Desvio do septo nasal: o que fazer?

A inclinação da “parede” que separa as narinas é uma das causas de obstrução nasal, um problema com um vasto leque de eventuais consequências e que pode ser corrigido logo na infância. “A obstrução nasal deve ser corrigida tanto mais precoce quanto possível, mesmo tratando-se de um desvio do septo nasal”, defende José Carlos Neves, Otorrinolaringologista do Hospital Lusíadas Lisboa.

Desvio do septo nasal: o que fazer?

O que é o septo nasal?

A divisória entre os dois “corredores” do interior do nariz — o septo nasal — é composta por cartilagem na parte anterior e, mais atrás, por osso, podendo apresentar-se desalinhada em qualquer uma das zonas.
“O desvio do septo nasal pode ser pequeno e ter pouco impacto, ou tratar-se de uma angulação considerável, capaz de fazer uma obstrução completa. Isso depende também da zona do desvio: quanto mais à frente estiver, mais obstrutivo é o desvio”, explica José Carlos Neves, otorrinolaringologista do Hospital Lusíadas Lisboa, certificado também em cirurgia plástica facial pela International Federation of Facial Plastic Surgery Societies(IFFPSS). Enquanto uma inclinação do septo na zona de osso pode não ter impacto considerável na inspiração, o mesmo já não acontece quando o desvio é na zona anterior, de cartilagem. “Como a parede lateral é móvel, quando a pessoa inspira, cria-se uma pressão negativa, de sucção, existindo um colapso entre esta parede lateral e o septo nasal, o que leva a uma marcada obstrução do fluxo de ar”, refere o médico.

Causas do desvio do septo nasal

O trauma pode não ter deixado memória, ou até mesmo ter acontecido no canal de parto, à nascença, mas quase sempre houve uma fratura da cartilagem a originar o desvio do septo nasal. “Só mesmo muito raramente é um problema de desenvolvimento espontâneo”, afirma José Carlos Neves. Embora os traumatismos ocorridos na idade adulta também possam provocar desvios, o que habitualmente está em causa é um trauma nasal ocorrido durante o processo de desenvolvimento. Este trauma provoca um ajuste, ou mesmo uma fratura, na cartilagem e/ou osso do septo nasal, desencadeando uma inclinação do septo nasal que, com o crescimento, pode pronunciar-se.

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José Carlos Neves explica o tratamento cirúrgico do desvio do septo nasal

Sintomas

Se houver perturbação da respiração, um desvio do septo nasal pode ser problemático em qualquer idade, aos três anos como aos 80. Meio a sério, meio a brincar, José Carlos Neves costuma até dizer a quem o procura devido a este problema: “Não interessa se o nariz está apertado por uma mola, se tem um feijão em cada narina, se são as adenoides ou se existe um desvio de septo… se há uma obstrução nasal, isso vai ter vários impactos e é preciso agir!”

O ressonar e a apneia obstrutiva do sono são os sinais mais graves e exuberantes, mas o ato de respirar pela boca deve ser encarado, por si só, como um sintoma. “Trata-se de uma respiração não fisiológica. O nariz pertence ao sistema respiratório e a boca faz parte do sistema digestivo. Se usamos a boca para respirar, alguma coisa está mal…”, alerta o médico.
Só se justifica a respiração pela boca durante o exercício físico, “quando aumenta a necessidade de oxigénio e, para compensar, abrimos a boca”. Em qualquer outra circunstância, respirar pela boca significa que há uma obstrução nasal. Ou que houve no passado uma obstrução nasal que teve como consequência uma “desprogramação facial” e que promoveu um desajuste do crescimento facial, com alteração de crescimento esquelético e da função muscular.

Prevenção e diagnóstico

Não se consegue antecipar uma queda, um trauma, e por isso, à primeira vista, a ideia de prevenção aplicada ao desvio do septo e à obstrução nasal pode parecer um pouco difícil. Mas José Carlos Neves sublinha a importância dos médicos de família, pediatras, dentistas e otorrinos estarem mais alerta. E socorre-se de um exemplo simples para explicar a importância e utilidade de um diagnóstico precoce — inclusivamente nas crianças, de forma a evitar os efeitos da “desprogramação do crescimento facial”.

