Alergia ocular e a primavera

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A alergia ocular afeta cerca de 20% da população e consiste numa doença inflamatória e recorrente da superfície ocular externa. É mais comum no início da primavera.

O “olho vermelho” é uma das manifestações da alergia ocular. “É uma apresentação clínica muito frequente e justifica mais de 60% das prescrições tópicas oftalmológicas”, explica Jorge Palmares, oftalmologista no Hospital Lusíadas Porto. Pode observar-se em diversas situações:

  • Alergias

Geralmente com prurido (comichão) e lacrimejo;

  • Olho seco

Acompanhado de ardência com sensação de “areia” e poucas lágrimas;

  • Infeção com queratite (querato-uveíte)

Com visão turva e dor.

A fotofobia (sensibilidade à luz), hiperemia (olho vermelho), quemose (edema da conjuntiva) e envolvimento palpebral (edema e inflamação), são outros dos sintomas agudos e bilaterais.
“Seja qual for a sintomatologia sentida, não basta um pulo à farmácia mais próxima. Na problemática da alergia ocular, um correto acompanhamento médico é fundamental para a deteção e tratamento do problema”, alerta Jorge Palmares.

Alergias: causas prováveis

As doenças alérgicas oculares são provocadas por:
Meio ambiente;
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Medicamentos;
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Produtos cosméticos;
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Produtos das lentes de contacto;
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Fatores genéticos.

Nas alergias há 5 formas clínicas:

1. Conjuntivite alérgica

É a mais comum, manifesta-se em 70% dos doentes com rinite alérgica sendo muitas vezes acompanhada por sintomas nasais de rinite (rino-conjuntivite alérgica).

“Pode ser sazonal (primavera), provocada por pólenes das gramíneas, oliveira e parietária (planta da família da urtiga), ou perene, por ácaros do pó da casa e epitélios de animais domésticos (por exemplo, o gato), com agravamento à noite e ao levantar”, explica o oftalmologista.

  • Sintomas

Caracteriza-se por lacrimejo e prurido, em contraste com a conjuntivite infeciosa (bacteriana ou vírica) que apresenta secreções sero-mucosas e formação de crostas matinais.

 

2. Queratoconjuntivite vernal

É uma doença rara e grave que afeta, na primavera/verão, crianças e adolescentes.

  • Sintomas

Prurido intenso, extrema fotofobia e visão enevoada por inflamação da córnea.

 

3. Queratoconjuntivite atópica

Manifesta-se mais no adulto por pálpebras inflamadas e com crostas (blefarite), com tratamento mais prolongado. Surgem com relativa frequência catarata e queratocone (córnea em forma de cone). É a alergia com maior risco de cegueira.

 

4. Conjuntivite gigantopapilar

Surge por aderência de alergénios ou material proteico e limpeza deficiente da superfície das lentes de contacto moles (hidrófilas) ou por reação alérgica aos conservantes das soluções de armazenamento e limpeza das lentes.

 

5. Blefaroconjuntivite de contacto/tóxica

Está associada à toxicidade ou sensibilização induzidas por cosméticos e constituintes farmacológicos ou conservantes (cloreto de benzalcónio, timerosal) presentes em colírios e pomadas oftálmicas, quando usados repetidamente.

Vários produtos de cosmética podem também estar envolvidos:
Instrumentos de cosmética ocular (por exemplo, os eyeliners);
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Produtos aplicados no cabelo, face ou unhas podem ser transferidos para os olhos provocando sensibilização;
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As armações e os parafusos metálicos dos óculos também podem originar eczema de contacto periorbitário (à volta da órbita ocular) em doentes com sensibilidade ao níquel.

E o ar condicionado, ou ambientes secos e ventosos provocam alergia?

“Não, só agravam uma condição clínica prévia, como inflamação conjuntival ou o olho seco (lacrimejo reflexo, dor, fotofobia, hiperemia conjuntival e, por vezes, visão turva devido ao filme lacrimal irregular). Estes doentes melhoram com lubrificantes oculares (em emulsão e gel) e lágrimas artificiais sem conservantes”, esclarece Jorge Palmares.

Exames laboratoriais

Na suspeita de conjuntivite alérgica raramente é necessário pedir exames laboratoriais, pois os elementos da história clínica e do exame oftalmológico são os mais determinantes para o diagnóstico.
Contudo, numa conjuntivite alérgica persistente ou recidivante, são importantes os testes cutâneos e/ou a quantificação sérica da IgE específica.

Prevenção e tratamento da alergia ocular

Uma em cada cinco pessoas sofre de algum tipo de alergia ocular, com impacto na sua qualidade de vida e no grau de absentismo escolar e profissional, pelo que a sua prevenção e a terapêutica são fundamentais para a população que sofre de alergia.

Tratamentos

1. Evitar as causas

A alergia ocular previne-se com medidas de evicção, diminuindo a exposição aos alergénios, quando identificados pelo alergologista.

Na época polínica de março a julho (pólenes e gramíneas) deve:
Usar óculos escuros (100% filtração ultravioleta);
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Evitar cortar relva ou andar ao ar livre nas primeiras horas da manhã (alturas de maior polinização), em dias ventosos ou quentes e secos e em espaços relvados;
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Em casa, é fundamental evitar a acumulação de pó e de ácaros domésticos (Dermatophagoides pteronyssinus e farinae), que se alimentam das escamas que se libertam da pele humana e de certos bolores, cujo crescimento é facilitado pelo calor e pela humidade. É no quarto de dormir – cama, almofadas, cobertores e colchões – que eles existem em maior abundância e, particularmente, a partir de outubro e durante todo o inverno.

2. Terapia medicamentosa

O tratamento antialérgico com anti-histamínicos tópicos (aplicados diretamente no órgão alvo) diminui os potenciais efeitos sistémicos destes fármacos via oral.

Os anti-histamínicos tópicos de ação rápida e dupla (com estabilização prolongada dos mastócitos conjuntivais humanos, como azelastina, cetotifeno, epinastina e olopatadina) são eficazes no alívio imediato dos sintomas e previnem a libertação de mediadores inflamatórios.

No entanto, a coexistência de uma rinite aumenta as queixas do doente e diminui a sua qualidade de vida. Assim, os anti-histamínicos orais não sedativos podem melhorar também os sintomas conjuntivais quando estes se associam à rinite.

Os corticosteróides tópicos são também muito eficazes na alergia ocular ao suprimirem a inflamação. Todavia, a sua utilização deve ser cuidadosa, por períodos curtos e monitorizada por oftalmologistas, porque provocam atraso na cicatrização da córnea, aumento da tensão intraocular (glaucoma), formação de catarata e imunossupressão local, aumentando o risco de sobreinfeção (herpes) da córnea e da conjuntiva.

 

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