Qual o desporto certo para o seu filho? Só ele sabe

O ténis pode ajudar as crianças tímidas e a ginástica ajustar-se às mais confiantes. Ou não. Só há uma regra a respeitar na escolha do desporto certo para o seu filho: deixá-lo escolher.

Qual é o desporto certo para o seu filho? Só ele sabe
Por Tiago Carrasco

Daniel nunca se interessou por desporto: tinha peso a mais, era descoordenado e demasiado tímido para enfrentar o contacto físico. A mãe, Teresa Castro, levou-o a vários clubes de Lisboa, onde experimentou basquetebol, ténis e judo. Nenhuma das atividades durou mais de três meses.

“Os outros pais pressionavam-me para metê-lo numa equipa. Não consegui, mas sabia que mais tarde ou mais cedo iria encontrar uma atividade de que gostasse.” Aos 14 anos, o rapaz, decidido a emagrecer, acompanhou um colega de escola num passeio de bicicleta até Monsanto, onde chegou com dificuldade. Sentiu-se triunfante. Começou a pedalar todos os fins de semana, perdeu 18 quilos e fez novas amizades.

Hoje, com 25 anos, a residir em Barcelona, organiza percursos de ciclismo nos Pirenéus com o grupo Social Bici: “Às vezes são mais de 100 quilómetros, grande parte deles com inclinação acentuada”, diz. Apesar de ter começado tarde, Daniel chegou a adulto com os valores mais importantes que o desporto pode transmitir na infância e adolescência: atributos sociais, espírito de entreajuda, confiança e competitividade.

O grande mérito dos pais de Daniel foi o de não perderem a paciência e não o forçarem a praticar uma modalidade que não lhe desse prazer. Muitos fazem o oposto: colocam as crianças a fazerem o desporto que eles gostavam de ter feito, que apreciam ver na televisão ou que oferece mais promessas de profissionalização e sucesso (o futebol, no caso português).

“A gratificação através do desporto em idade infantil prende-se com três fatores”, salienta Miguel Pinto Barros, psicólogo clínico do Hospital Lusíadas Lisboa. “Primeiro, gostar da modalidade que se pratica; segundo, ter treinadores com competência técnica e pedagógica e, até aos 10 ou 11 anos, não estar envolto num ambiente demasiadamente competitivo.”

O desporto no início do ciclo da vida

Se as competências físicas conferidas pela prática desportiva são óbvias – combate à obesidade, coordenação motora, fortalecimento muscular –, nunca é demais relembrar as vantagens sociais e psicológicas. Autoconfiança, capacidade de superação, de trabalhar em equipa e de lidar com o fracasso.

“Os pais devem transportar o que os filhos aprendem no desporto para o dia a dia. Se a criança joga voleibol e no início não sabe servir, mas melhora com o treino, esse exemplo deve ser usado para a motivar na escola. Assim, ela vai saber que, mesmo que um teste corra mal, com estudo e dedicação vai ter melhores resultados. A criança retira gratificação da sua evolução”, diz Miguel Barros.

“O importante é que o desporto seja útil na melhoria da relação da criança com ela própria e com os outros. Pode ajudar no ciclo da vida que permite um desenvolvimento saudável: ser amado e reconhecido pelos outros, para depois se amar e reconhecer a si próprio, de forma a poder amar e reconhecer os outros.”

Desportos individuais vs desportos de equipa

Uma das primeiras questões que os pais colocam quando querem pôr os miúdos a mexer, é se devem optar por uma modalidade individual ou coletiva. Miguel Barros defende que até aos 4-5 anos, se deve optar por atividades singulares mais simples: natação, ginástica ou ballet. Por volta dos 6-7 anos, pode começar com jogos mais complexos, como o ténis.

“Daí em diante, as modalidades coletivas, como o futebol, o rugby, o basquete ou o voleibol, tornam-se apelativas e importantes, mas sem uma pressão competitiva elevada”, diz o psicólogo. “Nestes jogos, deve prevalecer o espírito de equipa, a solidariedade, ajudar e ser ajudado, ganhar e ser felicitado, perder e ser apoiado, todas elas ações importantes no domínio social”.

Estes valores contam com alguns inimigos – treinadores que colocam as vitórias acima do desportivismo e pais que vão para os recintos berrar com os árbitros. “Em vez de sentirem prazer no jogo, as crianças podem sentir-se pressionadas, frustradas e ansiosas”, diz o psicólogo.

Desporto certo para o seu filho: não há receitas mágicas 

Uma criança que sofre bullying deve ir para o karaté aprender a defender-se. Um miúdo tímido deve entrar numa equipa para aprender a socializar. Se o seu filho é teimoso, torne-o atleta porque vai querer bater os seus próprios tempos. A internet está cheia de artigos que prescrevem qual o desporto certo para o seu filho e qual é o mais adequado para a identidade de cada criança.

“Mas isso é tão subjetivo”, lamenta Miguel Barros. “Uma criança introvertida pode, de facto, melhorar no seio de uma equipa de futebol. Contudo, se não gostar, se estiver à parte, vai ter uma experiência negativa. Por outro lado, se for focada, modalidades como o ténis ou a natação podem conferir-lhe mais prazer ”.

O psicólogo não rejeita, porém, que as características de algumas modalidades possam ajudar na superação de problemas: “Uma criança avessa ao contacto físico poderá encontrar no rugby, que contém um conjunto de valores éticos, uma saída para o seu bloqueio”. Mas o melhor é mesmo não se fiar em receitas que lhe dizem qual o desporto certo para o seu filho: exponha-o a vários desportos, leve-o a experimentar, explique-lhe  bem as regras. Vai ver que num deles ele se vai sentir um campeão.

 

Colaboração:
Miguel Pinto Barros, psicólogo clínico do Hospital Lusíadas Lisboa

Especialidades em foco neste artigo:
Psicologia

Pode ler este artigo na edição número 7 da Revista Lusíadas, aqui