Anemia: como identificar os sintomas

Sabia que este problema afetará um em cada cinco portugueses com mais de 18 anos? João Estevens, especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Albufeira, lista as causas e salienta que a melhor forma de prevenção é o acompanhamento médico constante.

Chama-se anemia à redução do número de glóbulos vermelhos no sangue

Em termos estatísticos, numa família portuguesa de cinco pessoas maiores de idade, uma delas sofrerá de anemia. É que esta redução do número de glóbulos vermelhos no sangue afetará 20% da população nacional, concluiu um estudo de 2013 da Anemia Working Group Portugal a 7890 pessoas com mais de 18 anos.

A prevalência será maior nas mulheres (devido ao ciclo menstrual e no terceiro trimestre da gravidez, com o aumento do volume plasmático e diminuição da hemoglobina) do que nos homens; e as duas faixas etárias mais afetadas são as dos 18 aos 34 anos e a partir dos 75 anos.

No caso dos idosos, sublinha João Estevens, especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Albufeira, vários estudos estabeleceram uma associação significativa entre a anemia e o declínio funcional (aumento da fraqueza muscular, quedas) e cognitivo (sintomas depressivos). Os défices vitamínicos, a doença renal crónica, outras condições crónicas (como artrite e diabetes) podem ser o motivo da anemia nas pessoas mais velhas.

O que é 

A anemia pode ser definida como a redução absoluta do número de glóbulos vermelhos circulantes. O diagnóstico é feito quando os valores de hemoglobina (molécula responsável pelo transporte de oxigénio no sangue) caem abaixo dos 13-14 g/dL nos homens e dos 12 g/dL nas mulheres.

Entre as diversas formas de anemia, está a ferropénia (por défice de ferro), descreve João Estevens.

Anemia por défice de ferro

A anemia ferropénica afeta cerca de 12% da população mundial, maioritariamente mulheres em idade fértil, crianças e indivíduos que vivem em condições socioeconómicas limitadas. Um estudo publicado em 2016 aponta uma prevalência de 17% de anemia por défice de ferro na população portuguesa adulta.

Causas

  • As perdas sanguíneas

Desde uma hemorragia decorrente de traumatismo, perdas de sangue observadas no vómito, fezes ou urina, perdas menstruais ou durante a gravidez, o parto e a lactação;

  • Uma ingestão dietética deficiente

O que se regista sobretudo nos países menos desenvolvidos;

  • Uma reduzida absorção do ferro

É a causa mais incomum, que se pode verificar na doença celíaca, gastrite atrófica ou em doentes submetidos a cirurgia bariátrica. Existem ainda alguns alimentos contendo tanatos, fosfatos e fitatos (presentes nalguns cereais e sementes) que podem limitar a absorção de ferro.

Outras formas de anemia e as principais causas

A maior parte das anemias pode ser discriminada pelo estudo da morfologia dos glóbulos vermelhos, nomeadamente pelo seu tamanho, que nos é dado pelo índice do volume globular médio (VGM).

  • Anemias microcíticas

São caraterizadas por glóbulos vermelhos pequenos (VGM<80fL). As causas mais comuns são a deficiência de ferro, a talassémia (isto é, uma limitação na síntese de globina) e a anemia que se desenvolve no contexto de inflamação crónica.

  • Anemias macrocíticas

São caracterizadas por glóbulos vermelhos de grandes dimensões, com um VGM superior 100fL. As causas mais comuns são o alcoolismo, a doença hepática, os défices de ácido fólico ou vitamina B12 e a mielodisplasia (quando a produção de células sanguíneas pela medula óssea é ineficaz ou insuficiente).

  • Anemia normocítica

Quando os doentes têm o VGM entre 80 e 100fL. Pode desenvolver-se em contexto de perdas sanguíneas, estados de hemólise aguda ou crónica (autodestruição dos glóbulos vermelhos) ou como manifestação de uma patologia sistémica complexa como a doença renal crónica, a leucemia e outras.

Sintomas

Os sintomas relacionados com a anemia podem resultar de dois fatores: redução da entrega de oxigénio aos tecidos; e, em contexto de hemorragia marcada pela hipovolémia, isto é, pela diminuição de volume de sangue circulante devido à perda por hemorragia.

Incluem:

  • Fadiga;
  • Fraqueza;
  • Cefaleia;
  • Irritabilidade;
  • Intolerância ao exercício;
  • Algum grau de dificuldade respiratória;
  • Vertigem;
  • Letargia e perda de consciência no caso da anemia induzida por perdas sanguíneas importantes.

 

Em tempos, verificava-se a cor dos olhos por baixo da pálpebra para perceber se uma pessoa tinha ou não anemia. Hoje, refere João Estevens, tal ação não tem utilidade.

Prevenção

A prevenção de uma anemia é relativamente difícil porque com frequência ela é causada por inúmeros fatores. Mesmo as anemias por défices vitamínicos ou de ferro não têm, na maioria das vezes, como causa de base uma dieta vegetariana estrita ou falta de cuidados que as teriam evitado. Cabe aos indivíduos adoptar um estilo de vida saudável, uma alimentação equilibrada e variada e ser seguido pelo médico nas várias etapas da vida, de modo a que este detecte e trate precocemente possíveis causas de anemia.

Colaboração:
João Estevens, especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Albufeira 

Especialidades em foco neste artigo:
Medicina Interna