Ataque epilético: o que é e como lidar?

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Consciência alterada e movimentos musculares descontrolados são alguns dos sintomas das crises epiléticas. Socorro Piñeiro, neurologista da Clínica de Stº António, explica o que está em causa e como lidar com os chamados “ataques epiléticos”.

O que é a epilepsia

A epilepsia é uma doença que se caracteriza pela existência de uma predisposição duradoura para a pessoa apresentar crises convulsivas (não basta registar-se um episódio), sem que se consiga identificar um motivo evidente e reversível para isso acontecer (febre alta, efeito de drogas, trauma, desidratação grave, etc.).

Os milhões de neurónios existentes no cérebro comunicam por impulsos elétricos e estas “crises epiléticas devem-se a uma descarga elétrica anormal numa determinada zona cerebral, que se pode depois espalhar ao resto do cérebro”, explica a neurologista Socorro Piñeiro, da Clínica de Stº António.

Os chamados “ataques epiléticos” caracterizam-se, acrescenta a especialista, pela apresentação de “fenómenos súbitos e transitórios” que podem assumir a forma de:
Alteração da consciência;
Movimentos musculares involuntários;
Movimentos automáticos;
Alterações da sensibilidade e ao nível dos restantes sentidos (olfato, paladar, etc.).

Tipos de crises epiléticas

Nem todas as crises se manifestam da mesma maneira e é igualmente importante ter em conta que a mesma pessoa pode apresentar vários tipos de crises distintas. “Tudo depende da maior ou menor extensão da descarga epilética em causa”, alerta a neurologista.

  • Crise epilética parcial

A descarga epilética começa numa zona reduzida da superfície cerebral e por vezes, posteriormente, generaliza-se, atingindo o resto do cérebro. “A sintomatologia depende da zona da superfície cerebral onde acontece a descarga”, informa Socorro Piñeiro. “Na zona motora cerebral manifesta-se através de movimentos involuntários de um lado do corpo, sem perda de consciência; na região da sensibilidade pode provocar uma alteração sensitiva focal transitória (formigueiro, por exemplo) e na zona visual pode significar a visão de luzes, etc.”, explica a médica.

  • Crise epilética generalizada

Deve-se a uma descarga que afeta toda a superfície cerebral em simultâneo.

  • Crise generalizada tónico-clónica

Manifesta-se com perda de consciência (a pessoa cai imediatamente ao chão) e movimentos involuntários nos membros. Situações como morder a língua, espumar pela boca e incontinência urinária podem existir. No final, os movimentos desaparecem e a pessoa recupera progressivamente, sem ter a noção do que aconteceu.

  • Crise generalizada de ausência

A pessoa fica imóvel e alheada, desligada do meio envolvente, com o olhar fixo, durante 10 a 15 segundos. Este tipo de crises é comum em crianças e adolescentes e com frequência desaparecem com a idade. Podem provocar quebras no rendimento escolar por défices de atenção e de aprendizagem.

  • Crise mioclónica

Caracteriza-se por uma “sacudidela” súbita de todo o corpo, ou apenas parte dele, durante alguns segundos.

  • Crise generalizada atónica

Implica uma perda brusca do tónus muscular e da consciência, que dura apenas alguns segundos e da qual se recupera igualmente em segundos.

Como atuar

Nas crises generalizadas, nas quais a pessoa perde a consciência, cai ao chão e faz movimentos involuntários, as pessoas à volta devem:
Manter a calma;
Retirar os objetos à volta com os quais a pessoa se possa magoar;
Colocar uma proteção por baixo da cabeça da pessoa (um casaco, por exemplo);
Nunca tentar segurá-la (podem luxar uma articulação, por exemplo);
Jamais inserir nada na boca da pessoa (podem partir um dente ou ser mordidos);
Se a pessoa ceder, tentar colocá-la na posição lateral de segurança;
Cronometrar a duração da crise e se esta for além dos cinco minutos, ligar para o 112.

