O que tem de saber sobre amigdalite

Toda a inflamação das amígdalas deve ser tratada com penicilina, certo? Errado. Aprenda porquê.

Amigdalite: aprenda a identificar

Pode sentir uma dor na garganta ao engolir ou a respirar, ter mau hálito ou febre. Qualquer um destes sintomas está associado à amigdalite, inflamação das amígdalas, que fazem parte, juntamente com as adenoides, do anel de Waldeyer, um tecido linfoide que existe na região das vias aéreas superiores. Elas funcionam como uma zona de apresentação de antigénios – neste caso vírus, bactérias – ao sistema imunitário, que estimula as defesas do organismo. É um mecanismo extremamente eficiente (existem outros, no intestino e nos brônquios com a mesma finalidade). Contudo, se o sistema imunitário falhar ou o infetante for agressivo, verifica-se a amigdalite.

Estas inflamações são, por norma, tratadas na infância pelos pediatras e na idade adulta pelos clínicos de Medicina Geral e Familiar. Os casos mais arrastados, de carácter recorrente, e as complicações são enviados para os otorrinolaringologistas.

Nem todas as infeções de garganta devem ser medicadas com antibióticos, alerta Jorge Spratley, otorrinolaringologista do Hospital Lusíadas Porto.

Sintomas da amigdalite

A infeção ou inflamação desta zona leva a uma hipertrofia das amígdalas, que pode provocar uma obstrução respiratória e digestiva. Os principais sintomas e sinais são então:
Dor ao engolir;
Ardência ao respirar;
Febre;
Mau hálito;
Ressonar noturno;
Aumento do volume das amígdalas;
Gânglios no pescoço.

Causas e tratamentos

  • Amigdalite bacteriana

Quando se tem uma amigdalite bacteriana, o quadro é muito exuberante. Além dos sintomas acima referidos, pode sentir:
Febre alta;
Ao abrir a boca, verificam-se exsudatos (placas esbranquiçadas) na superfície das amígdalas.

A bactéria estreptococo grupo A, a mesma que provoca a escarlatina, é por norma a mais comum neste tipo de infeção. E existe um risco de transmissão, apesar de este ser menor que o do vírus da gripe, por exemplo. Consequentemente, familiares debilitados ou crianças devem evitar o contacto com uma pessoa com este tipo de amigdalite.

Responde-se a uma amigdalite bacteriana com antibióticos, derivados da penicilina. A alternativa oral, como a amoxicilina, tem alta eficácia nas doses certas (de 12 em 12 horas, pelo menos durante 8 dias). Já o tratamento clássico com uma dose única de penicilina benzatínica intramuscular é suficiente para curar, mas demora mais tempo que o antibiótico oral, por ser uma dose de libertação lenta. Nos doentes com alergia à penicilina é obrigatória a escolha de antibióticos alternativos como os macrólidos.

  • Amigdalite vírica

Já nas amigdalites víricas, por regra, há menos febre e as amígdalas não apresentam exsudatos à superfície. Em casos de incerteza diagnóstica, é possível efetuar-se uma colheita de material da superfície da amígdala para análise laboratorial.

No tratamento deste tipo de amigdalites, causadas por vírus comuns (rinovírus ou o adenovírus), controla-se a febre e a dor com anti-inflamatórios (como o paracetamol, ibuprofeno ou outros agentes não esteroides). Deve fazer-se também uma boa hidratação e repouso. São habitualmente infeções autolimitadas. Nestes casos, a utilização de antibióticos não está indicada por ser ineficaz e pelo risco de aumentar futuras resistências microbianas.

Fatores de risco da amigdalite

As crianças são mais propensas para as amigdalites, particularmente depois dos dois anos de idade. A exposição nos infantários aumenta este risco de contágio. O inverno e as más condições de higiene também são favorecedores da propagação destas infeções.

Noutros casos, a tendência para amigdalites deve-se a uma deficiente resposta imunitária do organismo. Ou resultam das características anatómicas das próprias amígdalas, em que a acumulação de resíduos alimentares e de secreções na sua profundidade conduzem a uma amígdala cronicamente infetada.

Possíveis complicações

As complicações das amigdalites são relativamente raras. Contudo, o seu risco justifica que estas infeções não devam ser encaradas de forma leviana.

A infeção pode progredir para a profundidade da amígdala e originar um abcesso periamigdalino (nos tecidos em redor das amígdalas), com muita dor e dificuldade em abrir a boca. Esta complicação, que pode degenerar em abcessos do pescoço, exige tratamento urgente e drenagem além de antibióticos específicos.

As complicações cardíacas, renais e articulares das amigdalites causadas pelo estreptococo, outrora frequentes, são muito graves mas hoje em dia menos comuns fruto da melhoria em cuidados de saúde.

Conselhos

  • Tenha atenção à duração da dor de garganta

Uma dor de garganta que persiste mais de 48 horas deve ser avaliada pelo médico assistente.

  • Não decida sozinho o tratamento

Em caso algum a pessoa deverá, perante uma suposta amigdalite, recorrer à automedicação com os antibióticos que sobraram do último tratamento, pois corre o risco de um tratamento inadequado e com duração insuficiente.

  • Não pare o antibiótico

O tratamento eficaz de uma amigdalite, mesmo que pareça que a crise passou rapidamente, exige a ação do antibiótico durante oito dias, o que significa que a medicação nunca deverá ser interrompida a meio do tratamento prescrito pelo médico.

Colaboração:
Professor Jorge Spratley, otorrinolaringologista no Hospital Lusíadas Porto

Especialidades em foco neste artigo:
Otorrinolaringologia