Como a força de vontade derrotou o excesso de peso

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Aos 6 anos, Joana não resistia aos doces. Comia-os todos os dias e o resultado passou a notar-se na balança. Agora, aos 11 anos, Joana só come chocolates uma vez por semana e não dispensa a zumba, o seu desporto favorito. O que mudou? A família e Joana embarcaram num processo para derrotar o excesso de peso. E conseguiram.

Joana Romão comia bolachas todos os dias. Também adorava chocolates. De manhã, ao pequeno-almoço, Joana, então com 6 anos, escolhia sempre uma tigela de cereais achocolatados. E no verão, deliciava-se com gelados, um depois do almoço e outro ao jantar.

Os pais não colocavam muitos entraves. Mas um dia a mãe, Gracinda Romão, começou a notar que a barriga da filha estava cada vez mais volumosa. “Perguntei à pediatra que a seguia na altura se não seria melhor fazer umas análises. Mas ela desvalorizou, disse-me que era uma questão de crescimento”, conta Gracinda Romão à Lusíadas.

Em setembro de 2012, quando a família recorreu à Unidade de Atendimento Urgente Pediátrico do Hospital Lusíadas Lisboa por causa de uma dor de barriga, a pediatra Margarida Lobo Antunes teve uma opinião diferente. Na altura, a menina pesava 27 quilos, media 1,17 metros e tinha um índice de massa corporal de 19,7 – estava com excesso de peso.

Tratada a Joana fez análises para despistar problemas da tiroide ou diabetes. Mas os resultados vieram negativos. “A causa do excesso de peso e obesidade da esmagadora maioria das crianças é um desequilíbrio alimentar e pouca atividade física”, explica a pediatra, especialista em obesidade infantil.

Joana gostava de comer. “Quanto mais comia, mais fome tinha, já tinha o estômago dilatado”, conta Gracinda Romão. A pediatra pediu então que os pais escrevessem um diário das refeições da criança. “É uma forma de os pais refletirem sobre aquilo que os filhos comem ao longo do dia”, explica a médica. Depois definiu um plano alimentar. O objetivo era que a menina não aumentasse de peso. “Com as crianças temos de ter mais cuidado para não interferir no processo de crescimento. Não fazemos dieta, tentamos antes que façam uma alimentação saudável”, explica Margarida Lobo Antunes.

De manhã, os cereais de chocolate foram substituídos por pão integral e leite magro. Foram introduzidos os legumes e a sopa sem batata e o lanche variava entre o iogurte e a peça de fruta com apenas duas a três bolachas. Toda a família esforçou-se para passar a comer melhor, mas foi difícil mudar as rotinas. Nos dois anos seguintes, Joana continuou a ganhar peso e em 2015, com 9 anos, pesava 40 quilos, quando para as raparigas o peso ideal é de 27 quilos.

Entretanto, Joana começou a ressentir-se do peso em excesso. Na escola, os colegas gozavam com ela. “Chamavam-me gorda”, conta à Lusíadas. Recusavam-se a sentar-se junto dela na cantina e Joana chegava a casa a chorar. “No ano passado, o quinto ano foi um período mau. A Joana começou a levar almoço de casa e comia no centro de estudos”, conta a mãe.

A obesidade infantil pode provocar hipertensão, fígado gordo, diabetes tipo 2 e apneia do sono, mas um dos problemas mais graves é psicológico. “As crianças são vítimas de bullying, isolam-se e ficam tristes, deprimidas”, diz a pediatra. “Às vezes, é isso que motiva os pais a não cederem aos pedidos dos filhos por um bolo e respeitarem as regras.”

Agora, aos 11 anos, Joana é a primeira a respeitar o plano alimentar. “Gostava de chocolates e de gomas, que são coisas que engordam muito. Agora só como uma vez por semana. Em dias de festa, se como mais do que isso fico maldisposta.” Para tal também contribuiu o seu passatempo favorito, a zumba. Tem aulas da dança aeróbica três vezes por semana há um ano e só falha quando tem testes na escola. “Na primeira aula não sabia os passos e cansei-me bastante. Agora estou sempre à frente na turma. Como sei as coreografias, olham para mim para não se enganarem”, conta.

Há um ano chegou a pesar 45 quilos. Agora cresceu, mede 1,41 metros, pesa 42 quilos e tem um índice de massa corporal de 21,1, considerado normal. “Há miúdos que não perdem peso, mas crescem dois centímetros e isso faz descer o índice de massa corporal”, explica a pediatra. “Ela perdeu bastante barriga e já veste roupas que antes achava que lhe ficavam mal”, conta a mãe. Na escola, a situação também melhorou depois de uma conversa que a diretora de turma teve com os alunos. “Jogamos todos à apanhada e também sinto que consigo estar mais concentrada nas aulas.”

Desafios: mudar a alimentação e combater a inatividade

O número de crianças com excesso de gordura corporal é cada vez maior. “Uma em cada três crianças portuguesas tem excesso de peso ou obesidade. É um problema de saúde pública e uma epidemia global”, refere Carla Laranjeira, pediatra, especialista em nutrição e obesidade infantil no Hospital Lusíadas Porto.

As causas passam sobretudo pelo abandono da dieta mediterrânica, caracterizada por produtos hortícolas, fruta e leguminosas – e que é considerada uma das dietas mais saudáveis –, por alimentos processados, com elevada densidade calórica e reduzido valor nutricional, e pelo sedentarismo. “Temos taxas de inatividade muito elevadas.”

O maior desafio é convencer os pais a modificarem a dieta de toda a família. “O modelo parental é muito importante e todos na família deverão cumprir os novos hábitos alimentares”, explica Carla Laranjeira. Para ajudar a visualizar o problema, a pediatra pede aos pais para recordarem o que havia na despensa de casa quando eram crianças. “Havia sobretudo alimentos frescos. Agora todas as famílias têm refrigerantes e bolachas em casa.”

Os pais queixam-se que não têm tempo para confecionar refeições saudáveis, nem para fazer exercício físico. E alguns não reconhecem sequer que os filhos estão doentes. “Acreditam que com o crescimento o problema desaparece. Mas ocorre precisamente o contrário: uma criança obesa será, com uma elevada probabilidade, um adulto obeso.”

A taxa de sucesso no tratamento da obesidade infantil é mais elevada em crianças com menos de 10 anos do que em pré-adolescentes e adolescentes. “As taxas de sucesso são satisfatórias quando se intervém precocemente”, refere Carla Laranjeira.

 

Leia o artigo na íntegra na edição número 7 da Revista Lusíadas (2017).

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