Cancro da pele: conheça os diferentes tipos

As boas notícias merecem prioridade: mais de 90% dos cancros da pele têm cura. Mas esta tão elevada taxa de sucesso só se verifica quando as neoplasias são detetadas nos estadios iniciais da doença. Neste artigo vai saber porquê, quais as diferenças entre os vários tipos e o risco de cada um.

Cancro da pele: os vários tipos

O que é?

Em situações normais, as células das várias camadas da pele crescem, multiplicam-se e morrem, num processo de renovação permanente. O cancro da pele resulta de uma perturbação do normal ciclo da vida celular. Os agentes carcinogénicos ambientais, nomeadamente a radiação ultravioleta da luz solar (UV), podem estimular o crescimento exagerado das células da epiderme (hiperplasia) e originar mutações no ADN que levam ao aparecimento de células anormais. Estas células, ao multiplicar-se, originam um clone celular atípico (displasia). Se o processo não for travado, essas células atípicas irão continuar a proliferar de forma descontrolada, acabando por dar origem a uma lesão maligna localizada (in situ) que, gradualmente, vai aumentando de volume e origina um tumor (neoplasia), explica João Abel Amaro, dermatologista do Hospital Lusíadas Lisboa. 

Lesões pré-cancerosas

Existem lesões cutâneas que, no decurso da sua evolução natural, têm uma elevada probabilidade de sofrer transformação maligna. As lesões pré-cancerosas mais frequentes são a queratose actínica, uma lesão vermelha e escamosa, e respetivas variantes:
Queilite actínica (nos lábios);
Corno cutâneo (queratose actínica hipertrófica), que é assim chamado pelo crescimento de uma massa dura, escura ou amarelada, geralmente com forma cónica.

Estas lesões surgem de forma multifocal — ou seja, aparecem várias “manchas” semelhantes e não apenas uma lesão num só ponto —, nas áreas de exposição solar crónica, que geralmente trazemos “a descoberto” todo o ano e não apenas no verão (campo de carcinogénese).

Tipos de cancro da pele

Os tipos de cancro da pele mais frequentes, que correspondem a 97% de todos os casos, são:

  • Carcinoma baso-celular ou basalioma (65%)

É mais frequente nas áreas que apanham mais sol, nomeadamente no rosto. Caracteriza-se por um crescimento lento e só em casos muito raros metastiza para outras partes do corpo, mas pode recidivar e ser muito invasivo e destrutivo, se não for tratado atempadamente.

  • Carcinoma espino-celular ou pavimento-celular (25 %)

Por vezes também designado como carcinoma das células escamosas (tradução literal do inglês “squamous cell carcinoma”). Sendo igualmente mais frequente no campo de carcinogénese, pode surgir também em áreas menos expostas. É um tipo de carcinoma mais agressivo que o anterior e pode, em fases mais avançadas, metastizar para os gânglios linfáticos e atingir outros órgãos.

  • Melanoma e melanoma maligno (7 a 8 %)

A neoplasia tem origem nos melanócitos, as células da pele responsáveis pela produção do pigmento cutâneo denominado melanina. Este tipo de cancro está associado à exposição solar aguda e intermitente e a antecedentes de queimaduras solares na infância, bem como a fatores genéticos. O melanoma é a forma mais maligna de cancro da pele, com tendência para metastizar precocemente, se não for detetado e tratado corretamente nos estadios iniciais.

Saiba mais
Como se faz o autoexame à pele? A que sinais deve estar atento? 

Sinais de alerta

Os principais fatores de risco do cancro da pele podem ser divididos em dois grupos, considerando a sua origem.

  • Fatores de risco de natureza individual, relacionados com o tipo de pele do indivíduo ou o seu historial clínico:

Pele clara e fototipos baixos (1 e 2);
Tendência para formar sardas (efélides);
Dificuldade da pessoa em bronzear-se;
Presença de numerosos sinais pigmentados (nevos melanocíticos);
Imunossupressão crónica (sistema imunológico deficiente, como no caso dos doentes submetidos a transplante).

  • Fatores de risco de natureza comportamental:

Exposição solar crónica;
Exposição solar aguda e intermitente, nomeadamente história de queimaduras solares na infância e adolescência;
Ausência de cuidados de fotoproteção durante períodos prolongados;
Frequência de solários.

Incidência da doença

As estatísticas distinguem os vários tipos de cancro da pele. Portugal apresenta uma taxa de incidência de carcinoma baso-celular ou basalioma semelhante aos restantes países da bacia mediterrânica, com 67 novos diagnósticos por cada 100 mil habitantes registados a cada ano. No caso do carcinoma espino-celular, essa incidência baixa para 17 e, no que toca ao melanoma maligno, verificam-se em cada ano cerca de oito a dez novos casos por cada 100 mil habitantes.

Comparativamente, Portugal apresenta números muito semelhantes aos dos restantes países da bacia mediterrânica no que diz respeito aos carcinomas, mas uma incidência mais baixa de melanomas, nomeadamente quando comparado com os países do norte da Europa (este aparente paradoxo deve-se, em grande parte, à facilidade com que as pessoas dos países nórdicos viajam para países de clima mediterrânico e tropical).

Diagnóstico

A identificação do cancro da pele implica um diagnóstico clínico, mas que deve ser, sempre que possível, confirmado pelo exame histopatológico dos tecidos tumorais. O estudo da lesão é feito ao microscópio com o material recolhido por biópsia (biópsia diagnóstica) ou pela análise da peça operatória obtida por excisão cirúrgica (biópsia excisional).

Tratamento

O tratamento de primeira linha do cancro da pele é, sempre que possível, a excisão cirúrgica total do tumor. Todavia, em doentes idosos, com risco operatório, ou com tumores múltiplos, as alternativas são:

  • Curetagem e eletrocoagulação.

Raspagem do tumor e destruição dos tecidos afetados através da utilização de correntes de alta frequência;

  • Criocirurgia com azoto líquido.

Aplicação dirigida de frio intenso para eliminação do tumor pela baixa temperatura (- 50º a -196º C);

  • Radioterapia.

Utilização de radiações ionizantes para destruir a lesão (opção recomendada para casos de tumores avançados).

Além destas opções, os médicos poderão optar ainda por:

  • Cirurgia micrográfica de Mohs.

Um tipo de operação que implica a extração de várias camadas do tumor até a análise microscópica feita no momento poder confirmar não existir mais tecido tumoral no local —, indicada nos tumores invasivos, de limites mal definidos ou nos tumores recidivantes.

  • Terapêutica fotodinâmica.

Consiste na aplicação de um agente fotossensibilizante (derivado das porfirinas) e exposição a uma fonte de luz, na presença de oxigénio molecular, para eliminar seletivamente as células neoplásicas. É o método de eleição para formas de tumores superficiais (basalioma superficial não pigmentado e carcinomas in situ, ou doença de Bowen), com excelentes resultados cosméticos.

A utilização de compostos químicos por meio endovenoso tem registado avanços notáveis nos últimos anos e está indicada para doença avançada ou quando já existe disseminação metastática do cancro da pele para outros órgãos.

Colaboração:
João Abel Amaro, dermatologista do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Dermatologia