Será que a ejaculação precoce é psicológica?

Um em cada quatro homens poderá sofrer desta disfunção sexual, que tem consequências tanto a nível pessoal como relacional. A boa notícia é que há tratamentos eficazes para o problema.

Ejaculação precoce: será que é psicológica?

A ejaculação precoce (EP) é uma das disfunções sexuais mais comuns nos homens. O que acontece? De um modo resumido, durante o ato sexual os homens com este problema atingem o orgasmo e ejaculam demasiadamente rápido e sem controlo. “A ejaculação precoce deverá existir em cerca de 25% da população masculina”, diz Carrasquinho Gomes, médico urologista da Clínica de Stº António.

É verdade que as causas deste problema podem ser psicológicas, mas também há situações em que a disfunção está associada a problemas fisiológicos. Além disso, há homens com ejaculação precoce desde o início da sua vida sexual, enquanto outros veem o problema surgir a meio da sua vida.

Todas estas variantes revelam a complexidade de um problema que é causa de uma enorme angústia. “Os pacientes com ejaculação precoce são, na sua maioria relutantes na procura de ajuda, seja pela vergonha em partilhar a sua queixa ou por pensarem que não há tratamento”, explica o médico, acrescentando que “é importante lutar contra este padrão, já que há respostas eficazes contra o problema”.

Ejaculação precoce: definição

Um estudo que analisou 500 casais em cinco países diferentes demonstrou que o tempo médio que vai da penetração até à ejaculação é de cinco minutos e meio, lê-se no site do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido na introdução sobre ejaculação precoce. Mas estes resultados estatísticos têm um valor relativo, já que, a nível pessoal, não existe uma duração padronizada para a duração do ato sexual e “cabe a cada casal decidir se estão felizes com o tempo que a atividade sexual dura”.

Do ponto de vista fisiológico, no entanto, o que acontece nos órgãos sexuais masculinos pode ser descrito com precisão. A excitação sexual leva à ereção do pénis. Num certo momento, há um comando cerebral para que os espermatozoides armazenados nos testículos (onde foram previamente produzidos) viajem pelos canais deferentes e passando junto da vesícula seminal e da próstata, fiquem em suspensão nos líquidos seminais indo constituir o sémen. Finalmente, num momento de maior excitação, o cérebro comanda os músculos para que o sémen seja expulso pela uretra, dando-se a ejaculação. Na grande maioria das vezes, a ejaculação coincide com o orgasmo.

Em cada homem, este processo fisiológico pode durar mais ou menos tempo, e é normal que haja vezes em que é particularmente rápido. Mas os homens com ejaculação precoce desde o início da sua vida sexual costumam ejacular em 30 a 40 segundos após a penetração. A definição da doença, contudo, vai para lá da duração.

“Há que ter em consideração a combinação de diferentes variáveis: o tempo de latência ejaculatória intravaginal” (que é o período de tempo desde a penetração vaginal até à ejaculação e que tem sido usado para se determinar o fator temporal), “o grau de perda do autocontrole da ejaculação, a angústia causada e as consequentes dificuldades criadas nas relações interpessoais”, detalha Carrasquinho Gomes, explicando que é preciso ter em conta estas premissas no processo do diagnóstico.

“O tempo de latência para a ejaculação varia entre os homens e perante diferentes situações de estímulo sexual, podendo ocorrer durante ou mesmo antes da penetração e com estímulos mínimos”, acrescenta.

“Existem casos em que a doença está ligada a uma situação de disfunção erétil”, ou seja, quando o homem tem dificuldade em ter ereções, refere ainda o urologista. “Níveis grandes de ansiedade provocadas por disfunção erétil pioram ou podem condicionar a ejaculação precoce”, diz. “É importante diferenciar disfunção erétil de EP”, acrescenta, já que o diagnóstico e o tratamento são diferentes.

