Endoscopia digestiva alta – passo a passo

Ricardo Veloso, gastrenterologista do Hospital Lusíadas Porto, explica o que é a endoscopia digestiva alta e como se realiza este exame.

Endoscopia digestiva alta passo a passo

O que é a endoscopia digestiva alta?

A endoscopia digestiva alta é um exame auxiliar de diagnóstico e tratamento que permite a visualização da parte superior do tubo digestivo (composto pelo esófago, estômago e duodeno). É realizado com um endoscópio, que é um tubo flexível com uma câmara, e permite diagnosticar a maioria das doenças do tubo digestivo superior.

A endoscopia também possibilita, através de um canal de trabalho, a realização de outros atos, como sejam a recolha de amostras (biopsias) e a realização de terapêuticas como a extração de pólipos ou o controlo de situações de hemorragia.

Quando se deve realizar?

As indicações para se realizar uma endoscopia digestiva alta são vastas.
As mais frequentes são para investigação de:
Queixas de dor na parte superior do abdómen (também denominadas epigastralgias ou “dor de estômago”);
Náuseas;
Vómitos;
Azia;
Dificuldade em engolir (disfagia);
Enfartamento frequente;
Rastreio de cancro gástrico;
Avaliação de anemia;
Perda de peso ou anorexia;
Como vigilância de várias doenças do tubo digestivo superior (estômago operado, após polipectomias, Esófago de Barrett, entre outras).

Preparação

A preparação para uma endoscopia digestiva alta é simples.

  • Tempo de jejum

Uma vez que o objetivo é observar o revestimento interior do tubo digestivo superior, o mais importante é cumprir um tempo de jejum adequado para que o estômago não tenha alimentos aquando da realização do exame.
Por regra, deve-se cumprir um mínimo de 8 horas de jejum, devendo a refeição anterior ao exame ser ligeira. Por vezes há pessoas com um atraso no esvaziamento gástrico, o que pode determinar um tempo de jejum mais prolongado, mas tal só se saberá após a realização do exame.

  • Medicação

É importante referir que a maior parte da medicação habitual pode e deve ser mantida, mesmo no dia da realização da endoscopia (tomar com um pouco de água até 2 horas antes da marcação do exame). Há algumas exceções a esta regra, como a necessidade de suspender medicação anticoagulante se for necessária a remoção de pólipos. Por vezes, é aconselhável parar a toma de inibidores da bomba de protões (os chamados “protetores gástricos”), mas nem sempre é necessário ou desejável, pelo que se deve informar com o seu médico assistente antes de realizar o exame.

E se optar por efetuar a endoscopia sob sedação?

Cada vez mais pessoas optam por efetuar a endoscopia digestiva alta sob sedação (anestesia), uma vez que torna o exame mais confortável e, muitas vezes, permite uma visualização mais cuidadosa do tubo digestivo superior e a realização de técnicas mais complexas, como a remoção de pólipos.

Se efetuar o exame sob sedação é importante que venha acompanhado, uma vez que não poderá conduzir nas 12 horas seguintes. É também importante que traga exames, análises e eletrocardiograma recentes que tenha efetuado.

O que acontece durante o exame?

A parte inicial do exame consiste na aplicação de um spray anestésico na boca para minimizar os sintomas. Esse spray (idêntico à anestesia dos dentistas) vai fazer com que a garganta pareça “encortiçada” por estar anestesiada. Esse efeito dura, tipicamente, cerca de 15-20 minutos e depois desaparece.

Depois de a garganta ser anestesiada é colocado um bucal para estabilização do aparelho e para proteção da pessoa. Depois o/a gastrenterologista, com o auxílio de um enfermeiro/a, vai iniciar o exame, introduzindo o endoscópio pela boca e guiando-o pelo tubo digestivo superior através de comandos existentes no endoscópio.

A endoscopia digestiva alta não é dolorosa. Inicialmente pode sentir uma ligeira sensação de engasgamento (durante a passagem do endoscópio para o esófago), mas nunca ficará sem ar, uma vez que a traqueia estará sempre desimpedida. Para uma correta visualização do tubo digestivo superior é necessária a insuflação de ar através do endoscópio, pelo que é natural que sinta uma sensação de inchaço que desaparece após o exame.

É muito importante que esteja calmo de forma a permitir a realização ótima do exame. Por vezes são realizadas biopsias, mas estas não são dolorosas uma vez que não há inervação dolorosa na camada superficial do tubo digestivo.

Se o exame for realizado sob sedação (anestesia), necessitará de ser admitido a um recobro antes e após a endoscopia. Durante o exame, será administrado um medicamento sedativo por um anestesista, para que se sinta mais confortável.

Quanto tempo pode demorar?

A endoscopia digestiva alta é, globalmente, um exame rápido que tipicamente não excede os 5 minutos. No entanto, pode demorar mais se for necessário realizar algum tratamento e/ou ato terapêutico.

Se optar por fazer o exame sob sedação, tem sempre que ter em conta que o tempo de recobro após o exame é de 30-45 minutos.

O que acontece depois do exame?

Se o exame for efetuado sem sedação, não deve comer ou beber nos 15-20 minutos após a endoscopia (é o tempo necessário para que os efeitos da anestesia local desapareçam). Pode sentir algum desconforto abdominal por causa do ar introduzido durante o exame, mas habitualmente essa sensação desaparece passados alguns minutos.

Se o exame for realizado sob sedação, a pessoa é levada para um recobro, de forma a esperar que passe o efeito do medicamento utilizado. É normal que as pessoas não se lembrem do exame ou que nem se tenham apercebido de que este já foi realizado.

Como indicado anteriormente, tipicamente as pessoas permanecem no recobro cerca de 30-45 minutos antes de ter alta e não podem conduzir nas 12 horas seguintes, pelo que é de especial importância que se façam acompanhar por alguém.

Complicações

As complicações da endoscopia digestiva alta são extremamente infrequentes, sendo um exame muito seguro. Mesmo quando existem complicações, habitualmente são pouco graves e passageiras. A percentagem global de complicações nas endoscopias digestivas altas apenas diagnósticas é de 0,0002% e de cerca de 0,15% naquelas em que é necessário efetuar alguma terapêutica.

O risco de perfuração do esófago ou do estômago é de cerca de 1 caso em cada 2.500-11.000 exames, sendo maior quando são necessários certos procedimentos, como a dilatação do esófago ou polipectomias de pólipos de grandes dimensões.

As complicações mais frequentes são a hemorragia (especialmente se for realizada polipectomia), podendo ser necessário o internamento e a realização de transfusões.

Muito raramente pode ser necessária a realização de cirurgia urgente por hemorragia não controlável ou por perfuração mas, como referido anteriormente, tratam-se de situações de extrema raridade.

A sedação pode ter outro tipo de complicações (também muito raras) como alergias aos medicamentos utilizados, inflamação no local de punção, diminuição das tensões arteriais e/ou da saturação de oxigénio no sangue e, muito raramente, paragem cardiorrespiratória.

Autoria:
Ricardo Veloso, gastrenterologista do Hospital Lusíadas Porto

Especialidades em foco neste artigo:
Gastrenterologia