Facto ou mito: há alimentos afrodisíacos?

Existem mesmo alimentos que estimulam o desejo sexual ou trata-se apenas do poder da sugestão? Fomos ver o que a ciência tem a dizer.

Há alimentos afrodisíacos?

O termo afrodisíaco deriva do nome Afrodite, a deusa grega do amor, e é usado para definir algo que estimula o desejo sexual. Em termos gerais, são considerados alimentos afrodisíacos aqueles que despertam sensações associadas ao desejo e à excitação sexual – como o aumento da frequência cardíaca e, consequentemente, aumento do fluxo de sangue no órgão sexual, da temperatura corporal e da energia. A Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana responsável pela fiscalização e regulamentação dos alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, designa por afrodisíaco qualquer produto com propriedades que aumentem o desejo sexual.

Das ostras ao chocolate

Ao longo da História têm sido vários os alimentos considerados afrodisíacos, desde especiarias como o açafrão a alimentos que supostamente têm parecenças com os órgãos genitais masculinos e femininos, como os espargos ou as ostras. Mas, de acordo com Diane Hoppe, ginecologista obstetra americana e autora do livro Healthy Sex Drive, Healthy You: What Your Libido Reveals About Your Life, a reputação das ostras pode não ser infundada em termos de benefícios para a saúde sexual, pois contêm grandes quantidades de zinco, um mineral importante para a produção de testosterona e para a contagem do esperma, fatores essenciais para a fertilidade masculina.

Em relação ao chocolate, este era considerado um poderoso afrodisíaco para o povo Asteca e, nos dias de hoje, continua a ser alimento muito popular e de “conforto”. No entanto, os estudos sugerem que a sua ingestão, embora esteja associada a um aumento dos níveis de serotonina (neurotransmissor que é ativado durante a excitação sexual), não tem um impacto significativo na libido. Embora o chocolate também contenha feniletilamina, uma substância química que pode provocar a sensação de excitação e de bem-estar geral, o corpo humano absorve apenas uma quantidade insignificante de feniletilamina através da ingestão de chocolate.

Suplementos alimentares com efeito afrodisíaco

Em 2015, um estudo divulgado na publicação Sexual Medicine Reviews fez uma revisão aos principais artigos científicos realizados até à data sobre os suplementos alimentares com alegado efeito afrodisíaco mais usados nos Estados Unidos. Verificou-se que na maior parte dos casos os riscos eram maiores do que os benefícios e que a sua utilização deveria ser evitada. Em casos pontuais, como produtos com ginseng, gingko biloba ou maca peruana (tubérculo semelhante ao rabanete), existiam alguns dados positivos – embora limitados – e os investigadores recomendavam a necessidade de realizar outras pesquisas que comprovassem a segurança e a eficácia desses suplementos alimentares em particular.

A FDA refere não existirem dados científicos adequados que permitam o reconhecimento da segurança e da eficácia dos suplementos de venda livre que incluam ingredientes com efeito afrodisíaco.

Alimentos afrodisíacos: efeito placebo?

O desejo sexual é diferente nos homens e nas mulheres. De acordo com informação do Institute for Advanced Study of Human Sexuality, São Francisco, para as mulheres existem muitas variáveis que vão além do sexo físico, o que torna ainda mais complicado encontrar “receitas” que funcionem para ambos os sexos. Outro fator que pode ter peso é que o stresse e a ausência de tempo de lazer e de descontração podem promover a procura por soluções instantâneas que possam aumentar o desejo sexual.

Vários especialistas partilham a ideia de que, embora a maior parte dos alimentos apontados como afrodisíacos não tenha por detrás evidência científica que os apoie como tendo efeitos benéficos no imediato, estes podem, no entanto, ter alguns efeitos benéficos a médio ou longo prazo na saúde geral (e sexual, por acréscimo) devido à sua composição nutricional. Isto é, o poder da sugestão e da antecipação podem motivar o desejo sexual, sendo que o efeito placebo também pode entrar em jogo.

O facto de as pessoas gostarem de determinado alimento que acreditam ser afrodisíaco e se sentirem mais sexy quando o ingerem pode ter influência e isso não é negativo, referem os especialistas. No entanto, alguns alertam para o facto de que recorrer a afrodisíacos na ausência persistente de desejo sexual poder ser um erro. Por exemplo, se a pessoa estiver deprimida deverá consultar um psicólogo ou um psiquiatra; se o seu relacionamento não for satisfatório, poderá procurar um terapeuta. Não se conseguem resolver problemas de libido recorrendo a este ou aquele alimento.

Em suma:

De acordo com a Food and Drug Administration, não existe evidência científica que comprove o efeito dos alimentos ou as substâncias afrodisíacas sobre a libido humana. No entanto, muitas pessoas utilizam substâncias afrodisíacas acreditando no seu efeito sobre o desejo sexual.

 

Revisão científica:
Ana Rita Lopes, Coordenadora da Unidade de Nutrição Clínica do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Nutrição Clínica