Causas e consequências

Carrasquinho Gomes afirma que a causa base que origina a ejaculação precoce é desconhecida. “Causas neurofisiológicas e/ou comportamentais e causas médicas atuando separadamente ou em sintonia contribuem para a manutenção ou agravamento da ejaculação precoce”, diz o médico. Do ponto de vista orgânico, a inflamação crónica da próstata associada à idade, o hipertiroidismo, a obesidade, e o consumo e a desintoxicação de drogas podem originar a EP.

Além disso “o stresse, a ansiedade pela baixa performance sexual, problemas emocionais, alterações comportamentais e outros problemas psicológicos, experiências sexuais traumáticas e de relação e/ou disfunção erétil” são outras razões para o desenvolvimento deste problema. Todas estas questões, de modo geral, estão associadas ao aparecimento da EP a meio da vida sexual ativa do homem.

Nos casos em que esta disfunção existe desde o início da atividade sexual, o médico argumenta que “provavelmente a situação terá base genética com envolvimento de mecanismos neurofisiológicos como a hipersensibilidade peniana, o reflexo ejaculatório excessivo, entre outros”. No site do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido explica-se ainda que nestes casos pode ter havido também processos de condicionamento. “É possível que as experiências sexuais iniciais possam influenciar o comportamento sexual. Por exemplo, se um adolescente se obrigar a ejacular rapidamente para evitar ser apanhado a masturbar-se, pode ser mais difícil depois quebrar este hábito”, lê-se no site.

Independentemente da causa, a ejaculação precoce provoca efeitos negativos quer a nível pessoal, quer a nível relacional. “A perspetiva de EP provoca pouco relaxamento previamente e durante o ato sexual, levando a baixa satisfação com as relações sexuais, menor frequência como mecanismo de defesa, ansiedade, eventual depressão e, por último, disfunção na relação”, resume o urologista. “Todo este processo acaba por condicionar a extensão da perda de autoconfiança em múltiplas atividades do dia a dia.”

Tratamentos

O objetivo final do tratamento médico da ejaculação precoce é dilatar o tempo entre a penetração e a ejaculação. Antes de mais, há que tratar primeiramente doenças associadas ao problema, como doenças na próstata. No caso de haver disfunção erétil, também é necessário atacar este problema.

Depois, para a EP primária (que ocorre desde sempre), é recomendado o uso de fármacos que atrasam a ejaculação. “O tratamento mais antigo da EP e ainda hoje amplamente usado, é a aplicação local de anestésicos sempre que vai haver uma relação sexual, com o que se pretende diminuir a sensibilidade da glande [do pénis]”, explica Carrasquinho Gomes.

Dos medicamentos de toma oral, alguns têm efeito imediato e podem ser usados previamente a cada relação sexual, enquanto outros são tomados continuadamente, sendo que o efeito máximo é atingido habitualmente ao fim de dez dias. “A terapêutica oral baseia-se no uso de inibidores seletivos da recaptação da serotonina e antidepressivos”, explica Carrasquinho Gomes.

Além da medicação, a terapia comportamental tem ainda um papel importante “especialmente em homens com EP adquirida [ao longo da vida]”, diz o médico. Devido à renitência de muitos homens em tentar resolver este problema, o urologista defende que “é necessário espalhar a mensagem de que hoje é possível obter ótimos resultados com os tratamentos disponíveis”, de modo a motivar os doentes. Carrasquinho Gomes destaca ainda a importância de haver equipas médicas multidisciplinares preparadas para lidar com estes casos. “Há que criar as condições para que haja grande empatia entre a equipa médica e o doente, minorando as recusas e os abandonos dos tratamentos”, conclui.

Em suma

A ejaculação precoce é uma disfunção mais frequente do que se possa imaginar e causa vários problemas a nível pessoal e relacional, deixando estes homens particularmente vulneráveis. Mas a Medicina tem respostas para esta disfunção, que, felizmente, pode ser tratada.

 

Colaboração:
Francisco Carrasquinho Gomes, urologista da Clínica de Stº António

Especialidade em foco neste artigo:
Urologia