Cirurgia pioneira elimina dor do cancro na coluna

Pela primeira vez, realizou-se em Portugal uma cirurgia minimamente invasiva à coluna que destrói as células cancerígenas e fortalece os ossos afetados.

Cirurgia pioneira à coluna: cancro na coluna

No verão de 2017, o neurocirurgião Vítor Moura Gonçalves, do Hospital Lusíadas Lisboa, conseguiu eliminar a dor que tornava impossível a vida de Maria Teresa Oliveira, de 66 anos. Ao fim de menos de uma hora de cirurgia, e após apenas uma noite de internamento, Maria Teresa Oliveira saiu pelo próprio pé, quando antes mal conseguia caminhar.
Maria Teresa Oliveira recorreu à consulta de neurocirurgia por causa de um mal-estar na região lombar e dorsal baixa. “Era uma dor muito incapacitante, que nem com repouso ou medicação aliviava”, recorda o neurocirurgião Vítor Moura Gonçalves da Unidade de Neurocirurgia do Hospital Lusíadas Lisboa.
Na altura foi realizada uma TAC da coluna vertebral através da qual se detetaram dois tumores raquidianos, com invasão e destruição óssea, que pareciam metástases (focos secundários) de um cancro. “Um estudo toraco-abdomino-pélvico revelou uma lesão pulmonar mas o resultado da biópsia por broncofibroscopia [uma endoscopia que visualiza através de fibra ótica todo o sistema respiratório] foi inconclusivo.”doentes”, conclui o neurocirurgião.

Cirurgia pioneira

Foi nessa altura que decidiram realizar, pela primeira vez em Portugal, uma cirurgia minimamente invasiva com radiofrequência que só recentemente foi desenvolvida. “Fez-se um pequeno orifício na pele, com menos de cinco milímetros de diâmetro, e colocou-se uma cânula no corpo da vértebra, invadida pelo tumor, tudo orientado  por raios X”, explica o neurocirurgião Vítor Moura Gonçalves. “Através dessa janela de trabalho, e de forma muito precisa e minuciosa, foi colocada dentro do tumor uma pequena sonda que tem um elétrodo bipolar que é internamente arrefecido para proteger os tecidos vizinhos do calor excessivo. Depois, através da radiofrequência ocorreu dissipação de energia, sob a forma de calor, que destruiu as células cancerígenas.”
O procedimento permitiu ainda fazer o diagnóstico histológico através do tecido recolhido – adenocarcinoma pulmonar – e realizar uma estabilização da coluna através da injeção de cimento ósseo (vertebroplastia) no interior das vértebras onde se encontravam as metástases.

Veja a entrevista ao cirurgião Vítor Moura Gonçalves sobre esta técnica:

 

As vantagens

Antes desta técnica os doentes tinham de ser tratados com cirurgias mais agressivas que implicavam a remoção de vértebras e que impunham uma recuperação mais prolongada ou eram submetidos a esquemas de paliação da dor muitas vezes ineficazes e com efeitos secundários nefastos. Mas há mais vantagens apontadas por Vítor Moura Gonçalves:  “Esta cirurgia ajuda a definir terapêuticas adjuvantes destinadas a cada tipo específico de tumor através da análise do tecido colhido e, como não afeta os tecidos, é possível realizar de imediato tanto a radioterapia, hormonoterapia como a quimioterapia.”
Além da erradicação da dor e de proporcionar a mobilização precoce, esta técnica ainda permite a destruição das células cancerígenas impedindo a sua progressão e disseminação.

A técnica está indicada para tumores na coluna vertebral, benignos e malignos, sendo os mais comuns as metástases vertebrais provocadas pelo cancro do pulmão, da mama, da próstata, do rim e do aparelho digestivo. Contudo, há fatores que limitam a sua aplicação. “Temos de avaliar a morfologia do tumor, a extensão da doença – se invadiu a medula ou os nervos – e a condição médica do doente.” Esta técnica pode ser usada para efeitos paliativos em doentes terminais.

Na manhã seguinte à cirurgia, Maria Teresa Oliveira recuperou todos os movimentos que tinha perdido nos últimos meses. Mais: antes do procedimento, classificou a dor que sentia – numa escala de zero a dez, sendo que zero é ausência total de dor e dez a dor máxima imaginável – entre 9 e 10. Depois da cirurgia, a classificação que Maria Teresa Oliveira deu à dor que sentia ultrapassou todas as expetativas: zero.

 Este artigo foi publicado na Revista Lusíadas 9.