Esteatose hepática ou fígado gordo: o que é

A esteatose hepática, conhecida como fígado gordo, é uma situação frequentemente ligada à obesidade e à diabetes que muitas vezes é silenciosa, mas que pode trazer consequências para a função deste órgão importante.

Fígado gordo: o que é a esteatose hepática?

A complexidade do fígado está ligada às suas diferentes funções. Se os pulmões são órgãos especializados na troca de gases entre a atmosfera e a corrente sanguínea, as células do fígado desmultiplicam-se em trabalhos: produzem bílis para digerir as gorduras, acumulam glicogénio como reserva energética, filtram o sangue e expelem substâncias tóxicas, destroem células sanguíneas velhas, etc. As células hepáticas também podem acumular gordura em demasia. Este fenómeno chama-se esteatose hepática ou fígado gordo e é muitas vezes sinal de que há algo errado no metabolismo.

Esteatose hepática: o que é

“Considera-se que existe esteatose hepática quando mais de 5% das células hepáticas revelam acumulação de gordura, evidenciada por um exame de imagem do fígado ou por biópsia hepática”, informa José Velosa, gastrenterologista com consultório privado no Hospital Lusíadas Lisboa. “A presença de esteatose hepática é relativamente frequente na população (cerca de 25%), especialmente em pessoas obesas, mas varia com a idade, género e etnicidade.”

A patologia que se descreve aqui chama-se fígado gordo não-alcoólico (FGNA) e surge na ausência de “causas secundárias de acumulação de gordura hepática, tais como consumo significativo de álcool, doenças hereditárias monogénicas ou consumo de medicamentos indutores (de gordura no fígado)”, refere José Velosa.

A esteatose hepática no FGNA é uma doença metabólica que está frequentemente associada à obesidade, à diabetes mellitus e à dislipidemia – quando há um aumento de gorduras (lípidos) no sangue. Segundo o médico, quando o corpo desenvolve resistência à insulina, uma hormona produzida no pâncreas que é muito importante na assimilação de glicose, provocando diabetes, isto pode ter consequências no fígado. A disfunção “associada à resistência à insulina altera a oxidação dos ácidos gordos, os quais são transportados em maior quantidade para o fígado devido à destruição das células gordas (lipócitos) periféricas; produz-se, assim, nova gordura (lipogénese) na forma de triglicéridos, que acaba por ficar retida na célula hepática”.

Sintomas e riscos

A esteatose hepática ou fígado gordo não provoca sintomas. Normalmente, as pessoas ficam a saber que têm excesso de gordura no fígado depois de realizarem uma ecografia ao órgão por outras razões. Só quando o problema está associado à inflamação do fígado e há alterações na função hepática é que os resultados das análises dão um sinal de que algo não está bem. É, aliás, nesta situação que a perigosidade aumenta.

“A presença de gordura no fígado só por si não representa um risco. Mas quando à gordura se associa inflamação do fígado – esteato-hepatite não alcoólica (EHNA) – existe o risco da inflamação degenerar em fibrose, desenvolvimento de cirrose e cancro do fígado”, avisa o médico. Nesta fase avançada da doença, os sintomas que surgem são as queixas normais associadas a uma cirrose: fadiga, fraqueza, icterícia (a pele amarelada devido à acumulação de bilirrubina no sangue), e a facilidade de se fazerem hematomas devido à falta de fatores de coagulação, que deveriam estar a ser produzidos pelo fígado.

De qualquer forma, a referida sequência de acontecimentos (inflamação, cirrose e cancro) não é frequente, e muitas vezes o problema desemboca num risco principalmente cardiológico. “A probabilidade de um doente com esteatose hepática vir a desenvolver EHNA é baixa; contudo, o risco de morte por EHNA é sobretudo cardiológico, devido à presença frequente nestes doentes de fatores de risco cardiovascular (síndrome metabólica), e só depois hepático”, diz o médico.

É preciso ainda distinguir esta inflamação daquela que é provocada pelo álcool. “O álcool causa lesões hepáticas muito semelhantes à EHNA; daí ser fundamental excluir, através da história clínica, o consumo excessivo de álcool. Mas o contexto clínico e laboratorial da doença hepática alcoólica é diferente da EHNA, permitindo a um hepatologista experimentado fazer o diagnóstico com relativa facilidade”, explica José Velosa.

Prevenção e tratamentos

A melhor forma de prevenir a esteatose hepática e as suas consequências é evitar os fatores de risco, principalmente o peso a mais. A receita é a de sempre: uma dieta saudável, com a restrição de açúcares, e a prática de exercício físico. Dado que esta doença está associada a questões metabólicas, como a diabetes e a obesidade, José Velosa explica que os tratamentos passam normalmente por atacar as “comorbilidades”: “Uma redução de peso superior a 5% do peso corporal tem um efeito positivo na esteatose; (…) os antidiabéticos orais poderão ser úteis nos doentes com diabetes; a cirurgia bariátrica (destinada aos doentes com obesidade mórbida) poderá ser considerada para os doentes com doença hepática progressiva, sem cirrose, pois proporciona uma regressão significativa das manifestações associadas ao FGNA.”

Apesar da proporção de casos que evoluem para cirrose e cancro ser pequena, a vigilância, o controlo e o tratamento do fígado gordo são importantíssimos para evitar o pior cenário, o carcinoma hepatocelular. “A prevalência deste tumor em doentes com EHNA, que tem a particularidade de poder ocorrer em doentes sem cirrose, está em crescendo, ocupando já uma fatia significativa das causas de carcinoma hepatocelular no hemisfério Ocidental”, avisa José Velosa.

Colaboração:
José Velosa, gastrenterologista com consultório privado no Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidade em foco:
Gastrenterologia