Papeira: sintomatologia e terapêutica

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Predominantemente benigna para as crianças, mas potencialmente grave no caso dos adultos, a parotidite epidémica ou papeira é uma doença com elevado índice de contagiosidade, mas passível de prevenir com vacinação.

O que é a papeira

A parotidite epidémica ou papeira é uma doença infetocontagiosa causada pelo vírus paramyxovirus, que se transmite por via respiratória, através de gotículas de saliva ou nasais e por contacto direto. Provoca o inchaço de uma ou ambas as glândulas parótidas, situadas na zona da mandíbula, podendo igualmente provocar sintomas em outros órgãos. “A sua maior incidência ocorre na fase final do inverno e início de primavera, mas surtos esporádicos de papeira podem ocorrer em qualquer altura do ano”, explica Mafalda Leite, pediatra da Clínica Lusíadas Sacavém.

Em Portugal

Apesar de ser mais frequente nas crianças em idade escolar, sobretudo entre os dois e os nove anos, e ainda em jovens adultos, a papeira pode surgir em qualquer idade. Em Portugal, regista-se uma média de 150 casos por ano, de acordo com os dados revelados pelo Instituto Nacional de Estatística. “A ausência de vacinação é o principal fator de risco na população em geral, sendo recomendado que os profissionais de saúde estejam igualmente protegidos com a vacina”, alerta a pediatra.

Sintomas

Aumento de dimensão de uma ou ambas as glândulas parótidas (podendo desencadear dor);
Dificuldade em mastigar e/ou engolir;
Febre;
Cefaleias (dores de cabeça);
Mialgias (dores musculares);
Fadiga;
Anorexia (redução de apetite).

Nota: Em 15% a 20% dos casos, a doença apresenta-se assintomática, sendo a ausência de sinais mais frequente nos adultos do que nas crianças.

Fatores de risco

“Apesar de previamente vacinada, qualquer pessoa poderá adquirir a doença, embora geralmente com um quadro clínico não tão exuberante”, lembra a especialista. A probabilidade aumenta particularmente quando:
O doente apresenta uma situação de maior suscetibilidade pelo facto de o seu sistema imunitário se encontrar debilitado (de forma aguda ou crónica);

Existe contacto com vários casos da doença em simultâneo.

Contágio

“A papeira é contagiosa durante as 48 horas anteriores a aparecimento de sintomas da doença e 6 a 9 dias depois do início dos sintomas, sendo o período de incubação da doença de 12 a 24 dias”.

Cuidados a ter para evitar a propagação da doença:

Permanecer em casa;

Desinfetar os objetos contaminados com secreções do nariz, boca ou garganta.

“Em situações de infeção que atinge em simultâneo um conjunto de indivíduos que coabitam o mesmo espaço — por exemplo, em escolas, postos militares, campos de férias ou prisões —  a disseminação do vírus poderá atingir um número maior de pessoas, criando surtos de doença”, explica a especialista da Clínica Lusíadas Sacavém. Nestes casos, acrescenta, “está recomendado que as autoridades de Saúde Pública avaliem o estado vacinal daqueles que contactaram/contactam com os indivíduos e a eventual necessidade de efetuar uma terceira dose de vacina”.

Complicações

Além das glândulas parótidas, o paramyxovirus pode afetar outros órgãos, causando dores localizadas resultantes de inflamação/ infeção de maior ou menor gravidade. Estas são mais frequentes nos adultos e em pessoas não vacinadas.

  • Sistema Nervoso Central

A lesão de células do Sistema Nervoso Central poderá contribuir para inflamação/infeção do encéfalo — eventualmente causando surdez futura —, das membranas que o revestem (meninges) ou ainda provocar o aumento de líquido cefaloraquidiano (hidrocefalia). Os quadros são raros, mas potencialmente graves.
Nos anos anteriores ao início de vacinação, a infeção provocada pelo paramyxovirus estava fortemente associada a casos de meningite e encefalite viral e era uma causa frequente de surdez neurossensorial na idade pediátrica.

  • Testículos

Além de dor local e aumento de dimensões de testículos, na fase aguda da doença, poderá ocorrer atrofia testicular. Esta situação ocorre em cerca de 30% a 40% dos casos de infeção no homem adulto. “A redução de fertilidade está associada a infeção testicular, particularmente se ocorrer em ambos os testículos”, explica Mafalda Leite.

  • Ovários e Glândula mamária 

Pode ocorrer inflamação/infeção de ovários e glândula mamária, mas esta não está associada a infertilidade feminina.

  • Coração 

Estão descritos casos de miocardite, nos quais o músculo cardíaco é afetado, sendo o curso, muitas vezes, rapidamente progressivo.

  • Pâncreas 

O vírus da papeira pode acusar inflamação/infeção pancreática, com dores abdominais. Descritos em adultos e crianças, estes casos habitualmente têm boa evolução.
Em casos muito esporádicos, o paramyxovirus pode causar manifestações nas articulações e glândula tiroide.

Prevenção

“Até aos 12 meses, por norma, a criança possui imunidade que lhe foi conferida pela mãe”, explica a pediatra. Depois, a melhor forma de prevenir a doença é a vacinação.

De acordo com o Programa Nacional de Vacinação, a vacina antissarampo, parotidite e rubéola (VASPR), deve ser administrada em duas doses, aos 12 meses e aos 5/6 anos.

“Antes da administração da vacina de forma generalizada na população dos EUA, o país registava 186 mil casos de parotidite epidémica a cada ano. Após a implementação da vacina —incluída no Plano Nacional de Vacinação em 1967 — registou-se uma redução superior a 99% de casos/ano (*), o que demonstra a real eficácia da vacina na saúde da população e o impacto positivo que poderá ter em comunidades com alta cobertura vacinal no que diz respeito à redução de intensidade e gravidade de sintomas, duração de doença e capacidade de contágio a outros indivíduos”.

Terapêutica

Não há terapêutica específica para a infeção provocada pelo paramyxovirus. “A doença é autolimitada, o que significa que a terapêutica deverá consistir em medidas gerais de suporte, no sentido de reduzir os sintomas”, explica Mafalda Leite.

Nos casos em que não ocorrem complicações após a fase aguda da doença, desde que o doente ponha em prática as orientações dos profissionais de saúde, resultantes do controlo clínico necessário nestes casos, habitualmente verifica-se uma evolução progressiva de melhoria do quadro clínico. Os sintomas da papeira vão melhorando progressivamente após a fase aguda da doença ao longo de cerca de 10 dias.

Fontes:

(*) Centre for Diseases Control and Prevention USA. Mumps Cases and Outbreakes, November 2016.

Colaboração:
Mafalda Leite, pediatra da Clínica Lusíadas Sacavém.

Especialidade em foco neste artigo:
Pediatria

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