Causas da epilepsia

  • Epilepsias idiopáticas ou primárias

Constituem a maior parte dos casos. A causa da doença é desconhecida.

  • Epilepsias secundárias

Existe uma lesão cerebral e é aí que se inicia a descarga elétrica anormal na origem da crise. “Este tipo de epilepsias pode dever-se a lesões congénitas ou adquiridas ao longo do tempo, como infeções cerebrais, tumores, abuso de tóxicos, malformações e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), traumatismos cranianos, entre outras”, explica a médica.

Prevenção da epilepsia

Há fatores que podem desencadear uma crise epilética e devem ser evitados, tais como:

  • O stresse;
  • A privação de sono;
  • A suspensão abrupta dos medicamentos;
  • Febre e infeções;
  • Hipoglicemias;
  • Toma de determinados medicamentos (alguns antidepressivos e anestésicos, entre outros).

Por esse motivo, a pessoa que sofre de epilepsia deve ter alguns cuidados:

  • Respeitar o horário da toma da medicação;
  • Dormir o suficiente;
  • Não ficar em jejum;
  • Não usar medicamentos sem indicação médica;
  • Não beber álcool em excesso.

Diagnóstico de epilepsia

Trata-se de uma doença habitualmente identificada a partir de um diagnóstico clínico, feito pelo médico a partir da descrição detalhada dos episódios dada por testemunhas ou pela própria pessoa. “No entanto, muitas vezes precisamos de realizar exames que nos ajudem a classificar as crises e a identificar as causas”, explica Socorro Piñeiro. Nesses casos, os exames complementares mais frequentemente utilizados “são os radiológicos (TC crânio ou RM cranioencefálica) e o eletroencefalograma (EEG), que podem não mostrar achados patológicos”.

Tratamento da epilepsia

A escolha do método de tratamento é sempre individualizada. “Atualmente, o tratamento médico das crises é mais eficaz, provoca menos efeitos secundários e melhora a qualidade de vida das pessoas com epilepsia”, afirma a especialista da Unidade de Neurologia da Clínica de Stº António. No entanto, pode haver casos em que a resposta mais adequada é outra. “A indicação para realizar tratamento não farmacológico depende da decisão do médico em função do tipo de epilepsia, da idade, da resposta aos fármacos antiepiléticos, entre outros”, acrescenta Socorro Piñeiro.

Tratamentos disponíveis:

  • Tratamento médico

Com fármacos antiepiléticos, ou seja, um tratamento em que os medicamentos são usados para tentar eliminar a ocorrência das crises com o mínimo de efeitos secundários. Estes fármacos conseguem controlar as crises com sucesso em 70 a 80% das pessoas. “Embora não curem o doente, tomados com regularidade ajudam a controlar as crises, a diminuir a frequência ou até a eliminá-las”, explica a neurologista. “A escolha do medicamento, o controlo do mesmo (dose e efeitos secundários), bem como a duração do tratamento ficam ao critério do neurologista, que decide com base na realidade de cada doente”, acrescenta.

  • Cirurgia da epilepsia

É o tratamento para alguns tipos de epilepsia que não respondem a medicação. Consiste na remoção da área cerebral que provoca as crises ou na interrupção do caminho do nervo ao longo do qual as descargas elétricas anormais se espalham.

  • Dieta cetogénica

Consiste numa dieta supervisionada com base na eliminação dos hidratos de carbono (pão, arroz, etc.), manutenção de uma boa quantidade de proteínas e aumento do consumo de alimentos ricos em gorduras. Assim, formam-se corpos cetónicos no sangue e na urina, que serão utilizados para produzir cetose, que serve de tratamento das crises.

  • Estimulação do nervo vago

Utilização de um dispositivo estimulador implantado sob a pele do tórax. Através desta estimulação intermitente do nervo vago, que atua como um pacemaker, são controladas as crises regulando a atividade elétrica cerebral.

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