“É como ter uma árvore, que está programada para crescer em direção à luz e que se estiver vento, à beira-mar, ela desvia-se…”, começa por dizer. E acrescenta: “Se se respirar bem pelo nariz, a boca está fechada e os maxilares, estando encostados, sofrem a remodelação óssea normal. Se eu tiver uma obstrução nasal, a boca abre, logo a língua já não está a fazer a remodelação interna e os músculos da mímica alteram-se: as crianças vão tendo crescimentos com rostos longos, os maxilares ficam para trás em crescimento recessivo, o queixo fica curto, os dentes não têm espaço e crescem encavalitados…”, explica o especialista.

A genética conta, mas não é tudo. “Nós temos uma informação genética que nos vai guiar do ponto A ao ponto Z, determinando a conformação final do nosso rosto. Mas se eu tiver influências externas, já não vou chegar ao ponto Z. Tal como com uma rota, eu saio de Lisboa com a intenção de ir para o Brasil, mas se desviar um bocadinho a rota, poucos graus que seja, logo cá em cima, quando chegar lá abaixo vou ter a Angola… A implicação daquele desvio mínimo à partida pode ser muito grande à chegada”, explica o especialista. Daí a necessidade de uma intervenção precoce, quando justificada.

Tratamento

A correção do desvio do septo nasal pode ser feita em qualquer idade — o que muda é o tipo de abordagem, diz José Carlos Neves. Para o médico, a ideia de esperar pelos 18 anos para tomar medidas, está completamente ultrapassada e, em muitos casos, pode até ter consequências muito consideráveis.

“Os estudos feitos nos anos 70 e 80 observavam o impacto negativo da realização de septoplastias sobre o crescimento do nariz mas baseado em conceitos técnicos errados, uma vez que se utilizavam as mesmas técnicas de ressecção agressiva que se podem utilizar no adulto. A cirurgia em crianças deve ser feita com o pressuposto que o nariz deverá continuar a crescer. Para além disso, estes estudos negligenciavam as implicações da obstrução nasal sobre o crescimento da face”, alerta. “Se uma criança tiver um desvio do septo nasal, tem de ser encarada como uma criança que tem hipertrofia das adenoides, que tem de ser operada”, sublinha.

Estudos com grandes séries, feitos no final do século passado e já neste século, deixam clara a necessidade e segurança desta intervenção em crianças. “Dadas as constantes alterações de crescimento facial nas crianças que apresentam obstrução nasal, num número muito considerável de casos deverá ser proposta a recuperação destas alterações através de um conceito baseado em ortopedia facial e reabilitação miofuncional, com recurso a aparelhos faciais, que designamos por Ortopeditrofia Facial”, afirma o médico.

Nos adultos, a roncopatia tem um forte impacto na qualidade de vida e, quando falamos de apneia obstrutiva do sono, há que ter em conta também os seus efeitos de longo prazo, já que está associada a um maior risco de hipertensão, acidentes cardiovasculares e de morte súbita. E é por isso igualmente importante a correção de qualquer desvio do septo nasal obstrutivo.

“A cirurgia pode ser feita em ambulatório, com anestesia local e sedação, e ao final de duas horas a pessoa pode até já estar em casa e no dia seguinte fazer praticamente a vida normal, desde que não faça esforços”, explica José Carlos Neves. Trata-se de um procedimento relativamente simples. “Muitas pessoas não abrem sequer a embalagem do analgésico, não têm dores. O desconforto desta cirurgia é que a pessoa vai ter edema dentro do nariz, com a formação de algumas crostas que podem entupi-lo. Mas estas crostas acabam por desaparecer ao final de algumas semanas”, informa o médico.

Mesmo nos casos mais complexos, em que o desvio do septo implica também outros desvios da estrutura nasal, nomeadamente da pirâmide nasal, da parede lateral do nariz ou da ponta do nariz, a recuperação não é muito diferente. “Aí, falamos da necessidade de uma septorrinoplastia, que pode ter objetivos exclusivamente funcionais ou também estéticos como atenuar a bossa nasal, refinar a ponta nasal, rodá-la, projetá-la, etc.”.

O objetivo é sempre criar um nariz natural, que se adeque ao rosto que a pessoa tem.“O que procuro é a forma ideal, e a forma ideal significa uma boa função e uma boa estética”, resume o especialista.

Colaboração:
José Carlos Neves, otorrinolaringologista do Hospital Lusíadas Lisboa, certificado também em cirurgia plástica facial pela International Federation of Facial Plastic Surgery Societies (IFFPSS)

Especialidades em foco neste artigo:
Otorrinolaringologista