Ansiedade nos pais: como controlar

É normal os pais preocuparem-se. Mas existe uma fronteira entre preocupação e ansiedade e esta última, se for permanente, tem consequências para a criança e para os pais.

Ansiedade nos pais: como lidar?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 33% da população mundial sofre de ansiedade. Incluídos nesta estatística estão os pais, que cada vez mais se apresentam com um comportamento ansioso, refere Elisabete Vieira, psicóloga na Clínica de Stº António. “É normal e esperado que os pais se preocupem, mas tudo o que é excessivo é nefasto”, salienta a psicóloga. Quando a fronteira entre preocupação e ansiedade nos pais é ultrapassada pode ter consequências negativas graves e requerer ajuda especializada.

Preocupação vs. ansiedade

A preocupação engloba pensamentos relacionados com acontecimentos futuros e muitas vezes é acompanhada por incertezas, angústias e sentimentos de ansiedade que podem traduzir-se em sintomatologia resultante de um nível excessivo e incontrolável de preocupação, explica Elisabete Vieira. Porém, a preocupação não pode ser encarada sempre de forma negativa e disfuncional. Pelo contrário, como refere a psicóloga, por vezes “a preocupação tem um carácter funcional e importante, desde que numa proporção ajustada à natureza da situação e que interfira minimamente com a qualidade de vida e bem-estar dos indivíduos.”

Já a ansiedade pode ser definida como um estado psíquico de apreensão ou de medo provocado pela antecipação de uma situação desagradável ou perigosa para a própria pessoa. Esta antecipação não permite viver o presente, pois “as pessoas ansiosas preocupam-se mais com o futuro e com a tentativa de controlar as situações e quem está ao seu redor”, descreve Elisabete Vieira.

Quando a tal fronteira entre preocupação e ansiedade é ultrapassada, existem vários sinais a serem tidos em consideração que revelam que podemos estar perante uma perturbação de ansiedade. Entre esses sinais incluem-se agitação, nervosismo, frustração, dificuldade na concentração, irritabilidade, tensão muscular, perturbação do sono, entre outros.

As causas mais comuns de ansiedade nos pais

As características da sociedade atual influenciam o comportamento das pessoas enquanto indivíduos e enquanto pais. Elisabete Vieira aponta alguns fatores que contribuem para a ansiedade nos pais: uma vida agitada, assim como as exigências profissionais, a competitividade, as exigências familiares, os desajustes familiares, o desconhecido e o inesperado, todas estas características podem promover um estado de alerta, apreensão e preocupação que é natural do ser humano.

E será que a ansiedade nos pais contribui para a ansiedade nos filhos? A psicóloga refere que existem múltiplos fatores que podem estar na origem das perturbações de ansiedade em crianças e adolescentes, nomeadamente, fatores biológicos, ambientais e individuais. A vulnerabilidade aumenta quando os fatores familiares se acentuam com pais ansiosos. Pais ansiosos têm mais probabilidade de terem filhos ansiosos, pois os pais não só transmitem esta ansiedade aos filhos como lhes ensinam a ser ansiosos. Os filhos aprendem a lidar com as situações como os pais lidam. “As crianças têm tendência para replicar o que veem, neste caso, o que veem os pais fazerem e se os pais têm comportamentos em que demonstram irritabilidade, nervosismo, agitação, as crianças também vão ter comportamentos neste sentido”, ilustra Elisabete Vieira.

Em termos de consequências, a psicóloga alerta que a ansiedade excessiva que é acompanhada de sintomatologia física pode provocar uma dificuldade grande em gerir a incerteza própria da vida originando, muitas vezes, de acordo com a psicóloga, erros de raciocínio, no sentido em que se assumem pressupostos sobre a adequação e o valor da preocupação, sobre o nível de risco e de controlo envolvidos nas situações quotidianas, caindo-se num reducionismo nas avaliações dos resultados possíveis, que, muitas vezes, tendem a assumir desfechos negativos e catastróficos das situações.

Como os pais podem lidar melhor com a ansiedade

Elisabete Vieira deixa vários conselhos que podem ajudar os pais no dia a dia:

Deve-se ser realista e assumir que por muito que se tente não se consegue controlar os outros e tudo o que se passa à nossa volta;

Deve-se viver um dia de cada vez, ou melhor ainda, um momento de cada vez, aproveitando-o ao máximo. Quando as situações surgirem, há que pensar que vamos lidar com elas da melhor forma que nos for permitido, tendo em consideração as circunstâncias, os nossos recursos, as nossas características, as características dos outros;

Nem tudo depende de nós e pode-se dar um voto de confiança aos outros, pois eles também terão capacidade para gerirem o que estiver ao seu redor;

Os nossos filhos não são propriedade nossa, devem ter a possibilidade de experimentar e errar para poderem aprender. Além disso, devem ter a possibilidade de se aperceberem das suas capacidades e isto só se consegue se não tentarmos controlar todos os seus atos. Magoarem-se, chorarem, ficarem tristes, faz parte do desenvolvimento e tentarmos evitar estas situações não lhes permite um desenvolvimento saudável e natural.

Colaboração:
Elisabete Vieira, psicóloga da Clínica de Stº António

Especialidade em foco neste artigo:
Psicologia