alergénios, o corpo atua libertando substâncias inflamatórias, entre elas a histamina, para combater o “invasor”. Esta reação provoca efeitos, sendo estes mais intensos nos locais onde se trava essa batalha, como a pele, os olhos, o nariz, a garganta, os brônquios ou o intestino. Assim, o nariz a pingar e com comichão e muitos espirros, olhos lacrimejantes, falta de ar, inchaço e comichão são sintomas comuns.

Histamina

“A histamina é um dos principais mediadores químicos envolvidos na resposta inflamatória alérgica podendo em casos graves levar à anafilaxia. É uma substância vasodilatadora, que provoca extravasamento de plasma que conduz ao aparecimento de edemas, vermelhidão, prurido, entre outros sintomas. Também exerce uma função reguladora na fisiologia intestinal, além de atuar como neurotransmissor, sendo um mediador químico em algumas reações fundamentais em todos os organismos animais e vegetais”, explica Maria Antónia São Braz, imunoalergologista da Clínica Lusíadas Forum Algarve e da Clínica Lusíadas Faro.

Anti-histamínicos

O controlo das alergias faz-se com o recurso a fármacos capazes de inibir a ação desta e de outras substâncias e de vacinas específicas. “Os anti-histamínicos bloqueiam a ligação da histamina aos recetores H1, impedindo o desencadear da cascata inflamatória e o cortejo de sintomas alérgicos”, descreve a médica. Existem, no entanto, duas gerações destes medicamentos — e as diferenças entre eles têm contribuído para alimentar algumas ideias erradas. Maria Antónia São Braz esclarece quais.

Factos e mitos sobre alergia e anti-histamínicos

Os anti-histamínicos são todos iguais.

Falso. Os anti-histamínicos de primeira geração (difenidramina, prometazina, hidroxizina e clorfenidramina) diminuem os sintomas alérgicos atravessando a barreira hematoencefálica, que protege o sistema nervoso central. Por esse motivo causam sonolência, desconcentração, visão turva e sensação de boca seca, podendo igualmente ter efeitos cardíacos. Os anti-histamínicos de segunda geração (fexofenadina, loratadina, cetirizina, ebastina, desloratadina, bilastina, rupatadina, levocetirizina) são mais seletivos e, por não atravessarem a barreira hematoencefálica, estão isentos desses efeitos secundários. Também não têm efeito sobre o coração.

Todos os anti-histamínicos provocam sono.

Falso. Apenas os anti-histamínicos da primeira geração causam desconcentração e sonolência. Com os anti-histamínicos de segunda geração isso já não acontece.

Alguns anti-histamínicos interferem no apetite.

Verdadeiro. Os anti-histamínicos de primeira geração podem aumentar a sensação de fome.

As bebidas alcoólicas interagem com os anti-histamínicos.

Verdadeiro. As bebidas alcoólicas agravam a diminuição do estado de alerta induzido pelos anti-histamínicos, pelo que o seu consumo é desaconselhado porhaver uma potenciação do efeito.

Os anti-histamínicos estimulam a retenção de líquidos e causam a sensação de corpo inchado.

Falso. Pelo contrário, o anti-histamínico combate o inchaço ajudando a reduzir o edema da reação inflamatória alérgica. O que acontece é que nas situações de crise aguda muitas vezes recomenda-se o uso de corticosteroides em conjunto com o anti-histamínico. E, nesse caso, pode de facto surgir inchaço/edema, um efeito secundário do corticosteroide e não do anti-histamínico.

O consumo de anti-histamínicos é sazonal.

Verdadeiro. De acordo com o Infarmed, que avaliou a evolução da utilização e despesa dos anti-histamínicos entre 2010-2017, houve um acréscimo no consumo de anti-histamínicos nos últimos anos (entre 2014 e 2017), mais acentuado na primavera e outono. Embora se saiba que existem pessoas com sintomatologia durante todo o ano, os meses de janeiro a maio e depois setembro e outubro são os que apresentam um maior nível de consumo, resultado de síndromes gripais e de alergias.

Os anti-histamínicos apenas aliviam os sintomas.

Verdadeiro. Têm efeito na prevenção e controlo dos sintomas, mas não curam. No entanto, podem diminuir a intensidade e frequência de futuras crises, melhorando a qualidade de vida da pessoa. O tempo do tratamento depende de cada caso, mas atualmente, como os efeitos secundários das últimas gerações de anti-histamínicos são de menor intensidade, é possível que sejam tomados como medida preventivadurante meses para controlar o alívio sintomático.

O mesmo anti-histamínico pode ser usado para combater uma alergia de pele, respiratória ou outra. 

Verdadeiro. A doença alérgica é uma doença sistémica que atinge um ou vários órgãos –alvo, e os anti-histamínicos atuam sempre bloqueando os recetores da histamina. Por isto, o mesmo anti-histamínico pode ser utilizado para a alergia respiratória, cutânea ou ocular, por exemplo. No entanto, é sempre bom lembrar que todas as pessoas são diferentes, sendo também diversa a sua tolerância ao fármaco e capacidade de metabolização hepática e renal — o controlo da sintomatologia alérgica requer vigilância médica.

Os anti-histamínicos estão proibidos durante a gravidez.

Falso. O uso de anti-histamínicos deve ser ponderado, pois a doença alérgica pode ser um problema para as grávidas e mães em amamentação. Os bloqueadores de H1 de primeira geração não estão associados a um risco aumentado de grandes malformações ou quaisquer efeitos adversos fetais (1). E, embora haja menos evidências quanto aos anti-histamínicos de segunda geração, estes medicamentos também não foram até agora associados a um risco aumentado de desfechos adversos na gravidez. No entanto, necessitam sempre de controlo médico. Cabe ao imunoalergologista chegar ao diagnóstico e identificar os fatores desencadeantes, bem como assumir o aconselhamento sobre a melhor forma de os evitar e instituir tratamento de patologias alérgicas que, quando mal controladas e não medicadas, podem ter importantes consequências negativas na mãe e/ou no feto.

Os anti-histamínicos interferem com a quantidade e qualidade do leite materno.

Falso. “A produção de leite materno não é afetada. É possível prescrever anti-histamínicos e parece que até à data nenhum anti-histamínico é excretado no leite materno em quantidade apreciável de forma a afetar o lactente.” Tal como as mulheres grávidas, as lactantes podem aliviar os seus sintomas alérgicos sem que isso represente um risco adicional aos seus fetos ou recém-nascidos. Durante a amamentação, a mulher com doença alérgica deve ser sempre acompanhada por um médico imunoalergologista para a instituição de terapêutica de controlo adequada, que permita o melhor controlo sintomático possível.

1 “Safety of antihistamines during pregnancy and lactation”- Miranda So, Pina Bozzo, Miho Inoue and Adrienne Einarson/ Canadian Family Physician May 2010, 56 (5) 427-429

Colaboração:
Maria Antónia São Braz, imunoalergologista da Clínica Lusíadas Forum Algarve e da Clínica Lusíadas Faro

Especialidades em foco neste artigo:
Imunoalergologia